O homem mais solitário do mundo não sabia que era o homem mais solitário do mundo. Obviamente, já que não existem estatísticas confiáveis a respeito. Tampouco havia participado de campeonato ou torneio que lhe oferecesse a possibilidade de um título. O homem mais solitário do mundo não conseguia companhia nem para jogar uma partida de caxeta, muito menos para disputar concursos de melancolia e autocomiseração.
No entanto, o homem mais solitário do mundo sabia que algo estava errado, e no silêncio dos dias e das noites sozinho matutava a respeito.
A princípio, imaginou ser o nariz, grande demais, um pouco deformado. Mas, após diligente pesquisa de campo, concluiu que se seu nariz não era lindo, é verdade, pelo menos estava no mesmo lugar dos narizes de todas as outras pessoas do mundo, o que devia indicar algum grau de correção anatômica.
Não, não era o nariz.
Também não eram os olhos, apesar de um pouco caídos. Tampouco era a boca.
O homem mais solitário do mundo tinha dois braços e duas pernas, em cujas extremidades se conectavam mãos e pés, com todos os dedos. Não era o homem mais esperto do mundo, disso sabia, mas também estava longe de ser o mais idiota. Era, de fato, um homem comum, mediano, medíocre, como a maioria dos homens.
Mesmo assim, era sozinho.
Talvez por ser excessivamente tímido, pensou. Talvez. Pode-se dizer que o homem mais solitário do mundo era sem dúvida um homem calado. E nos vácuos ocupados pelo silêncio, a substância que é a sustança da solidão, ele lembrava.
Lembrava-se da vez em que esmurrara um menino no colégio, porque as palavras lhe fugiram, e depois se arrependera; e também de outra ocasião, em que quisera esmurrar um rapaz em um bar, mas não o fez – e se arrependera por isso também.
De onde o homem mais solitário do mundo concluiu que as outras pessoas serviam apenas para isto: fazer com que se arrependesse. E assim, todas as manhãs, algo passou a lhe puxar pelos cabelos e tentar evitar que saísse da cama.
Com frequência, o homem mais solitário do mundo bebia. Não raro, exagerava. Dia sim, dia não, desmaiava chumbado sobre o balcão sujo de um night club de quinta, e era atirado para fora por um segurança grandalhão, às vezes na chuva.
Em uma dessas madrugadas, o homem mais solitário do mundo entrou em casa encharcado e ficou olhando para si mesmo no espelho do banheiro. Percebeu que alguém havia desenhado com canetinha colorida em seu rosto agora borrado.
O homem mais solitário do mundo quase chorou, mas então deteve-se em seus ombros. Eram ombros retesados, ele reparou.
Ombros tensos. Como se estivessem sempre à espera de uma pancada. Tensão. Era isso que lhe viajava o sangue. Que o punha acuado. Tudo residia naqueles ombros.
Mas o homem mais solitário do mundo deixou escapar essa óbvia constatação. Era um homem mediano, medíocre, era como a grande maioria dos homens, tão sensível quanto um bloco de concreto armado. Não dava por essas coisas.
De modo que o homem mais solitário do mundo seguiu, vida afora, com seu nariz anatomicamente sensato, seus ombros em guarda, sua solidão e sua dúvida: onde teriam ido todos?
Até que o homem mais solitário do mundo morreu, provavelmente de desgosto. No velório, o café esfriou sem ser tocado, prescindiu-se das preces, do choro, dos soluços e dos pêsames.
A certa altura, quase à hora do enterro, apareceu um único ser vivo, o único conhecido do homem mais solitário do mundo: o segundo homem mais solitário do mundo – que deu uma olhadela em volta e precisou sair precipitadamente, pois tinha trabalho a fazer.
A morte do homem mais solitário do mundo não deu no jornal nem na TV, não pareceu importante. Não correu o Facebook ou o Twitter. Uma pena. Quando o homem mais solitário do mundo morreu, todos os homens do mundo ficaram um pouco mais solitários.
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