Discutir com um italiano quem era maior, se Pelé ou Maradona, é uma tarefa dura pra um brasileiro. Na Itália, diferente da maior parte dos outros lugares (a própria Argentina excluída, naturalmente), o consenso em torno da primazia de Maradona sempre foi absoluto. Eu até posso entender a obsessão deles pelo argentino: afinal, ele jogou anos na Itália, ele é mais recente no tempo (e por isso ainda vive na memória pessoal de tanta gente) e também, diferente de Pelé, ele já pertenceu a uma época das transmissões televisivas em massa – creio que o auge de Pelé nunca ficou bem registrado. Mas ainda assim, nacionalismo meu à parte, nunca aceitei isso e fui talvez até incisivo com amigos italianos nos meus argumentos em prol do “rei do futebol”. Mas hoje em dia percebo que argumentar a favor de Pelé dizendo por exemplo que ele era ambidestro, que tinha maior impulsão ou melhor cabeceio na verdade não chega no cerne da discussão. O problema é outro. Maradona, como nenhum outro antes dele e nem depois (nem mesmo Pelé) é um mito. E contra isso não existe tabela de comparação possível.
Mito, na acepção mais acadêmica, é uma palavra forte. Verdade que ela foi vulgarizada e erodida nos últimos tempos, mas no seu sentido apropriado (“mythós”, do grego), remete à narrativa das origens, os relatos fundantes que servem de base para um sentimento comum, pode envolver deuses e heróis, não raro em suas trajetórias trágicas (“trágico” aqui também no sentido antigo). Povos ou civilizações podem se unir e se identificar em torno de seus mitos. Eles se tornam atemporais, eternos. Pois esse é caso de Maradona.
E basta andar nas ruas de Nápoles, a cidade do clube em que ele jogou na Itália entre 1984 e 1991, para entender rapidamente isso. Maradona está em todos os lugares. Está nas faixas penduradas pelas ruas, está nas janelas das casas, está no comércio e nos souvenirs para os turistas, está pintado em murais, está na parede dos restaurantes e existe até um templo (por assim dizer) na cidade, com altar e velas, dedicado a ele. O Napoli é o atual time campeão da Itália, mas na celebração apaixonada que a cidade faz não se veem imagens dos atuais jogadores do time como se vê a imagem de Maradona (“Maradona vive!”, dizem). É quase como se ele fizesse parte do time de 2024/2025. E essa sensibilidade é condividida pelo mais humilde pizzaiolo da cidade e pelo mais sofisticado cineasta italiano (o Fellini dos nossos tempos, para mim), que é o napolitano Paolo Sorrentino (veja-se, em seu belíssimo “A Juventude”, uma homenagem explícita ao Pibe de oro, como em outros seus filmes).
Mas o que explica que quase quarenta anos depois que ele esteve em Nápoles – o que há de se convir que é bastante tempo – Maradona continue onipresente? A resposta é essa: sua dimensão, que não vejo em mais ninguém no futebol, de mito.

Para entender melhor isso, cabe contar aqui um dado importante do cenário italiano dos anos 1980 e 1990: pra quem acha que no Brasil existe um preconceito e uma divisão forte entre o sul e o norte (ou nordeste), não sabe o que foi a experiência italiana. Na Itália as coisas eram muito mais pesadas. Era como se houvesse duas Itálias: a rica, industrializada, limpa e civilizada do norte; e a pobre, mafiosa e suja do sul. Criou-se até um partido (a “Liga Norte”), que existe até hoje (mas hoje se chama só “Liga”) com discurso baseado no preconceito e no separatismo. O passado soberbo e glorioso de cidades do sul como Nápoles, Palermo e Lecce era como se não fosse nada diante da prosperidade de Milão ou Turim. E isso se refletia também no futebol italiano: esses anos foram os de hegemonia imensa da poderosa Juventus (turinesa) e da Internazionale e do Milan (times milaneses), com um breve período de brilho da Roma, onde o nosso Falcão despontou. Pois foi exatamente nesse contexto e nesse cenário que o time de Nápoles, depois de muito tempo, ressurge de modo improvável como potência e, surpreendendo todo mundo, ganha dois “scudetti” – tendo na sua frente, claro, Maradona, então no auge de sua forma. Aqueles não foram só campeonatos nacionais vencidos pelo Napoli; foram também desforra, reafirmação, vingança. O time e a cidade se sentiam redimidos, esfregando na cara do Norte a competência, mas também a magia e o brilho que eles então não tinham. E o símbolo e protagonista disso tudo era ele, Maradona.
Outro dado importante da época: em 1982, depois do delírio da junta militar que governava com mão de ferro a Argentina, os nossos “hermanos”, num arroubo nacionalista em meio a uma crise interna que cada vez era mais forte no país, resolvem invadir as Ilhas Malvinas, que pertenciam aos britânicos (eles as chamavam de “Falkland”). Isso foi o estopim para a chamada “Guerra das Malvinas”, que durou poucos meses, mas serviu para esmagar o orgulho argentino, diante da rápida e acachapante vitória dos ingleses.
Pois esse evento traumático estava ainda à flor da pele quando o destino quis que Inglaterra e Argentina se enfrentassem nas quartas de final da Copa do Mundo do México de 1986. Aquele não era só um jogo, era a guerra revivida; não era só futebol, eram orgulhos nacionais em confronto. E naquele fatídico dia 22 de junho, o que se assistiu não foi só a vitória da Argentina (que depois ganharia com mérito o Mundial). O que se viu foi a aventura mítica de um herói que, como todo herói, parecia invencível e intocável, justamente ele, Maradona. Não só porque foi nesta partida que ele fez, para muitos (inclusive para mim) o gol mais bonito da história das copas, pegando a bola no meio campo e driblando todo o time inglês antes de empurrar a bola na rede. Mas porque o segundo gol que ele marcou (os dois gols da Argentina foram de Maradona) foi aquele feito com a mão, que ele colocou sutilmente acima da cabeça e malandramente disfarçou uma cabeçada para dar o rumo certo para a bola. Para mim, esse gol com a mão não pode ser lido, como tantos fazem, como mostra do erro, do roubo e da injustiça da vitória argentina; ao contrário, ele deu um tempero único para a derrota infligida aos ingleses, uma derrota com astúcia, com artifício – que é uma derrota mais dolorida e, para os argentinos, certamente mais merecida.
Heróis frequentemente usam de ardis para derrotar o inimigo – como fez Ulisses, na narrativa mitológica, para se livrar do cativeiro imposto pelo ciclope Polifemo, embriagando-o e depois cegando-o. E quando Polifemo gritava querendo saber quem tinha feito isso, Ulisses respondia “ninguém” – e os outros Ciclopes não vieram em seu socorro porque o já cego e desorientado Polifemo dizia que “ninguém” o havia ferido. Maradona, com sua “Mano de Dios” foi o Ulisses argentino, o gênio do ardil, que foi capaz de ferir e abater o gigante e poderoso Ciclope inglês. Como não se tornar um mito redentor deste jeito? E assim ele foi: viveu como mito, jogou como mito e, em seus descaminhos, também morreu como mito.
Bem entendido, para mim Pelé é o maior de todos e também teve o dom de povoar o imaginário de gerações com sua magia, sem nenhuma dúvida. E de uma maneira que, tendo em vista o que assistimos hoje com alguns de nossos ídolos do futebol – com seus penteados, seu dinheiro e sua vulgaridade – só nos deixa muitas saudades. Mas temos que convir: um mito assim nós nunca tivemos. Viva Diego Armando Maradona!