Nesta semana pensei em abordar na coluna algo relacionado com educação, universidade e o nosso momento cultural. Feliz com isso, porque esta é a minha praia. Resolvo passar os olhos em algumas notícias, editoriais e reels para conferir as últimas. Não gosto do que vejo. A partir daí reflito um tanto sobre algumas coisas que estão acontecendo nos últimos tempos. Fico ainda pior. E tudo o que emerge nos temas que havia pensado compõe um inventário negativo.
O que primeiro me apareceu foi um youtuber de extrema direita lamentando ter sido cancelado por ter defendido armamento infantil. A seguir, mesmo youtuber diz que, de todo modo, quem discorda dele é desarmamentista e, portanto, petralha e esquerdopata. Gente dizendo que escola deforma e contamina crianças e jovens. Políticos que acham que a melhor escola que há, mesmo para os futuros civis, é aquela com disciplina militar ou educação em casa mesmo. Vídeo de um professor que, numa escola militarizada de Goiás, escorrega na mochila de um aluno (branco) e começa a estapear sem dó um outro aluno de onze anos (negro). Gente que acredita em “ideologia de gênero”, “escola sem partido” e coelho da Páscoa. Senador da república criticando o Enem, mas escrevendo na sua crítica “Enen”. Professores sendo mal pagos. Sociedade que deixa de enxergar a nobreza de quem ensina. Deputado de Santa Catarina, no meio da briga com outra deputada de Santa Catarina, diz que até outro dia ela não era nada, “era só uma professora”. Tiktoker substituindo professor. Vídeos na internet substituindo leitura. Inteligência artificial ganhando espaço para tomar o lugar do pensamento. Comportamento de manada (incitado em grupos de WhatsApp) e algoritmos de redes sociais dando a linha do debate público. O tiozão do grupo, que perdeu os freios inibitórios, está mesmo com um megafone na mão, como previu Umberto Eco. Gente medíocre com milhões de seguidores nas redes. “Influencers” da internet com muito mais visibilidade que os principais intelectuais. Grande mídia achando tudo lindo e se adaptando a isso. Esperteza valendo no mercado mais do que cultura. Performance fazendo mais sucesso que conteúdo. Construção textual com eixo, argumento, início, meio e fim, vira “textão” chato. Livrarias desaparecendo. Prateleiras das livrarias (as que restam) dedicadas às humanidades estão cada dia mais estreitas, as da autoajuda e esoterismo cada dia mais largas. Gente oportunista tentando se eleger como representante do legislativo buscando como trampolim causar briga e confusão nas universidades. Essa gente tendo sucesso. Boçalidade e cafonice por todo lado. Pensamento crítico sendo tabelado e colocado em caixinhas estreitas. Girando forte um novo index do que pode e não pode ser lido, o que pode e o que não pode ser criticado. Cultura do cancelamento a todo vapor. Muita gente que nunca pisou em universidade pública ficando à vontade em fazer o inventário dos seus defeitos, a maioria imaginários. Já outros, que devem sua formação à universidade pública, cuspindo muito no prato em que comeram. Gratidão (institucional ou pessoal) valendo cada vez menos. Os defeitos (aqueles reais) das universidades com debate parcialmente interditado pelo corporativismo interno. Racionalidade privada, sob aplausos de muitos, colonizando espaços públicos de ensino. Classe média preferindo que filhos se matriculem nas universidades privadas para que eles não sejam “estragados”. Ninguém percebendo (porque quando é dito não ecoa) que sem aposta forte na ciência até mesmo o desenvolvimento econômico fica comprometido, pra não falar do resto. Nunca chega o dia em que a pesquisa e a pós-graduação são financiadas (como acontece na Coreia do Sul ou na China) de um jeito que nosso futuro merece. Gente que coloca a educação básica e a educação superior em polos opostos pra dar a entender que universidades têm sim que ficar à míngua. Muito pouca gente dizendo que a ciência brasileira está quase toda nas universidades públicas.
Aí de repente me lembro que, sobretudo nas redes sociais, o debate não é tão livre assim, mas em grande medida orientado por grana e por sua ideologia. O apocalipse, afinal, não deve estar assim tão perto. Relembro que o rumo da história não é linear, não tem destino definido e que com muita frequência vem a bonança depois do vendaval. Alguma esperança de que haja clareiras maiores no futuro nestes temas me aquece.
E, de repente, pra arrematar, vejo a notícia desta semana de que o Ranking Universitário da Folha (RUF) deste ano de 2025 colocou a Faculdade de Direito da UFPR, num universo de cerca de 2.000 instituições, como a segunda melhor do Brasil e a primeira em ‘qualidade de ensino’ (Melina Fachin, a querida diretora, diz que é a melhor colocação de um curso em toda a universidade). Penso comigo que se não houvesse na composição deste ranking um estranho critério de “mercado” que compõe a nota, talvez estivéssemos na verdade em primeiro lugar, na frente da USP. Compartilho essa ideia, entusiasmado, com Sergio Staut e com Vera Karam, que têm um baita papel neste sucesso. Enfim, cavo na memória lembranças de como a universidade, apesar dos pesares, é um lugar único e cheio de maravilhas. E penso que logo há de se abrir um inventário positivo. Tem que abrir.