A reprodução simulada das mortes dos jovens Anderbal Campos Bernardo Júnior, de 21 anos, e Willian Jones Faramilio da Silva Júnior, de 18, baleados pela Polícia Militar em 6 de maio de 2022, foi adiada pela terceira vez em Londrina. A diligência estava marcada para a manhã desta terça-feira (10), no Autódromo Ayrton Senna, mas foi cancelada pela Polícia Civil devido à chuva.
A reconstituição foi solicitada pelas famílias das vítimas dentro do inquérito que investiga as mortes. A primeira tentativa de realização da diligência estava marcada para abril do ano passado, mas foi adiada após pedido da Polícia Militar, que alegou falta de efetivo porque a data coincidia com a abertura da ExpoLondrina.
Posteriormente, a Polícia Civil marcou a reprodução para outubro, desta vez no pátio do Instituto Médico-Legal (IML) de Londrina. No entanto, no dia marcado, a defesa dos policiais envolvidos não aceitou a participação do sobrevivente da ocorrência nem a filmagem da diligência, o que levou o delegado responsável a adiar novamente o procedimento.
A nova tentativa ocorreria nesta terça-feira no autódromo, mas acabou suspensa. Segundo o advogado das famílias, Marcus Vinícius Marques, os participantes chegaram ao local e foram informados do cancelamento. “Estava combinado de ser hoje, eles deixaram a gente chegar aqui para avisar que não ia acontecer a reprodução”, afirmou.
Ainda não há nova data definida. Segundo o promotor do caso, Jorge Barreto, caberá ao delegado do caso e ao perito responsável marcar nova data. . Questionado se há possibilidade de a diligência ocorrer no local das mortes, Barreto respondeu que a hipótese está “praticamente descartada”. A reportagem não conseguiu contato com o delegado.
Debate sobre o local da diligência
As famílias e seus representantes defendem que a reprodução dos fatos seja feita no local onde ocorreram as mortes, às margens da PR-445, nas proximidades da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Segundo Marques, realizar o procedimento em outro espaço compromete a precisão técnica da investigação.
“A lei determina que a reprodução seja feita onde aconteceram os fatos, até para ficar mais perto da realidade. Questões como topografia, luminosidade e distância ficam tecnicamente melhor representadas no local”, afirmou.
O perito particular Eduardo Llano, contratado pelas famílias e que veio de São Paulo para acompanhar a diligência, também defende que a reconstituição ocorra no cenário original. “Uma reprodução simulada dos fatos tem por obrigação ser feita no local onde aconteceram os fatos para analisar elementos como luminosidade, visão e velocidade. Fazer aqui não é uma reprodução simulada, é um show simulado”, criticou.
Segundo ele, essas variáveis podem ser determinantes para compreender a dinâmica da ação policial.
Versões sobre o ocorrido
De acordo com a investigação, os três jovens estavam em um Chevrolet Cruze roubado na manhã do mesmo dia. Anderbal dirigia o veículo e Willian estava no banco do passageiro. Um terceiro ocupante, que seguia no banco traseiro, sobreviveu apesar de ter sido atingido por vários disparos.
O caso ocorreu por volta das 17 horas nas margens da PR-445. Ao todo, cerca de 50 tiros foram disparados contra o carro.
Em depoimento à Polícia Civil, o sobrevivente afirmou que os policiais abordaram o veículo atirando e que nenhum dos ocupantes estava armado. Ele também disse que os agentes teriam alterado a cena do crime, retirando os corpos dos jovens do carro e plantando armas no interior do veículo.
O perito particular contratado pelas famílias também questiona a validade dessas provas. Segundo ele, as supostas armas atribuídas aos jovens teriam aparecido horas depois do ocorrido. “Se a cena é manipulada, você não tem como dar certeza de um fato”, afirmou.
Nenhum dos três jovens foi reconhecido pela dona do Cruize como autores do roubo.
Dor e revolta das famílias
Familiares das vítimas acompanharam a tentativa de realização da reconstituição nesta terça-feira. Para eles, os sucessivos adiamentos prolongam o sofrimento. A mãe de Anderbal, Valdirene da Silva, disse que saiu de casa sem dormir para acompanhar a diligência e classificou o cancelamento como frustrante. “Foi um circo. A gente quer que a reconstituição aconteça da forma correta, no local. Aí a gente vem aqui e se depara com os assassinos dos nossos filhos rindo da nossa cara”, afirmou.
A avó de Willian, Maria Lopes, também esteve no autódromo, mas disse que foi impedida de entrar pela Polícia. “Estamos sofrendo há quase quatro anos. A dor não diminui com o tempo, é mentira. Todo dia a gente sangra”, disse. Ela afirma que a família segue mobilizada para que o caso seja esclarecido. “A gente quer a justiça da terra e a justiça de Deus.”