O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) entrega hoje, em Brasília, o Prêmio Direitos Humanos – Edição Luiz Gama & Esperança Garcia. Mas quem foi essa mulher negra, escravizada, mãe, cuja existência ficou conhecida em 1979 por uma carta escrita duzentos anos antes?
Reconhecida como a primeira advogada do Brasil, Esperança deixou um legado para além do jurídico, na visão da pesquisadora paranaense Antoniele Luciano. O trabalho foi orientado pelo professor Marcelo Paiva de Souza.
Em 2019, durante a Festa Literária de Paraty (Flip), a jornalista, então mestranda em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), teve seu primeiro contato com a carta de Esperança Garcia, descoberta pelo pesquisador Luiz Mott. Nela, Esperança narrava violências e privações sofridas por ela, pelos filhos e outras mulheres na fazenda onde viviam e requeria retorno para sua morada de origem.
Antoniele enxergou na carta, além de seu valor histórico e jurídico, valor literário. Para a pesquisadora, o texto com características de testemunho daquela mulher escravizada serviu como “semente” para a literatura afro-brasileira produzida por mulheres ao longo dos séculos. Assim nasceu sua tese “Sementes de Esperança, do Brasil Colônia à Contemporaneidade: o testemunho da mulher negra na literatura afro-brasileira”, que pode ser consultada aqui.

Ligação entre passado e presente
Em sua tese, Antoniele analisa a carta de Esperança Garcia (1770) junto ao romance Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis; o diário Quarto de Despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus; o romance memorialístico Becos da Memória (2006), de Conceição Evaristo e o romance histórico Um defeito de cor (2006), de Ana Maria Gonçalves.
“Os textos que selecionei pertencem não só a períodos, mas a gêneros literários diferentes. Cada autora traz, à sua maneira, demandas relacionadas a categorias como corpo, comunidade e escrita. Há uma progressão em como essas temáticas são apresentadas. Partimos de uma carta reveladora dos traumas coloniais e chegamos a um romance histórico que retoma o testemunho da mulher afro-brasileira, mas também nos aponta uma nova forma de pensar a população negra”, explica Antoniele.
Atualmente, Antoniele cursa o segundo doutorado, desta vez, em Português, na Indiana University, em Bloomington, Indiana. Ela também atua como instrutora associada no departamento de Espanhol e Português. E continua difundindo o legado de Esperança Garcia mundo afora, como mostra foto de sua apresentação em um Congresso no Kentucky, em abril deste ano.

Em busca de Conceição Evaristo
Natural da cidade de Jandaia do Sul (Norte do Paraná), Antoniele conta que só se aproximou da literatura afro-brasileira na pós-graduação.
“Meu primeiro contato com autoras negras aconteceu com quase 30 anos, em 2015. Na época, eu era aluna especial da disciplina Vozes Femininas na Literatura, ministrada pela professora Suely Leite, no programa de mestrado em Letras da Universidade Estadual de Londrina. Me apaixonei tanto pelo conceito de escrevivência proposto por Conceição Evaristo, a profundidade das personagens e a poética da autora que decidi que queria pesquisar a obra e a trajetória da escritora”, relembra.
A obra de Conceição foi objeto de estudo de Antoniele durante seu mestrado em Letras, na UFPR, a partir de 2018. No ano seguinte, quando ela viria a conhecer a carta de Esperança, era por Conceição que ela estava na Flip.

O contato com a carta de Esperança gerou o esboço do que seria o projeto de doutorado de Antoniele, mas também a levou a outros estudos, como o de narrativas de pessoas escravizadas, que ela teve a oportunidade de aprofundar durante o período do doutorado-sanduíche na University Of Georgia.
“Eu me perguntava sempre quem teria sido a autora negra brasileira mais antiga entre tantas que ainda são invisibilizadas”, relembra a pesquisadora.
“O encontro com a carta de Esperança Garcia também ampliou meus horizontes de uma forma que eu nem imaginava. Foi a matéria-prima de um projeto para pesquisar narrativas de pessoas escravizadas na University of Georgia, nos Estados Unidos, em 2022, além da oportunidade de ler outras autoras a partir de uma nova lente, a que tinha essa carta como uma semente, um embrião do que outras mulheres viriam a produzir nos séculos seguintes”.
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A tese da carta de Esperança como uma “semente” para as autoras sequenciais floresceu na pesquisa de Antoniele. Para ela, as narrativas das autoras afro-brasileiras retomam a possibilidade do sujeito negro ser o agente da história.
“De Esperança a Ana Maria Gonçalves, ou seja, através dessa ampla janela temporal literária, é possível visualizar a dinâmica colonial de animalização e coisificação do negro. Mas a escrita afro-feminina analisada não se resume a isso. Nossas autoras também resgatam o corpo negro como um corpo capaz de carregar intelectualidade, afetividade, beleza e dignidade, um corpo capaz de se mostrar humano. Tão humano que tece comunidades de diferentes tipos em meio à diáspora”, destaca a pesquisadora.
Para ela, existe uma tradição de humanização sobre a população negra no país, porque a escrita de mulheres negras não teve início recente no Brasil, mas vem sendo fermentada ao longo dos séculos.
“Investigar, assim, a carta de Esperança Garcia em conjunto com Úrsula, Becos da Memória, Quarto de despejo e Um defeito de cor me permitiu conhecer a extensão da força narrativa e estética de um sujeito para o qual se destinavam somente os lugares de mucama e doméstica na sociedade brasileira. Por meio de diferentes gêneros e em diferentes períodos, foi possível ver como Maria Firmina, Carolina, Conceição e Ana Maria levam adiante o legado e o testemunho da carta-semente de Esperança”.