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Ibama multa prefeitura de Matinhos em R$ 69 mil por corte irregular de restinga

Órgão ainda embargou a obra para a construção de um estacionamento na orla

Ibama multa prefeitura de Matinhos em R$ 69 mil por corte irregular de restinga
Corte teria começado na semana passada. Foto: Divulgação/Cedea
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O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) multou a prefeitura de Matinhos, no litoral do Paraná, em R$ 69,2 mil por corte irregular de restinga, que é protegida pela legislação ambiental. O órgão ainda embargou a área e determinou que a prefeitura recupere a vegetação.

As obras para a instalação de um pátio de estacionamento começaram na semana passada em uma área de 13,3 mil metros quadrados, na Avenida Paranaguá (PR-412). O caso foi denunciado à Coordenação do Patrimônio Cultural (CPC) pelo Cedea (Centro de Estudos e Defesa Ambiental), que pediu ações urgentes e comunicação ao Ministério Público do Paraná (MP-PR), ao Conselho de Desenvolvimento Territorial do Litoral Paranaense (Colit) e à CT-Gerco (Câmara Técnica de Gerenciamento Costeiro). 

Segundo o Cedea, o corte começou na quinta-feira (29 de maio), na área entre a Avenida Brasil e a Avenida Curitiba. A entidade lembrou que a orla marítima de Matinhos foi tombada pelo patrimônio cultural do estado em 1970 e que qualquer alteração da área deve contar com aprovação prévia da Secretaria de Estado da Cultura – que foi fundida com a Secretaria da Comunicação Social no governo de Ratinho Júnior (PSD).

Em nota, o Ibama informou que o representante da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Matinhos disse que o órgão não possuía licença ambiental para suprimir a vegetação. O secretário de Meio Ambiente de Matinhos é Adriano Ribeiro, suspeito de agredir um cavalo da polícia durante as manifestações antidemocráticas de 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Segue a nota do Ibama:

Após receber denúncia de cidadãos residentes no município de Matinhos (PR) sobre suspeita de supressão de vegetação em Área de Preservação Permanente (restinga), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), por meio da equipe de fiscalização da Unidade Técnica de Paranaguá (PR), apurou a situação in loco e confirmou que a referida supressão fora praticada por máquinas da Prefeitura Municipal de Matinhos.

O responsável pela Secretaria de Meio Ambiente do Município, ao ser questionado sobre a legalidade daquela ação, informou não possuir nenhuma licença e realizou a supressão da vegetação de forma intencional.

Assim, o Município de Matinhos foi autuado, de acordo com o Artigo 43 do Decreto 6.514, com multa estipulada em R$ 69,2 mil. Além disso, como medida cautelar, toda a área foi embargada e deverá ser ambientalmente recuperada dentro do que rege a legislação ambiental vigente.

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Adriano Ribeiro, que é dono de imobiliária em Matinhos, foi apontado em relatório da polícia como um dos líderes do bloqueio de rodovias no Paraná

Na denúncia encaminha pelo Cedea, no entanto, consta que uma licença simplificada foi dada pelo Instituto Água e Terra (IAT), vinculado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente. A licença foi concedida para "atividade de Pátio de estacionamento de veículos, em nome da Prefeitura Municipal de Matinhos, localizada na Avenida Paranaguá em cruzamento com a Avenida Beira Mar (...). O empreendimento possui 13.321,21 m² de área construída."

O Cedea lembrou em sua denúncia que a supressão da restinga fere a Lei da Mata Atlântica, de 2006, a lei 7.661, de 1988, que institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro e a Resolução Conama 417, de 2009. Além disso, leis e decretos estaduais determinam que qualquer intervenção no local deve ser analisada pelo Colit e pela CT-Gerco.

O Plural não conseguiu entrar em contato com a prefeitura de Matinhos nesta quinta-feira e fica à disposição para um eventual posicionamento.

A área antes do corte, segundo o Cedea (Google Maps/Reprodução)

Câmara Técnica deve analisar intervenções

Em março deste ano, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) determinou a reativação da Câmara Técnica de Gerenciamento Costeiro (CT-Gerco), responsável pela governança ambiental em matéria de gerenciamento costeiro no estado. A Câmara foi desativada em 2021, o que permitiu ao governo de Ratinho Júnior fazer intervenções no litoral sem a avaliação técnica do colegiado, composto por representantes dos governo estadual e federal, dos municípios da região, de universidades e ONGs.

A cautelar concedida pelo conselheiro do TCE-PR Fernando Guimarães determina que a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Sustentável (Sedest, antiga Secretaria do Meio Ambiente) comprove a constituição da CT-Gerco, vinculada ao Colit. A Representação ao TCE-PR foi feita pelo Cedea.

Na denúncia feita ao TCE-PR, o Cedea afirma que houve omissão por parte da Sedest e do secretário Everton Luiz da Costa Souza, o que representaria um retrocesso na gestão do litoral. “No presente momento, a CT-GERCO não está operante por omissão do atual gestor, situação que significa retrocesso institucional na gestão costeira e na política do mar do Estado do Paraná, grave irregularidade decorrente de omissão da administração estadual que deve ser sanada por este órgão de controle”.

Criada em 2016 e regulamentada em 2018, a CT-GERCO deve ter representantes da Sedest; do Instituto Ambiental do Paraná (que teve seu nome alterado para Instituto Água e Terra por Ratinho Júnior); do Instituto de Terras, Cartografia e Geociências (ITCG); do Instituto das Águas/Comitê da Bacia Litorânea; da Paranacidade; da Associação dos Municípios do Litoral do Paraná; do Ibama; do ICMBio, da Superintendência do Patrimônio da União (SPU); do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN); da Funai; de uma instituição de ensino superior; e de organizações não governamentais.

“Superpostes” não foram discutidos

Segundo o Cedea, uma intervenção que não foi debatida na CT-Greco é a instalação de “superpostes” em Matinhos. O governo finalizou em outubro do ano passado a instalação de 145 postes de iluminação pública, de 17 metros cada um, ao longo dos 6,3 quilômetros da orla, com investimento de R$ 145 milhões.

A instalação foi questionada pelo Ministério Público Federal (MPF) em abril do ano passado. O MPF solicitou ao IAT o envio de especificações do aparato, previsão de material certificado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), comprovação de atendimento às normas técnicas brasileiras sobre iluminação pública e a realização de um estudo de impacto ambiental.

“Os refletores superpotentes, de luz branca e temperatura acima de 5000k, são semelhantes aos utilizados em estádios esportivos e visam a transformar a ‘noite em dia’. O investimento do governo paraense, por meio do instituto, é de quase R$ 15 milhões. As instalações devem ser concluídas no prazo de um ano, pela empresa Samar Iluminação e Engenharia Ltda.”, informou na época o MPF.

No documento encaminhado ao IAT, a procuradora da República Monique Cheker afirmou que a instalação punha em risco uma área tombada. “A instalação dos superpostes demonstra uma ameaça à ordem jurídica de proteção da Orla de Matinhos (em razão do tombamento), ao bem-estar e saúde humana, aos interesses sociais e individuais indisponíveis, à proteção do patrimônio cultural e natural, ao meio ambiente e a outros interesses difusos e coletivos”, afirmou a procuradora.

O órgão argumentou que havia necessidade de estudo de impacto ambiental, pois o projeto causaria “risco de danos relacionados à desorientação espacial de animais de hábitos noturno, alteração da dinâmica de deslocamento espacial de espécies e alteração do ritmo circadiano das espécies animais”.

Também haveria risco de aumento de taxas e impostos decorrentes do aumento de carga de energia demandada e alto custo de manutenção; formação de barreira visual; interferência à apreciação da paisagem e da linha do horizonte, além da depreciação do valor imobiliário dos imóveis e de risco de aumento exponencial da dengue.

Em setembro, a procuradora Monique Cheker recomendou ao IAT que suspendesse o projeto, já que não havia sequer licenciamento ambiental. Em outubro, o governo Paraná informou que parte dos equipamentos já havia sido ligada, “clareando um trecho de aproximadamente um quilômetro da Avenida Atlântica do balneário”. O MPF ajuizou uma ação contra a instalação dos equipamentos.

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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