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Após engorda e ressaca, praia de Matinhos ganha degrau com dois metros de altura; veja vídeos

Pesquisadores da UFPR alertaram para riscos da obra em 2020

Após engorda e ressaca, praia de Matinhos ganha degrau com dois metros de altura; veja vídeos
Ressaca formou paredão de areia em Matinhos / Foto: Linda Matinhos/Facebook
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A praia de Matinhos, no litoral do Paraná, amanheceu com um degrau de aproximadamente dois metros de altura no início desta semana. A formação de degraus passou a ser comum depois da engorda feita pelo governo do estado, mas a ressaca do início da semana levou embora parte da areia e o vão aumentou.

Fotos e vídeos foram divulgados pelo perfil Linda Matinhos no Facebook. 

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Em novembro de 2022, pouco menos de um mês após a conclusão da primeira fase da engorda, o degrau chegou a aproximadamente um metro e tratores foram utilizados para nivelar a praia. Na época, um engenheiro da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Sustentável (Sedest) negou que a formação do desnível tenha ligação com os trabalhos de engorda.

Preocupação antiga

O avanço do mar sobre a praia de Matinhos foi causado pelo processo de urbanização, que levou à eliminação da faixa de restinga, vegetação que ajuda a controlar as inundações. Neste ano, a Prefeitura de Matinhos foi multada por corte irregular de restinga em uma área em que seria construído um estacionamento.

O projeto de engorda da praia (alargamento da faixa de areia com obras de aterramento e colocação de areia dragada de outro local) era visto com desconfiança por especialistas já em 2020. Um grupo de pesquisadores da UFPR emitiu três notas técnicas e afirmou que o projeto original era de 2009, portanto defasado.

Formado por 17 pesquisadores da UFPR (quatro geólogos, três oceanógrafos, dois geógrafos, quatro biólogos, além de um engenheiro cartógrafo, um advogado, um químico e uma socióloga), o grupo afirmou na primeira nota técnica que a proposta havia incorporado um canal artificial, guias correntes e espigões, e recomendou a não adoção dessas medidas.

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As recomendações incluíam a manutenção da faixa da praia sem ocupação, que incluem as dunas frontais e o ecossistema de restingas; a recuperação da faixa dinâmica da praia, com a reconstrução das dunas frontais e do ecossistema de restingas e sua manutenção sem ocupação; e a revitalização da orla.

Na segunda segunda nota técnica, do fim de 2020, o grupo afirmou que a alimentação artificial da praia de Matinhos previa um volume de areia de 3.222.250 metros cúbicos e que não havia comprovação da existência de uma jazida de areia com essas características nesse volume.

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"A área escolhida como jazida, com 1.657.550 m2 de superfície, localizada na plataforma rasa na frente da orla de Matinhos, foi estudada apenas superficialmente", diz a nota. "Ou seja, o volume da jazida não foi determinado, o que é particularmente grave, já que recursos públicos serão destinados a uma obra sem viabilidade técnica demonstrada".

O documento diz ainda que o projeto não foi concebido por demanda formal do município de Matinhos ou em instâncias de competência de âmbito estadual, como o Conselho de Desenvolvimento Territorial do Litoral Paranaense (Colit), e não passou pela Câmara Técnica de Gerenciamento Costeiro (CT-GERCO). O projeto não teve participação da sociedade civil, apesar de afetar as dinâmicas de uso e ocupação urbana, com efeitos sobre a valorização da terra e potencial alteração de zoneamento urbano, o que estaria em desacordo com o Estatuto da Cidade.

Por fim, o grupo recomendou a suspensão do processo, diante da possibilidade de "graves consequências ambientais, paisagísticas e financeiras do empreendimento, assim como para a qualidade de vida da população afetada".

"A insistência em se manter este empreendimento, mesmo frente às inconsistências técnicas apontadas, significará, de fato, protelar a solução dos problemas ou até mesmo intensificá-los ou transferi-los para outras localidades do litoral paranaense", diz a segunda nota técnica. "Este grupo de trabalho recomenda fortemente a reformulação da proposta conceitual e do projeto, alinhando-as com as melhores práticas recomendadas por documentos orientadores do assunto, tanto na literatura especializada como em nível federal. Também se recomenda que o processo de licenciamento ambiental seja reiniciado".

"Engodo da praia"

Em 2021, o professor Eduardo Vedor, coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) da UFPR, afirmou que seria mais barato desapropriar cerca de 15 ou 20 imóveis e indenizar os proprietários do que financiar uma obra milionária de engorda da praia. As demais ocupações seriam irregulares, disse o professor.

Giem Guimarães, diretor-executivo do Observatório de Justiça e Conservação (OJC), chamou na época o projeto de "Engodo da Praia", ao invés de engorda. "Não faz, nem devia fazer, parte das prioridades para o Estado. Trata-se, portanto, de uma obra desnecessária com cunho meramente eleitoreiro".

Em outubro de 2022, o governo do Paraná anunciou que havia concluído a obra antes do prazo. Segundo o governo, a praia foi alargada em até 100 metros em uma extensão de 6,3 quilômetros (do Canal da Avenida Paraná até o Balneário Flórida). Com investimento de R$ 314,9 milhões, a engorda é uma das etapas do Projeto de Recuperação da Orla de Matinhos.

Notas técnicas

Seguem as três notas técnicas do grupo de pesquisadores da UFPR sobre o assunto:

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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