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Primeiro museu universitário do Paraná revisita seis décadas de história em exposição

Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR completa 60 anos e revisita sua história institucional com exposição sobre memória, pesquisa e curadoria.

Primeiro museu universitário do Paraná revisita seis décadas de história em exposição
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Por Rodrigo Matana

O Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR) inaugurou no início do mês (5) a exposição “60 anos do MAE-UFPR”, que propõe um balanço crítico de seis décadas de atuação em pesquisa, ensino, preservação e difusão de acervos arqueológicos, etnográficos e documentais. 

Fundado em 1963, o MAE foi o primeiro museu universitário do Paraná e mantém, desde então, uma relação direta com a produção acadêmica e com os territórios onde atua. “A exposição busca transmitir ao público a trajetória de formação do acervo do MAE e suas transformações ao longo de seis décadas”, explica a diretora do museu, Bruna Portela.

Segundo ela, o percurso expositivo apresenta desde o tombamento do edifício histórico em Paranaguá até ações mais recentes, mostrando “a solidez e a relevância do primeiro museu universitário do Paraná”

Um museu dentro de um monumento histórico

A sede do MAE em Paranaguá funciona em um edifício do século XVIII que originalmente abrigou o Colégio dos Jesuítas, fundado em 1755. Após a expulsão da ordem religiosa do Brasil, o prédio passou por diferentes usos administrativos até ser tombado como patrimônio nacional, em 1938. Duas décadas depois, a UFPR firmou convênio para transformar o espaço em museu universitário.

A instalação definitiva do MAE no local consolidou, já nos anos 1960, uma proposta que articulava pesquisa acadêmica e preservação patrimonial. Seu primeiro diretor foi o professor José Loureiro Fernandes, catedrático de Antropologia da UFPR, figura central na formação das coleções e na consolidação do museu como espaço científico.

Acervo, pesquisa e formação universitária

Atualmente, o MAE está organizado em quatro unidades — Arqueologia, Etnologia Indígena, Arquivo Histórico e Cultura Popular — e mantém sedes expositivas em Paranaguá (PR) e Curitiba, além de reserva técnica para guarda e pesquisa dos materiais. O inventário público reúne cerca de 70 mil itens arqueológicos, além de conjuntos expressivos em etnologia, cultura popular e um arquivo histórico com aproximadamente cinco mil documentos.

Para Portela, o caráter universitário do MAE é um dos principais diferenciais da instituição. “Ser um museu universitário significa trabalhar com ensino, pesquisa e extensão”, afirma. “Isso, na prática, quer dizer que atuamos diretamente na formação de estudantes da UFPR, fundamentais para o desenvolvimento de todas as atividades do museu”

Essa relação também se expressa no modo como o acervo foi constituído. “Muitas das coleções de nosso acervo foram formadas a partir de pesquisas desenvolvidas por professores e técnicos da UFPR, aprofundando os significados das peças que estão sob nossa guarda”, acrescenta a diretora.

Inventário do museu reúne cerca de 70 mil itens arqueológicos – Foto: Douglas Fróis

Curadoria e linha do tempo: memória em construção

A exposição dos 60 anos começou a ser organizada em 2023 por uma equipe que reuniu técnicos, docentes e bolsistas. Um dos eixos centrais do percurso é a linha do tempo, construída a partir de documentos, fotografias e registros institucionais que permitem acompanhar continuidades e mudanças nas práticas museológicas do MAE.

Mestranda em Antropologia pela UFPR e uma das curadoras da mostra, Izabel Yanca atuou diretamente na pesquisa e contextualização do arquivo histórico do MAE. “O arquivo histórico ajuda a contar essa história do museu. Pelo documento, você consegue ver desde a criação do museu até todos os processos”, relata.

Segundo ela, o trabalho envolveu não apenas a seleção de materiais, mas a revisão crítica das informações disponíveis. “Acho que essa exposição foi um ponto inicial para rever a história do museu, ver as coisas que existem e você bater informações”, diz. “Tem muitas informações que a gente vai vendo ao longo da história, e foi interessante para contextualizar as coisas e entender de fato qual é a história do museu”.

Izabel destaca ainda o caráter coletivo e interdisciplinar do processo curatorial. “Desde a primeira reunião de curadoria que eu participei até o final, mudou completamente a linha do tempo. Todas as ideias foram mudando, todo mundo dando um palpite”, afirma.

Mostra conta sobre memória, pesquisa e curadoria ao longo de seis décadas – Foto: Douglas Fróis

Museu, universidade e território

A relação entre o MAE, a universidade e a comunidade externa é um dos temas centrais da exposição. Para a diretora, essa conexão é constitutiva da própria existência do museu. “Um museu não existe sem a comunidade. Mais do que isso, um museu se faz com a comunidade, lado a lado”, afirma.

Izabel Yanca observa que, especialmente em Paranaguá, a exposição busca enfrentar percepções de distanciamento entre o museu e a população local. “Às vezes não fica tão claro qual é a importância de um museu universitário”, diz. “A exposição dos 60 anos entra muito nesse lugar de mostrar que aquele espaço é importante para a universidade e que é importante para Paranaguá também”, afirma.

Memória viva: quatro décadas de trabalho no MAE

Funcionário do MAE há mais de 40 anos, Luiz Cezar Rodrigues, mais conhecido como “Cézinha do Museu”, acompanha de perto as transformações institucionais desde os anos 1980. “Iniciei minha carreira aqui no museu em julho de 1982”, recorda. “Quando entrei aqui, era o Museu de Arqueologia e Artes Populares”.

Ao longo das décadas, ele presenciou mudanças de nome, de foco e de práticas expositivas. “Depois houve a mudança para o Museu de Arqueologia e Etnologia”, relata. “E aí engloba toda a etnologia, a parte indígena, a arte popular aqui do litoral”.

Entre as exposições que marcaram sua trajetória, Cézinha destaca aquelas que dialogaram diretamente com a cidade. “A exposição que mais me agradou foi Nos Tempos da Vovó,  que saímos pela cidade atrás de cama, vitrola, discos daquele tempo. Foi maravilhosamente bonito”, lembra.

Linha do tempo do museu começa na década de 1960 – Foto: Douglas Fróis

Seis décadas em perspectiva

Ao revisitar sua própria trajetória, o MAE propõe mais do que uma celebração institucional. Para Bruna Portela, o legado do museu está diretamente ligado às escolhas políticas e científicas que orientaram sua atuação. “O legado que o MAE tem construído ao longo de seis décadas está profundamente ligado à sua missão de dar visibilidade a povos e comunidades tradicionais historicamente marginalizadas”, afirma.

A exposição “MAE 60 anos” é realizada pela UFPR, por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEC) e do MAE, com apoio da Fundação da Universidade Federal do Paraná (FUNPAR), via Lei Federal de Incentivo à Cultura, e patrocínio do Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP).

Serviço

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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Tags: Paraná UFPR

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