A deputada estadual Ana Júlia (PT) encaminhou um pedido de informações ao secretário de estado da Segurança Pública, Hudson Leôncio Teixeira, a respeito do aumento de mortes em abordagens pela Polícia Militar (PM) em Londrina, no Norte do Paraná. O número de mortes em ocorrências apontadas como confrontos aumentou 69% na cidade em 2024, de acordo com a Rede Lume, parceira do Plural na cidade. Foram 29 ocorrências em 2023 e 49 no ano passado, de acordo com dados do Ministério Público do Paraná (MP-PR).
No pedido de informações, Ana Júlia questiona quais providências foram adotadas pela Sesp em relação à morte dos jovens Wender da Costa e Kelvin dos Santos, no dia 15 de fevereiro; qual a situação atual dos inquéritos que apuram a responsabilidade por essas mortes; e qual a posição da Secretaria a respeito do uso de câmeras corporais por policiais. O pedido foi aprovado de forma simbólica na sessão desta segunda-feira (31) da Assembleia Legislativa.
Wender, de 20 anos, e Kelvin, 16, foram mortos durante uma abordagem, por volta ads 22h30 do dia 15 de janeiro. Segundo a PM, uma equipe avistou um carro com “com as mesmas características do envolvido em furtos a residência”. Os dois teriam reagido e foram mortos no local. A polícia apresentou duas armas, que estariam com os jovens. Posteriormente, a PM confirmou que o carro não tinha alerta de furto ou roubo.
As familias dos jovens negaram que eles estivessem armados. Segundo familiares, eles emprestaram o carro para ir até uma distribuidora de bebidas. As mortes geraram protestos na cidade, com um ônibus apedrejados e queimados e bloqueios de trânsito. Hudson Teixeira chegou a ir para Londrina, segundo ele para “restabelecer a ordem”. O secretário afirmou que uma das vítimas “tinha algumas passagens”, mas não apresentou provas.
O Plural entrou em contato com a Sesp na tarde desta segunda-feira, mas não houve retorno até o fechamento desta matéria.
Inquérito sob suspeita
Outro abordagem da PM que ainda não foi explicada resultou nas mortes de Anderbal Campos Bernardo Júnior, de 21 anos, e William Jones Faramilio da Silva Junior, 18, em 6 de maio de 2022. O carro em que eles estava recebeu cerca de 50 tiros de pistola, submetralhadora e carabina, na PR-445, em frente ao Campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL) – um local sem câmeras de vigilância. Um jovem de 23 anos que estava no banco de trás recebeu sete tiros, mas sobreviveu.
Os policiais alegaram que receberam o alerta de um veículo Cruze que havia sido roubado e que a placa tinha sido trocada. Ao abordarem o veículo, os ocupantes teriam apontado armas para eles. Depois que a PM começou a atirar, ele teriam tentando sair do veículo.
O inquérito que apurava a responsabilidade dos seis policiais militares envolvidos na ocorrência foi arquivado por iniciativa do promotor Tiago de Oliveira Gerardi, mas em novembro do ano passado a Subprocuradoria-Geral de Justiça para Assuntos Jurídicos (Subjur), do Ministério Público do Paraná, determinou a reabertura.
Segundo o parecer assinado pelos promotores de Justiça Claudio Franco Felix e Camila Adami Martins, os depoimentos dados pelos seis policiais durante o Inquérito Policial Militar (IPB) foram contraditórios.
“No caso em exame, as palavras dos agentes policiais envolvidos apresentaram inconsistências relevantes sobre pontos fundamentais da dinâmica delitiva e revelam incompatibilidades com a prova pericial, com os documentos colhidos na investigação, e com os relatos de terceiros”, afirmaram os promotores.
Um dos PMs relatou que as armas que estavam com os suspeitos (um revólver Taurus .38 , um revólver Pucara .38 e uma pistola Glock 9mm) havia sido recolhidas no local, mas o boletim de ocorrência mostra que elas foram entregues por um policial no 2º Distrito Policial de Londrina. A descrição das armas também não consta do Laudo de Local de Morte
“Nota-se, ao mov. 1.13 do inquérito, uma fotografia dos armamentos, aparentemente no banco de uma viatura, sem adequado acondicionamento, distintamente do que ocorreu com outros objetos”, diz o parecer da Subjur. “Caso tivessem sido adequadamente tratados os vestígios, seria possível a submissão das fontes de prova, de imediato, à perícia papiloscópica, de modo a confirmar ou negar a presença de digitais das vítimas no armamento. Nenhuma dessas providências, contudo, foi tomada, prejudicando a correta apuração dos fatos”.
O jovem que sobreviveu deu três depoimentos, com uma versão distinta da dos policiais. Segundo ele, ao passar perto dos Correios, os jovens perceberam que eram seguidos por uma viatura do Choque. “Nesse momento, segundo os relatos da vítima sobrevivente, passaram para a marginal próxima à UEL e Anderbal, que era o condutor, disse para que ficassem tranquilos pois daria passagem à viatura. Ao desacelerar o veículo e encostá-lo para dar passagem, a viatura Choque emparelhou ao lado esquerdo do automóvel e, sem dar sinal com sirene ou giroflex, os policiais começaram a desferir disparos de arma de fogo, de dentro de sua viatura”.
“Ele (Anderbal) deu passagem pra eles, ele achou que eles queriam passar. Na hora que ele deu passagem pra eles, eles encostaram a viatura do lado e começaram a atirar. Eles não mandaram parar, não deram voz, não deram sirene, não deram nada. E isso o carro ainda tava em movimento. Na hora que eles começaram a atirar, o carro parou, eles continuaram atirando. No que eles continuou atirando, foi quando eu e o Willian, que era o da frente, o passageiro da frente, a gente abriu a porta e caiu no chão. O Anderbal, que tava dirigindo, ele nem desceu do carro. Ele morreu dentro do carro, por causa que a gente tava na mão da direita, eles vieram na mão da esquerda e começaram a atirar, da esquerda pra direita”, relatou o sobrevivente em depoimento.
O jovem afirmou ainda, que quando estava caído e ferido, os policiais pegaram três armas em uma viatura. “Relatou, ainda, que os policiais perceberam que ele havia sobrevivido e passaram a lhe ofender e ameaçar. Nesse momento, segundo (...), os agentes foram até a viatura, pegaram três armas, deixaram dois revólveres nos bancos do automóvel ocupado pelas vítimas e colocaram a pistola Glock próxima a seu corpo. Também retiraram o corpo de Anderbal de dentro do automóvel e o jogaram no local onde depois foi encontrado pelo perito oficial”.
No entender da Subjur, o relato do jovem é compatível com a prova pericial, já que as versões apresentadas pelos PMs teriam incongruências com as marcas de disparos no veículo. “Tais dúvidas não foram supridas pelos Laudos complementares (...), mas poderiam ser mais bem esclarecidas com a realização de reprodução simulada dos fatos. Não realizada durante as investigações, a diligência prevista no art. 7º, CPP foi requerida por familiares das vítimas e indeferida pelo juízo de primeiro grau”, diz a Subjur no parecer.
Por fim, os promotores concluíram que há elementos para dar continuidade à investigação. “No caso concreto, há elementos suficientes a indicar a necessidade de realização de diligências complementares, nos moldes das orientações do CNMP, importantes à completa elucidação das circunstâncias do crime e à determinação da autoria de um dos policiais envolvidos
Eles requisitaram a realização de um Laudo de Lesões Corporais no sobrevivente; os dados de localização dos seis policias envolvidos; dados sobre a comunicação dos PMs no dia da ocorrência; uma simulação da mortes; e o depoimento do investigador da Polícia Civil que relatou a apreensão das armas que estariam com as vítimas, além da identificação legal de sua posse; Os promotores afirmaram ainda que há “necessidade de análise sobre a proteção à vítima sobrevivente e às famílias dos demais ofendidos”.
A Sesp não se pronunciou sobre este caso.