Seu Altamiro Venâncio tem 83 anos e vive com a esposa Isabel Venâncio, de 82 anos, em Adrianópolis, há 130 quilômetros de Curitiba. Na casa mora o filho mais velho, mas a movimentação é intensa, sobretudo nos fins de semana, já que o casal tem outros sete filhos e uma quantidade que nem eles lembram de netos e bisnetos.
Altamiro é um dos ex-funcionários da fábrica da Plumbum, fechada nos anos 90. A empresa empregava centenas de trabalhadores do município e de cidades adjacentes antes de encerrar as atividades em 1995, o que provocou um golpe duro na economia local.
Altamiro trabalhou na fábrica por 25 anos como metalúrgico e se aposentou em 1994, pouco antes do declínio. “Eu fui lá, disseram que estavam contratando, mas eu não sabia ser metalúrgico. Mesmo assim aceitaram e eu fiquei muito tempo lá. Andava sete quilômetros todo dia para chegar ao trabalho, mas gostava muito. Eu não tenho o que reclamar”, recorda.
Ele trabalhava na fundição da fábrica cuja principal atividade era a extração de chumbo. Os resíduos, chamados de escória, eram depositados na água e o sistema foi, segundo seu Altamiro Venâncio, copiado de uma empresa dos Estados Unidos. “Os chefes foram tudo para lá [EUA] para ver como os caras faziam. Aqui era tudo coisa de primeira”.
O trabalhador recorda que para exercer as atividades precisava usar equipamentos como capacete, máscara e luvas, mas nem isso o livrou do acidente, devido ao peso dos rejeitos que eram transportados da mina - que permanece aberta em 2026 - até o encaminhamento para o processamento.
Ele é uma das pessoas que foi testada pela Secretaria Municipal de Saúde de Adrianópolis após o encerramento das atividades da Plumbum. Isso porque muitos dos trabalhadores e das pessoas que moram nos entornos da fábrica têm índices altos de contaminação por chumbo no sangue.
Isso gerou mais de 2,3 mil ações judiciais em curso, referentes a mais de 5,1 mil pessoas, que buscam indenizações por danos morais individuais devido à exposição pelo chumbo. O número de pessoas impactadas pelas atividades da Plumbum, todavia, pode ser muito maior, já que várias, assim como seu Altamiro Venâncio, não entraram na ação coletiva.
Delonga
As ações tramitam desde 2013 na Justiça do Paraná, mas estão paradas porque há um outro processo, na Justiça Federal, com trânsito em julgado, ou seja, encerrado, que condenou a empresa ao pagamento de R$ 40 milhões por danos ambientais.
Um dos advogados que representa as pessoas que tiveram contaminação é Fabiano Neves Macevsky. “Não dá para resolver o problema que tramita na Justiça Federal, esquecendo ou dando invisibilidade às vítimas que existem e que aguardam calmamente a Justiça há mais de dez anos, sem criar nenhum problema, nenhum problema político até o momento, nenhum protesto até o momento”, critica.
Neste mês de maio, Macevsky foi uma das pessoas que integrou uma comitiva que realizou visita à sede da Plumbum. O objetivo era permitir que técnicos realizassem vistoria no local para emitirem pareceres sobre a descompatibilização, limpeza e possível retomada de atividades da fábrica.
A ação foi organizada pela Justiça Federal, que tenta uma conciliação entre as partes envolvidas para encerrar a celeuma que dura décadas. A delonga, segundo o advogado Marlos Arnes de Oliveira, que também representa as pessoas que aguardam indenizações, ocorre porque a ação destas pessoas está congelada enquanto a questão da contaminação ambiental - com trânsito em julgado e condenação de R$ 40 milhões para a empresa - não for resolvida.
“Nós ingressamos com uma medida, uma medida voluntária de jurisdição voluntária, que se chama protesto judicial, assegurando a interrupção da prescrição, para que a prescrição não atinja o direito das vítimas, e também assegurando que todos saibam que as vítimas têm esse direito e que mais dia ou menos dia, as vítimas terão que receber a indenização”, explicou.
A demora no andamento das ações cria situações adversas para quem entrou com o processo. Os advogados não têm contato direto com todos os clientes. E algumas das pessoas envolvidas faleceram sem receber a indenização, como foi o caso do avô de Jhenifer Santana. “Ele trabalhou lá muito tempo, entrou com o pedido de indenização, mas eu não sei mais o que aconteceu porque ele morreu e eu era criança quando isso começou”, lamenta.

O impasse ocorre porque a Plumbum pertencia a Société Minière, empresa francesa. Quando as atividades foram encerradas, ela foi vendida para o investidor gaúcho Henrique José Zafari, que comprou a empresa sem saber que havia um processo milionário por dano ambiental e agora precisa arcar com o passivo.
Visita técnica
Ele recebeu os representantes do Poder Judiciário, advogados, membros de órgãos como Instituto Água e Terra (IAT), prefeitura e outros nas instalações da fábrica no início do mês. O Plural acompanhou a vistoria.
Em uma mesa improvisada, engenheiros, técnicos, ambientalistas e políticos se debruçaram sobre um mapa da área avaliando as cinco áreas indicadas como contaminadas no processo que tramita na Justiça. Elas precisam passar pela descompatibilização, ou seja, encerramento das atividades - inclusive da mina onde era extraído o chumbo, que ainda está aberta.
Planos para isso devem ser apresentados no próximo dia 28, quando ocorre mais uma reunião mediada pela Justiça Federal. Em paralelo, os advogados que representam as pesssoas que aguardam indenização, cobram que elas também sejam lembradas neste processo e pedem um plano de negócios ao novo proprietário, que promete providenciar.
A intenção de Zafari é retomar as atividades com extração de calcário, já que a propriedade tem uma reserva que pode ser explorada por, ao menos, três décadas, segundo estudo da própria empresa.
O calcário é utilizado para fabricação de cimento, cal, concreto, vidro, tintas, papel e até creme dental. A possibilidade ampla de negócios sem o risco de contaminação ambiental do chumbo, é a esperança do empresário em retomar as atividades na cidade - depois de um investimento na casa dos milhões, do qual ele mesmo não revela a cifra.



Seu Altamiro trabalhou por 25 anos na Plumbum, em Adrianópolis, e mostra cicatrizes das atividades. Ele soube da ação coletiva, mas não ingressou | Fotos: Julia Sobkowiak/Plural.
O empresário considera positiva a ação da Justiça Federal neste momento e espera poder iniciar a extração - esta, para ele, é uma condição para iniciar o pagamento da condenação por dano ambiental, embora ele não mencione as indenizações individuais.
“O foco hoje não é agradar gregos e troianos, é resolver o problema e ver se a gente consegue efetivamente startar uma atividade que dê renda para a população que dê emprego”, diz.
Além disso, o empresário afirma que os laudos produzidos dentro do processo judicial não identificaram contaminação ampla da região, mas apenas pontos específicos que mereceriam reavaliação. Ele sustenta que análises realizadas por equipes técnicas ligadas à Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lactec e peritos judiciais apontaram que o solo da região possui naturalmente níveis mais elevados de chumbo por características geológicas próprias. “O solo daqui é anômalo. Tem teores maiores de metais porque a natureza assim o fez”, afirmou.
Uma questão de saúde
Neste ano, o deputado estadual Goura (PDT), oficiou a Secretaria Estadual de Saúde e o Ministério da Saúde do Governo Federal para pedir informações sobre o estado clínico da população por conta do chumbo. Ele já havia questionado o Governo do Paraná em 2021 sobre o caso.
“O alerta veio novamente de que há ainda possível risco de contaminação enquanto a gente está aqui falando, e que nós então oficiamos a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, o Ministério da Saúde, para que possam agir e fazer essa fiscalização e dar o apoio necessário ao município e às pessoas que possam estar sendo Ainda contaminadas. A gente está falando de situações que envolvem a saúde pública, que envolvem o meio ambiente. Isso tudo tem que ser muito, muito bem averiguado pelo Poder Público”, destacou o parlamentar.
A Secretaria Estadual não respondeu ao deputado. O MS, por sua vez, afirmou que “O caso de Adrianópolis/PR tem sido considerado (...), ainda que não haja, no momento, informação sobre processo administrativo exclusivo em tramitação dedicado unicamente a esse caso”.
Já segundo a Secretaria Municipal de Saúde, em resposta ao Ministério Público Federal (MPF), os bairros Capelinha, Plumbum e Vila Mota, que ficam nas imediações da fábrica, têm cadastradas 568 pessoas no sistema de Atenção Primária do Sistema Único de Saúde (SUS). Elas são monitoradas pela exposição ao chumbo e atualmente, na terceira etapa de vigilância epidemiológica, a pasta aguardava resultados para 42 testes.
Um documento do Ministério da Saúde indica que o chumbo compromete vários sistemas fisiológicos, como o hematopoiético, o renal, o gastrointestinal, o cardiovascular, o musculoesquelético e o reprodutor. Pelo texto, existe uma variação na susceptibilidade individual, mas os sintomas clínicos em adultos podem se manifestar a partir de concentrações sanguíneas de chumbo de 25µg/dl.
Os resultados do monitoramento da Secretaria de Saúde do município até agora indicam que a cidade tem, em 2026, três pacientes com níveis entre 10 e 20 µg/dL e um paciente com nível entre 30 e 40 µg/dL, além de 22 pacientes com resultados entre 5 e 10 µg/dL.
Pelo documento encaminhado ao mandato do deputado Goura, a pasta informou que “Esses pacientes permanecem em acompanhamento clínico na unidade de saúde, com consultas periódicas e exames laboratoriais de controle conforme avaliação médica”.
Outro ponto importante é que não havia nenhum tipo de monitoramento da saúde das pessoas que viviam próximas à fábrica enquanto ela funcionava. Para os funcionários isso era feito, mas não há mais arquivos para checar. “Eles faziam sim, eu lembro que uma vez o meu sangue estava 95 [95 µg/dL] e eles me mandaram ficar em casa por uns 15 dias até baixar”, conta seu Altamiro Venancio. Ele não recebeu nenhum documento que comprove a altíssima incidência de chumbo no sangue, mas afirma que não tem nenhum problema de saúde correlato a sua atividade laboral.
O farmacêutico e bioquímico, mestre em Ciências Biológicas, doutor em ciências da saúde e professor do curso de farmácia da PUCPR, Sérgio Fontoura, explica que a contaminação por chumbo pode acarretar em vários problemas para a saúde. “São sinais, por exemplo, da intoxicação por chumbo, comprometimento renal, anemia e pressão alta. Quando falamos de exposição de longo prazo, podem aparecer sintomas como dores em articulações, dores abdominais e dores musculares, mas é preciso considerar que existem também outras causas para estes sintomas”. O farmacêutico alerta que um quadro associado a este sintomas pode ser correspondente a doença do saturnismo. “O saturnismo, também é chamado de plumbismo - o nome em latim para o chumbo, e é a intoxicação aguda ou crônica causada pelo acúmulo de chumbo no organismo. O diagnóstico para a doença é confirmado por exame de sangue, mas também podem ser feitos exames odontológicos, onde é possível notar uma linha meio azulada na gengiva ou por raio-x dos ossos, onde também pode ser observada essa linha azulada chamada de linha de burton".
As questões de saúde trazem a pecha de que Adrianópolis é uma cidade contaminada por chumbo, e isso não prejudica apenas o novo proprietário da Plumbum, mas também cria um problema político no município. O vice-prefeito da cidade, Israel Rodrigues, o Pardal (União), foi técnico de laboratório da empresa durante 6 anos e 7 meses, até o fechamento da unidade.
Ele se lembra que um mês antes do encerramento das atividades, mais de 80% dos turnos já tinham sido reduzidos. No dia do fechamento, os funcionários foram chamados ao pátio, conforme relembra, e “receberam tudo certinho”.
Para Pardal o encerramento da disputa pelas indenizações e pela reparação ambiental (leia a primeira reportagem da série aqui) fará com que o município prospere. “Tudo o que você pesquisa sobre Adrianópolis na internet ou em qualquer lugar aparece esse negócio do chumbo, da contaminação, que é perigoso. Então essa imagem é muito ruim, o que a gente precisa é de emprego para população”, critica.
Apesar do processo referente à contaminação, muitos moradores da cidade guardam boas lembranças das atividades da Plumbum. Alguns, inclusive, comemoraram a possibilidade da reativação da planta para extração de calcário. Tema da terceira e última reportagem da série, disponível aqui.
