Pular para o conteúdo

Exposição “Entre Conchas” entra em cartaz no Prédio Histórico e conta sobre sambaquis do Paraná

Sítios arqueológicos indígenas estão espalhados pelo litoral do estado e apontam para os modos de vida de povos que habitaram a região

Exposição “Entre Conchas” entra em cartaz no Prédio Histórico e conta sobre sambaquis do Paraná
Escavação realizada pelo CEPA no Sambaqui do Macedo (Paranaguá), em 1958. Acervo: MAE-UFPR
Publicado:

“Sambaqui é um termo que faz parte do imaginário de muita gente, que remete ao passado e ao litoral”. Essa frase abre o catálogo da exposição Entre conchas: modos de vida nos sambaquis, que abre para o público nesta sexta-feira, 26, no Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba.

Os sambaquis são considerados uma das principais categorias de sítios arqueológicos costeiros do Brasil. Formados intencionalmente por populações indígenas, eles se destacam por seu tamanho: podem chegar a mais de 20 metros de altura e ocupar áreas extensas, ganhando características de verdadeiros monumentos.

Essas construções são totalmente antrópicas, feitas pelo acúmulo de conchas, restos de fauna, objetos culturais e até sepultamentos humanos. Por isso, revelam informações preciosas sobre os modos de vida, a alimentação, as tecnologias e as práticas sociais de povos que habitaram o litoral brasileiro entre 8.000 a.C. e 1.000 d.C.

Mudanças climáticas

Os sambaquis não são apenas registros do passado remoto, mas estruturas ainda vivas na paisagem litorânea brasileira, e hoje estão sob ameaça crescente. A intensificação das mudanças climáticas coloca em risco a preservação de centenas de sítios arqueológicos, sobretudo no litoral do Paraná.

Artefato em forma de albatroz, produzido com técnicas de polimento e incisões, coletado no sambaqui de Matinhos (PR) – Foto: Douglas Fróis

Eventos climáticos extremos “ameaçam muito, em vários sentidos”, afirma o arqueólogo Laercio Loiola Brochier, professor do Departamento de Antropologia Social da UFPR. Segundo ele, os impactos vão além da elevação do nível do mar: incluem mudanças nos padrões de precipitação, erosão costeira e deslizamentos em áreas próximas à Serra do Mar.

“Processos de acidificação marinha, em função das chuvas ácidas, podem deteriorar um componente principal dos sambaquis, que é o carbonato de cálcio. Os eventos extremos atingem de maneira bastante abrupta as áreas”, afirma Brochier, que também é pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (CEPA/UFPR).

Os sítios mais próximos do mar correm um risco ainda maior. “Tem muitos [sambaquis] que estão muito perto das águas, dos sistemas de encostas da Serra do Mar, e esses sistemas são drasticamente afetados por processos de escorregamento, deslizamentos, a formação de enchentes”, explica.

O levantamento conduzido pelo arqueólogo mostra números alarmantes: na Baía de Guaratuba, cerca de 30% dos sambaquis sofrem com abrasão costeira; em Antonina, 36%; e na Baía de Laranjeiras, até 70% dos sítios já apresentam impactos diretos. A abrasão costeira é um tipo de erosão marinha causada pelo impacto das rochas, sedimentos e areias carregados pelas ondas, que agem como lixa, desgastando a linha costeira.

Só no Paraná, estima-se a existência de mais de 300 sambaquis, mas apenas cerca de 13 foram estudados de forma sistemática. “Com essa projeção de mudanças climáticas, a gente tem realmente uma condição alarmante em relação a uma categoria de sítio essencial no Brasil e em especial no Paraná”, alerta o pesquisador.

Sambaqui do Rio Claro, no Paraná – Foto: Douglas Fróis

Para Brochier, proteger os sambaquis exige tanto mapeamento detalhado e monitoramento tecnológico — como o uso de sistemas LIDAR para registrar digitalmente os sítios — quanto ação comunitária. “Não dá para separar sambaqui do meio ao qual ele está inserido e também do meio sociocultural. É um patrimônio cultural nosso e, em especial, das comunidades e sociedades costeiras”, diz.

Respeito à memória

Além dos desafios científicos, há também dilemas éticos na forma de apresentar esse patrimônio. Em muitas culturas indígenas, a exposição de ossadas humanas é vista como desrespeitosa às tradições ligadas ao sepultamento. “Por mais que a gente não tenha uma relação comprovadamente direta entre as populações sambaquieiras e as populações indígenas atuais, existe uma questão de respeito a essa história de longa duração”, ressalta Sady Pereira do Carmo, arqueólogo do MAE e curador da mostra..

Na exposição, a equipe optou por não exibir restos humanos. Para tratar do tema dos sepultamentos sem ferir a memória indígena, foi criado um diorama — uma representação cenográfica que mostra aspectos do cotidiano e das práticas funerárias, sem expor ossadas reais. “O que a gente vai fazer nessa exposição é lidar com a morte sem precisar expor um corpo indígena”, explica o curador.

Serviço

A abertura da mostra acontece com uma mesa redonda. Os convidados são o arqueólogo e pesquisador Laercio Brochier, a mestranda em arqueologia e antropologia Tatiane Montes e a pesquisadora do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (LAGEAMB/UFPR), Fernanda Sezerino.

Também é possível acessar a exposição virtual.

Exposição: Entre Conchas: modos de vida nos sambaquis
Local: Prédio Histórico da UFPR, Sala Dalton Trevisan – Praça Santos Andrade, Curitiba
Mesa redonda: 17h
Abertura: sexta-feira, 26 de setembro, às 18h30
Horário de funcionamento: 9h30-12h30 e 13h30-18h, de segunda à sexta-feira

Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR

Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR

Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR. Primeiro museu universitário do Paraná, fundado em 29 de julho de 1963.

Todos os artigos
Tags: Paraná UFPR

Mais em Paraná

Ver todos

Mais de Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR

Ver todos

De nossos parceiros