O Plural entrevistou Gabi Guedes, um dos maiores percussionistas do Brasil e ogã do lendário Terreiro do Gantois em Salvador. O músico falou sobre candomblé, sobre luta contra o racismo, sobre seus trabalhos como artistas como Jimmy Cliff e a relação dos cultos de matriz africana com a natureza.
Na última sexta-feira (28), Curitiba recebeu um Workshop com um dos mais importantes ogãs e percussionistas do país, o baiano Gabi Guedes. O evento aconteceu na Casa Cultural Àlàáfíà. Na oportunidade, o artista, que é uma das maiores referências vivas da música afro-brasileira, falou sobre musicalidade, ancestralidade, candomblé e sobre a magia de comandar os atabaques no terreiro de matriz africana mais tradicional do país, o Gantois.
Antes do evento, na tarde de sexta-feira, Gabi Guedes recebeu o Plural no Ilê Asé Yemanja Ogunté, terreiro de candomblé que fica no bairro Hauer, na capital, e que é comandado pela Iyalorisá Silvialice Diniz d’ Yemanja.
Durante a entrevista, mestre Gabi Guedes falou sobre sua história no candomblé, sobre o Terreiro do Gantois, sobre Mãe Menininha e sobre a diversidade religiosa no bairro da Federação, onde fica a casa de axé mais famosa do Brasil.

O músico também falou sobre a luta contra o racismo religioso, sobre a relação do candomblé com o meio ambiente, sobre sua carreira com artistas internacionais como Jimmy Cliff, entre outros temas.
Confira a entrevista:
Plural: O que o senhor preparou para o Workshop na Casa Cultural Àlàáfíà, o que os participantes encontrarão lá?
Gabi Guedes: Nestes eventos eu gosto muito de falar sobre postura no terreiro, sonoridade, conexões, dinâmica, volume, tudo isso está envolvido neste bate papo que vai acontecer durante o workshop. Ao mesmo tempo, falarei sobre musicalidade e ancestralidade, vou construindo, desconstruindo e explicando os toques dos atabaques.
Durante estes encontros eu sempre falo sobre as pessoas que me deixaram importantes legados. Sobre as formas como elas conduziam os toques e a forma que isso era passado para as pessoas, de geração a geração. Antigamente não tinha muito estes encontros como o workshop, a gente aprendia quando chegava nos lugares e via as pessoas tocando e muitas vezes se encantava em ver a forma como cada um tocava o atabaque.
Eu absorvi isso de várias pessoas que conheci ao longo da minha vida no candomblé, não só no terreiro onde fui criado, que foi o terreiro da Mãe Menininha do Gantois, mas em outros terreiros também, como o da Mãe Bebé, da Mãe Alzira, o Terreiro do saudoso Augusto César e a casa da Mãe Senhora de Ewá.
Então, tudo isso, toda essa história eu vou trazer no workshop de logo mais.
Plural: Trazer esse conhecimento que o senhor acumulou ao longo de muitos anos nos terreiros da Bahia para uma cidade como Curitiba, além de enfatizar esse resgate da ancestralidade e das pessoas que contribuíram na sua vida dentro do candomblé é também uma forma de resistência contra o racismo religioso tão presente no Brasil?
Gabi Guedes: É uma resistência sim. A gente vem resistindo e perpetuando a nossa cultura há muitos anos e de diversas formas. Nós, que vivemos dos terreiros, da cultura, estamos fortalecendo o comércio local, trabalhando atrás de um balcão de uma loja, limpando um grande edifício, ou seja, são diversas as maneiras de resistência. Compartilhar saberes, como tento fazer nos workshops é também uma forma de a gente resistir. Não só contra o racismo, ou a imposição dessa ou daquela religião, é onde buscamos força para o dia a dia.
Plural: Nos lugares onde o senhor vai, não só no Brasil, mas também no exterior, o senhor representa o Gantois e toda a história e importância que o terreiro tem para as religiões de matriz africana. Acredito que muitas pessoas lhe perguntam como era a Mãe Menininha, do que o senhor lembra quando pensa nela?
Gabi Guedes: O que me lembra muito a Mãe Menininha do Gantois é o respeito a todas as pessoas, sem distinção de cor, nem classe social. Ela recebia tanto um pobre quanto um milionário do mesmo jeito, com os braços abertos. No bairro onde cresci (bairro da Federação), me lembro que no terreiro sempre tinha muita comida, muita fartura e isso era distribuído para toda a comunidade, independente da religião e da classe social.
As pessoas muitas vezes criticam quando se mata um galo ou um bode nos terreiros, mas lá todo mundo comia, isso alimentava muita gente. E isso acontece até hoje. Existem ongs hoje que fortalecem esse movimento lá no terreiro. Centenas de pessoas, 500, 600, 700 pessoas em fila na porta do terreiro recebendo comida e cesta básica. Não importa se é preto, branco, se mora do lado do terreiro ou precisa pegar ônibus para chegar. Não importa se é da umbanda, do candomblé ou de igreja evangélica.
Esse ato é uma coisa muito forte, isso é a referência da Mãe Menininha. Quando ela partiu e deixou sua filha, a Mãe Cleusa, como herdeira do barracão, ela continuou esse trabalho. E depois que a Mãe Cleusa partiu, quem deu continuidade nisso foi a Mãe Carmen que hoje está à frente do terreiro.
Esse é um dos maiores legados da Mãe Menininha. Além do respeito aos orixás, às energias. A forma de cultuar com amor e seriedade, mantendo viva a ancestralidade. Ao lado do terreiro do Gantois existem muitas igrejas evangélicas e todos convivem há muitos anos de forma pacífica. Não tem ninguém apedrejando o terreiro ou tentando incendiá-lo. Não tem ninguém indo quebrar uma imagem de um orixá, muito pelo contrário, as pessoas se respeitam, se falam.
Eu fui criado assim também na minha casa. Hoje minha mãe vai para a igreja, tem bíblia em casa, lê a bíblia, reza por todos os filhos. A metade dos filhos vai para o terreiro do candomblé como eu, cultua as entidades, reza e nós vivemos em comunhão. Ninguém briga, “ah você é do candomblé, você é do mal”. Não tem isso. Na minha casa quase todo final de semana nos juntamos para curtir, para comer, conversar, tomar uma cerveja.

Plural: E a Mãe Menininha tem um papel fundamental nisso também.
Gabi Guedes: Com certeza, ela deixou esse legado que foi se perpetuando, com respeito às diferenças. Somos todos iguais, não importa a cor da pele.
Plural: O senhor acredita que chegará um momento em que o Brasil todo vai reproduzir esse respeito que existe lá?
Gabi Guedes: Eu espero muito que isso aconteça e no mundo todo. Que as pessoas aprendam a respeitar as diferenças. Eu tenho minha forma de cultuar a energia que eu acredito e tenho que respeitar a sua forma de cultuar a energia que você acredita. Eu não posso dizer para você que minha energia é melhor que a sua, não posso. Tenho que conviver contigo para quem juntos consigamos formar uma grande família. Precisamos de um mundo onde a gente não precise se defender por conta da cor da nossa pele. Somos todos iguais, se corta minha carne vai sair sangue vermelho, se corta a sua carne vai sair o mesmo sangue. Onde é que está a diferença? Precisamos viver em comunhão, em uma comunidade onde possamos ir e vir sem problemas, onde as diferenças sejam respeitadas.
Plural: Vi em outras entrevistas o senhor mencionar a importância de pessoas como o Mestre Vadinho na sua formação como ogã. Ele é um dos grandes nomes ligados ao candomblé no Brasil. É possível mensurar a importância que ele teve na sua vida?
Gabi Guedes: O Mestre Vadinho, além de ser um grande ogã, era um grande preservador da cultura. Era um sujeito que não tinha problema em passar o que tinha aprendido dentro da religião. Essa imagem para mim é a imagem de alguém que não estava preocupado, queria mostrar de forma alegre que estava ali preservando e perpetuando o som dos tambores.
Ele compartilhava seu conhecimento de como fazer essa conexão com o universo por meio dos atabaques. Conexão com o ar, a água, as folhas, a mata. Então, as lembranças que tenho dele são maravilhosas. Não só ritmicamente falando, mas como um pai, que estava ali ensinando: “olha, não toca nesse papel agora que não pode, mas vai chegar o momento, não toca o tambor agora, mas vou precisar que você esteja do meu lado na hora da festa”.
Entrei no terreiro do Gantois junto com minha avó, Maria Felipa, filha de Ogum, acho que eu tinha cinco ou seis anos de idade, hoje tenho 63 anos. Ela me levou pela mão e disse, “olha, agora vai acontecer uma função e os ogãs não estão na casa, por isso vamos precisar de você. Mesmo que você não saiba tocar com propriedade, mas tocando com o coração já basta”. Ali virou uma chave na minha vida, ali começou tudo.
Plural: Hoje o senhor é reconhecido como um dos maiores percursionistas do Brasil. Essa história começou também no terreiro?
Gabi Guedes: Aos 13 anos de idade me lembro que eu já tentava fazer música. Minha mãe não deixava a gente ficar muito solto na rua. Ela lavava roupa para ganhar dinheiro e ajudava ela. Como eu a ajudava eu a ouvia cantando sambas antigos, ela trouxe essa cultura da cidade de Cachoeira, onde ela nasceu, no Recôncavo baiano. Lá, ela foi também charuteira. Então, ela tinha muito essa cultura do samba, cantava os sambas de roda e me dava uma lata para eu ficar batucando.
Até que chegou um cineasta em Salvador, o José Agripino de Paula. Ele montou um trabalho chamado “O Espírito do Menino do Planeta Terra”. Ele convocou toda a criançada do bairro, 30 crianças que foram para o Instituto Goethe participar desse filme que falava sobre o espírito de uma criança que queria salvar o mundo.
Isso foi criando em mim mais vontade pela música, pela dança. Eu já cantava, tocava e dançava aos nove anos, depois tudo fluiu e fui conhecer o mundo e trabalhar com artistas renomados.
Plural: Entre os artistas renomados que o senhor trabalhou estava Jimmy Cliff, que infelizmente nos deixou recentemente. Como ele era, como era trabalhar com ele?
Gabi Guedes: Conheci ele em 1991. Foi uma coisa maravilhosa. Antes eu já tinha morado na Argentina, levando essa coisa da percussão ancestral, tinha morado na França com uma escola de música levando essa cultura brasileira ancestral para lá. Aí fui morar na Alemanha, um ano e meio em Berlim e fui morar também na Austrália. Quando voltei para o Brasil é que conheci o Jimmy Cliff e pude trabalhar com ele por nove anos.
Era um sujeito incrível, sensível, pai, amigo, irmão. Um cara muito respeitoso, entendia também as necessidades das pessoas que trabalhavam com ele.
Eu lembro que no terceiro ou quarto ano em que estava trabalhando com ele eu já estava me sentindo cansado daquele repertório, né? Mas ele me falou uma frase que eu fiquei sem entender. Eu falei: "Como que eu consigo fazer isso? Se não sei, mas ele falou para mim: "Olha, Gabi, você eleva o meu espírito". E isso me deu cada vez mais força de seguir trabalhando com ele.

Acho que ele tinha uma sensibilidade espiritual. Com certeza. Eu senti muito a partida dele. Era uma pessoa incrível que se preocupava muito com o planeta e a humanidade. Uma vez ele participou de uma conferência no Rio de Janeiro. E os magnatas perguntaram para ele: "Como você acha que a gente pode salvar o mundo"? Ele falou: "Vocês precisam parar de matar os animais, destruir as florestas e sujar os rios, as cachoeiras, o mar, dessa forma, com certeza, a gente vai conseguir salvar o mundo”. Não ouviram ele.
Plural: Falando em meio ambiente, em novembro o Brasil sediou a COP 30. Nosso país hoje sofre com constantes desastres naturais causados pelo aquecimento global. O que o candomblé e os orixás, que são forças tão intimamente ligadas à natureza, têm a dizer para o Brasil e o mundo em um momento tão delicado para o meio ambiente?
Gabi Guedes: Primeiramente a gente precisa ser mais humano, se respeitar mais para que juntos possamos parar de poluir as águas, parar de cortar as árvores. Nós somos humanos, dependemos intimamente da natureza e não podemos nos esquecer disso. Lembrar que a gente precisa comer, beber e respirar. Para a gente beber uma água saudável, a gente precisa parar de poluir as águas. Para a gente comer comidas saudáveis, a gente precisa entender que temos que cuidar das matas, das florestas, das hortas, sabe?
E o povo do candomblé luta por isso. A gente luta por igualdade. A gente quer se olhar e sorrir de verdade. A gente quer dar um copo d'água e saber que o próximo, independente da sua cor da pele ou classe social, vai tomar aquela água e vai matar a sua sede e vai agradecer. Essa é a ideia de nós povos de santo, porque o tempo inteiro nós estamos pensando no universo.
É a gente respeitar a natureza, é a gente dar para receber, é a gente ser recíproco com a natureza, com aquela folha que você pode pegar ali, pegar uma acerola e chupar aquela acerola e ali mesmo você joga a semente para que ela germine novamente, tudo no seu lugar. Eu lembro que quando eu construí a minha primeira casa num terreno que minha mãe me deu, assim, uma terrinha de nada, tinha um jenipapeiro. Às vezes eu estava meio triste com alguma coisa e eu ia lá no olho do pé do jenipapo e ficava ali balançando.
Quando precisei construir a casa eu precisei cortar esta árvore. Esse foi um dia muito difícil para mim, muito mesmo. Porque eu tinha uma relação de respeito e amor com aquele jenipapeiro.
Hoje, graças a Deus e aos encantados eu tenho meu espaço tranquilo, meu estúdio, minha casa tranquila também. Mas eu não esqueço do meu pé de jenipapeiro. E foi isso que o candomblé me ensinou, a criar um laço de amor com a natureza, com a água, as plantas, as folhas, os animais.
Esse é o candomblé. Ele não é feito só dentro barracão. Candomblé é feito disso, de natureza, de mata, de rio, de mar.
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