O Uber vai chegando perto e ainda não vi o estádio. É que "estádio", no caso dos times da Suburbana, quer dizer algo bem diferente da Arena do Athletico, do Couto Pereira. O único aviso de que estamos perto do Ismael Gabardo, sede do Vila Fanny, são os postes com os holofotes, três de cada lado do campo. Chegamos.
Na entrada, não há catraca e você entra de graça. Só te pedem o telefone para concorrer a uma camisa do time dono da casa. Mais dez passos e você está na área coberta onde vendem o pão com bife, a cerveja e brigadeiros feitos em casa. Um pouco mais à esquerda e está na arquibancada: é só sentar num dos três degraus de cimento e curtir a partida.
Fui assistir à peleja entre Vila Fanny e Novo Mundo por dois motivos. Primeiro, porque o Plural agora está cobrindo a Suburbana, e estava louco para saber como era aquilo. Segundo, porque é absolutamente conhecer o Rafael Buiar e os seus cinco asseclas no Do Rico ao Pobre, nossos parceiros de cobertura, e não se entusiasmar pelo futebol amador de Curitiba. Eles vivem aquilo e são felizes com o que fazem.
A primeira ideia era ir com meu filho ver o jogo do Santa Quitéria, mas o time estava jogando com portões fechados. Então, lá fomos nós rumo ao Sul ver o time que, afinal de contas, estreou neste ano um craque: Rafinha, ex-ponta esquerda do Coxa e do Paraná, aos 42 anos, foi anunciado como camisa 10 do Fanny.
A torcida organizada, a Fannyticos, estava a toda, com bateria, gritos de guerra e até umas bombinhas que, no segundo tempo, causaram certa tensão quando um engraçadinho estourou o explosivo perto demais dos companheiros de alambrado.
Começou a partida e fiquei impressionado. O jogo não fica devendo muito para os dos times profissionais da cidade (pelo menos na ótica de um perna-de-pau como eu). O Novo Mundo, que me informam ser um dos principais candidatos ao título, mete uma bola quase no ângulo e o goleiro do Fanny faz um voo de craque para salvar de mão trocada.

Aí vem o único perrengue da nossa estreia nos campos da Suburbana. O que começou como uma chuva leve logo vira um toró daqueles. Todo mundo corre para a área coberta, abandonando a arquibancada. E como não sou lá muito alto, pouco vejo do que está acontecendo no campo.
No final do primeiro tempo, já com a chuva amainando, sai o gol do Novo Mundo. Num bate e rebate, a bola sobra para um belo chute de canhota que esbarra na trave e entra. A Fannyticos quase desanima, mas ainda tem o segundo tempo pela frente.
No intervalo, converso com o casal atrás de nós. Digo que ouvi falar do poderio do Novo Mundo, mas o sujeito me corrige: "Perto do Fanny é um time pequeno". Ok, torcedor é torcedor.

O segundo tempo é acirrado. Entre as jogadas de craque e uma ou outra canelada (acontece, oras), há também momentos bem diferentes do jogo profissional. A bola que sai para a rua, ou que vai bater no topo de uma árvore logo depois da lateral. Um jogador corre demais para impedir que a bola saia pela linha de fundo e precisa pôr as mãos para frente - vai trombar com o muro.
Uma das graças do jogo é que tudo também é muito mais próximo do que numa pomposa partida do profissional. O massagista corre para atender um jogador e ouve uma piadinha do torcedor. Pelo jeito os dois se conhecem e se cumprimentam rindo. O técnico passa muito perto da lateral e ouve tudo que a galera quer dizer: "Vamos fazer o pessoal jogar, professor!"
No meio do segundo tempo, alívio para o Fanny. Num chute muito parecido com o que deu o gol ao adversário, sai o empate. Esse seria o placar final da partida, equilibrada como parece que é costume na Série A da Suburbana. (O jogo que eu pretendia ver antes, entre Santa Quitéria e Tanguá, acabou em 3x3, informa o grupo de zap do Do Rico ao Pobre).
O saldo final é amplamente positivo. Não gastamos nada (exceto pelo Uber e duas águas sem gás), vimos uma bela partida e conhecemos um pouco mais da cidade. Principalmente as pessoas. Afinal, como diz o Rafael, a Suburbana é feita de gente.
