A volta às aulas na rede estadual de ensino em Curitiba será marcada pelo desmanche de turmas que concentravam uma grande quantidade de estudantes neurodivergentes. Durante o recesso escolar de julho, quatro colégios estaduais da região norte da capital foram surpreendidos com o fechamento de salas de 6º e 8º anos pela Secretaria de Estado da Educação (Seed).
O alvo dessa reestruturação do governo foram as turmas consideradas menores, com uma média de 25 estudantes. Embora o estado encare a lotação como insuficiente para manter a sala aberta, educadores da APP-Sindicato apontam que esse é o número ideal para garantir a qualidade do ensino, justamente por permitir a atenção redobrada que a inclusão exige.
Educação como número
A APP-Sindicato classificou a decisão como uma gestão baseada exclusivamente em estatísticas, sem olhar para a realidade humana da sala de aula. O secretário executivo educacional da entidade, Vandré Alexandre da Silva, definiu a ação da Seed como "perversa" por ignorar as necessidades dos alunos, em especial as crianças do 6º ano, que vivenciam uma fase delicada de transição do Ensino Fundamental I para o II. Para ele, resultado da medida é a descontinuidade do aprendizado.
A notícia do fechamento das turmas chegou ao corpo docente no início das férias. A secretária-geral do Núcleo Curitiba Norte, Márcia Amaral Pontes de Lima, lamentou que o recesso tenha se transformado em um momento de angústia. Os profissionais perderam parte de sua carga horária e agora iniciam o segundo semestre precisando disputar uma nova distribuição de aulas ou encarando a incerteza de ficar sem remuneração.
Denúncia no Ministério Público
Para tentar barrar o desmanche, a APP-Sindicato protocolou uma denúncia formal no Ministério Público do Paraná (MP-PR). O pedido exige que o órgão investigue a manobra do Governo do Estado e adote medidas urgentes para impedir que as novas salas fiquem inchadas a ponto de inviabilizar o suporte adequado aos estudantes neurodivergentes. O sindicato orientou, ainda, que famílias de alunos prejudicados também procurem o MP para reforçar as queixas.
Governo nega prejuízos
Em nota, a Seed defendeu a medida, afirmando que a reorganização obedece à legislação vigente e foi feita após uma avaliação individualizada de cada escola. Segundo a pasta, as turmas que foram fechadas apresentavam um número de matrículas inferior aos parâmetros exigidos pela rede.
A secretaria justificou que o remanejamento ocorreu dentro dos mesmos colégios, sem a necessidade de transferir ninguém para outras instituições, e garantiu que o espalhamento dos estudantes não gerou salas superlotadas, restando, inclusive, margem para novas matrículas. A Seed argumentou ainda que a continuidade do ensino não será prejudicada e que as condições adequadas de atendimento aos estudantes da educação especial foram preservadas. O Plural segue acompanhando o caso.
Texto de Marya Marcondes, aluna de Jornalismo da UFPR.
Sob orientação de Rogerio Galindo