Angie Rocio, 30, é colombiana e está no Brasil desde 2019. Atualmente é mestranda no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Energia e Sustentabilidade da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, no Paraná. Ela pesquisa o processo de degradação da atrazina por fungos, um defensivo utilizado na agricultura. A dissertação é uma continuidade do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que também foi feito na Unila.
Na Unila há 259 estudantes da pós-graduação stricto sensu, dos quais 22,77% são estrangeiros. Já na modalidade lato sensu, dos 240 alunos matriculados, 12,5% são estrangeiros.
“Eu não conhecia o Brasil, nem Foz do Iguaçu, mas um amigo tinha um conhecido que estudava aqui e eu me interessei pelo programa e pelas oportunidades que o Brasi, tem, apesar de o Paraná ser bem diferente daquilo que a gente imagina lá na Colômbia”, diz, aos risos, a pesquisadora, que é tecnóloga em saneamento ambiental de formação.

Assim como Angie, Adriana Paola Velasquez, 29, também deixou seu país, a Bolívia, para vir ao Paraná para desenvolver sua pesquisa. Ela faz mestrado no Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTPFR), no campus Curitiba.
A engenheira civil chegou à Curitiba, sem nunca ter saído anteriormente do seu país, buscou em terras brasileiras oportunidade de pesquisar recursos hídricos e saneamento. “Eu soube do programa [de pós-graduação], entrei em contato com a Universidade e já me orientaram com tudo. Então aqui no Brasil, na UTFPR, temos estruturas para desenvolver os trabalhos”, explica.
Adriana é uma das 69 alunas e alunos estrangeiros que fazem pós-graduação stricto sensu na UTFPR. Conforme da universidade, há estudantes do Afeganistão, Angola, Argentina, Bolívia, Cabo Verde, Camarões, Chile, Colômbia, Costa do Marfim, Cuba, Equador, Haiti, Irã, Itália, Japão, Moçambique, Nigéria, Paraguai, Venezuela e Peru. Dos 69 alunos da instituição, 24 estão em Curitiba e os demais distribuídos em doze municípios do Paraná.
Garantir o estudo
De acordo com dados do Boletim de Migração, da Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), ligado ao Ministério da Justiça, o Brasil registrou a chegada de 194.331 migrantes em 2024. No Paraná, confirme o boletim, há mais de 151 mil habitantes imigrantes que chegaram entre 2010 e 2024.
Uma destas pessoas que escolheu o Paraná neste período para desenvolver sua pesquisa foi o engenheiro mecânico dos fluídos e professor universitário Fernando Castillo, de 39 anos. Atualmente doutorando no programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), ele veio à Curitiba já para o mestrado na UTFPR.
O pesquisador começou o mestrado no Peru, mas como não há políticas de permanência, os custos ficaram inviáveis. “O professor Rigoberto [Morales, da UTFPR] dava palestras na minha universidade, em Lima [Peru] e tinha um amigo que fazia mestrado aqui [no Brasil]. E aqui no Brasil tinha bolsa, ao invés de eu pagar, poderia receber. Me candidatei no processo seletivo, já tinha artigos publicados e foi aprovado”, conta.

No mestrado, o professor pesquisou escoamento experimental aplicado para indústria do petróleo. A mesma pesquisa poderia ter sido desenvolvida no Peru, mas com a dificuldade de ter que ter outro emprego ao mesmo tempo.
Possibilitar que pesquisador trabalhe apenas em seus projetos científicos permite que o Brasil tenha cientistas que são referências em suas respectivas áreas, especialmente nas engenharias, que atraem muitos estudantes.
Agora, no doutorado, o professor pesquisa aceleração de cálculos de conforto térmico ambiental de edificações, que é subsidiada pela Ambipar.
A garantia da permanência é outro ponto positivo para que estrangeiros busquem as pós-graduações paranaenses. A equatoriana Sofía Jimenez, de 26 anos, que já fez intercâmbio cultural em outros países como a Islândia, escolheu o Paraná para a pós-graduação. “Eu queria muito vir para o Brasil e na Unila, no Programa de Relações Internacionais, consegui e estou desenvolvendo a pesquisa”.
Qualidade de ensino e de vida
A área da engenharia é um dos atrativos para estrangeiros. Um levantamento realizado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR) demonstra que há mais de 500 cursos de graduação em engenharia no Estado. O número sobe para 819 se considerarmos tecnologias e pós-graduações. Os dados são referentes a 2021.
De acordo com dados da Plataforma Sucupira, há 42 programas de pós-graduação em engenharia do Estado com reconhecimento da Capes. Eles estão distribuídos em diversas regiões, na UFPR, UTFPR, PUCPR, Unila e na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), e Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
Ademais, pessoas de outros países que vêm para o Paraná, além da qualidade na educação, também buscam segurança, conforto e acolhimento. Dados do Índice do Progresso Social (IPS) divulgados em 2025 apontam que 52% dos municípios do Estado alcançaram níveis elevados de progresso social. Em 31 cidades o IPS é considerado muito alto.
O índice internacional é baseado em 57 indicadores sociais, econômicos e ambientais, utilizados para mensurar a qualidade de vida da população em três dimensões principais: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades, com notas que variam de 0 a 100.
Além de tudo, as próprias instituições de ensino superior adotam programas que permitem integração dos estudantes estrangeiros. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR) existem processos seletivos específicos para imigrantes e um guia de acolhimento criado para estudantes estrangeiros de graduação e pós-graduação.
O guia é distribuído no campus Curitiba e também está online. Nele, estudantes encontram informações sobre mobilidade, segurança, etc. A UFPR atualmente tem 282 alunos estrangeiros matriculados na pós-graduação da instituição, entre eles alunos de Angola, Peru e Moçambique.

“A própria Capes tem incentivado o ingresso de estudantes estrangeiros nas universidades públicas. Aqui na UFPR temos, além do guia, aulas de português gratuitas e escrita científica em Língua Portuguesa e temos aumentado o número de disciplinas ministradas em outros idiomas, entre eles inglês e francês”, destaca Bernardo de Almeida Villanueva, da seção de internacionalização da UFPR.
De acordo com a coordenadora de pós-graduação stricto sensu da UFPR, Paula Carina de Araújo, a instituição também desenvolveu uma pesquisa interna para mapear o perfil dos estudantes, com a finalidade de deixar as políticas de permanência mais assertivas. "Na UFPR especificamente recebemos muitos estudantes de países africanos, incluindo alguns que já são profissionais, trabalham até mesmo em órgãos dos governos e buscam aperfeiçoamento”, destaca.