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É duro fazer Uber com a gasolina no preço que está. Tem motorista atrás de CLT, virando diarista...

Categoria estima que Curitiba perdeu cerca de 30% dos motoristas de aplicativo no último ano

É duro fazer Uber com a gasolina no preço que está. Tem motorista atrás de CLT, virando diarista...
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“Eu trabalhei com os aplicativos durante dois anos. Fazia Uber e 99 – o meu aplicativo da Uber ficava ligado praticamente o dia inteiro. No começo, era super bacana, dava pra tirar um dinheiro legal. Depois começou a dificultar”, conta Janete Faville. 

O que aconteceu foi que, com a pandemia, o movimento caiu bruscamente. Em seguida, ela começou a perceber que as taxas repassadas aos motoristas eram problemáticas. “Nós conversávamos com os passageiros, eles diziam quanto estavam pagando e pra gente vinha um valor muito inferior”, fala. Com a alta dos combustíveis, ficou inviável: ela decidiu voltar para a CLT como executiva de vendas. “A gente já não tem ajuda com as despesas do carro, alimentação, nada. Foram muitos pontos negativos que me obrigaram a voltar atrás".

Além de Janete, conversei com outros quatro motoristas que seguem na ativa e descobri que as queixas são muito similares. Todos relembraram com saudade de quando os aplicativos chegaram em Curitiba, em meados de 2016. “Naquele tempo o combustível custava R$ 2,69 e a taxa de embarque da Uber era R$ 5,29”, resgata Alessandro Tanner, que além de vanguardista na atividade, é presidente da União Nacional dos Motoristas de Aplicativos. 

Hoje, as coisas estão claramente diferentes: “Eu abasteci agora de manhã e paguei R$ 5,69 no litro da gasolina, na Marechal Floriano”, afirma o motorista Jacques Douglas Pilati. No mesmo dia, outro colega pagou um pouco menos: R$ 5,67. Mas ele não se arrepende. “Pela diferença de dois ou seis centavos não compensa me deslocar nem três quadras pra ir procurar um posto mais barato”, pondera.

O resultado é que muita gente, assim como Janete, acabou desistindo dos aplicativos. “Deve ter em torno de 30% a menos de motoristas de aplicativo do que tinha um ano e meio, dois anos atrás”, deduz Jacques. A estimativa é corroborada por Alessandro. Em nome da associação, ele fez um levantamento entre os grupos de motoristas de Curitiba e chegou à conclusão de que 30% realmente caíram fora.

Ivete Astrissi é moderadora de um grupo de motoristas e acompanha cerca de 400 mulheres todos os dias. Ela tem observado de perto a evasão. "Elas saem do aplicativo pra trabalhar de diarista, às vezes nos próprios grupos pedem a oportunidade de emprego, é complicado”. Conversamos durante 15 minutos até ela começar a rir e perguntar: "Não é o seu caso, mas se fosse, você não ia mais querer fazer Uber, né?". Não há como negar. Para quem ainda conta com a renda dos aplicativos no fim do mês, o cenário parece desanimador.

Ivete na ativa. Foto: arquivo pessoal

Uber na ponta do lápis

Combustível, óleo, pneu, limpeza, multas de trânsito, impostos, seguro ou proteção veicular: os gastos para manter um carro rodando são muitos. Tantos que não compensa pagar mais barato por uma gasolina adulterada e correr o risco de ver o automóvel pifar no meio da corrida. 

“Na semana passada, gastei R$ 500 e poucos só com manutenção do meu carro por causa de combustível ruim. Que às vezes você tá na reserva, coloca gasolina em uma região desconhecida e depois, quando vai ver o resultado, o carro começa a falhar. Foi o caso do meu: não andava, não desenvolvia, morria no semáforo. Aí eu tive que levar pra oficina", fala Ivete. 

Ela mora em Colombo e prefere abastecer no posto de confiança, perto de casa. Todos os dias, religiosamente, sai para trabalhar às 6h da matina, embora só entre às 8h. À noite, depois de bater o ponto, fica mais duas ou três horas na rua. No sábado, liga o aplicativo das 6h às 21h para terminar de complementar a renda. Só descansa no domingo. “Se eu tirar o combustível da semana, já tô no lucro, né?”, diz. 

O trabalho CLT, como vendedora de proteção veicular, ela arranjou durante a pandemia, quando as contas apertaram e ficar só com os aplicativos já não segurava mais as despesas. Jacques fez exatamente o mesmo. Nos últimos dois anos, ele viu a renda cair em torno de 60% e precisou se virar. Agora, além de cumprir o horário comercial como vendedor, roda 50 horas por semana como motorista de aplicativo – e todos os dias se vê indignado. 

“Faça as contas: hoje um motorista que trabalha umas 11 horas por dia faz uns R$ 300, tá? Bruto. Se você tirar 40% do combustível, fica R$ 180. Vamos supor que ele gaste R$ 30 tomando uma água, comprando um almoço… Sobra pra ele R$ 150 no dia, sendo que ele tem aí manutenção do carro, todos os impostos, esse tipo de coisa”, calcula. “Quando eu comecei no aplicativo, você pagava oito, dez reais num almoço, hoje você paga R$ 15, confirma? Então dobrou também a alimentação. Tudo isso é custo”. 

No fim do mês, a sensação é de que o dinheiro sumiu. “Se você colocar tudo na ponta do lápis, uns R$ 4,5 mil vão cair pra R$ 2 mil e pouco, que talvez seja o salário do brasileiro. Não tá valendo muito a pena, não. Isso sem décimo terceiro e sem férias”, comenta Jacques. 

Jacques no volante, durante o intervalo. Foto: arquivo pessoal

Quem não pensa rápido, paga para trabalhar

Sabe quando você, usuário, tem a corrida aceita e depois cancelada? É duro, né? Mas acredite: estar na pele dos motoristas pode ser ainda pior. “Deixa eu te dar um exemplo: eu já peguei corrida a R$ 5,72 pra rodar 11 km – cinco pra buscar o passageiro e seis pra desembarcar. Só que quando você vai fazer o cálculo, se o meu carro faz nove ou dez quilômetros por litro, eu paguei pra trabalhar, né?”, reflete Ivete.

Os sistemas dos aplicativos são um pouco diferentes, mas todos entregam as informações básicas para o motorista: o valor que ele vai ganhar e a quilometragem que terá de percorrer. “Você tem que fazer um cálculo em segundos pra ver se compensa. E aí, se recusa, a taxa de aceitação vai caindo, vai caindo, vai caindo e eles não mandam mais corrida pra você. Eu tô com a taxa de aceitação, que sempre ficava numa média de 90 a 94%, a 75%, sabe?”

Isso sem contar os demais perrengues do cotidiano. “É cada relato que você ficaria revoltada”, desabafa a motorista, comentando de uma colega que, outro dia, teve o aplicativo bloqueado após a reclamação de uma passageira, sem direito a contar sua versão dos fatos antes de ser "cancelada" pela empresa. “Mas aí a necessidade fala mais alto. E os aplicativos usam disso como uma forma de forçar o motorista. É algo assim: se tu não quer, tem quem queira”.

O jeito tem sido adaptar a rotina e encontrar novas estratégias. “Antigamente a gente pegava uma corrida, desembarcava o passageiro e se não recebesse uma chamada ali mesmo, saía andando vazio prum lugar que talvez tivesse mais chamadas. Agora a gente fica mais tempo parado aguardando corrida, entendeu? Você pega menos corridas por dia e acaba ganhando um pouco menos, mas dá pra economizar no combustível”, relata Sérgio Guerra, criador do maior grupo de motoristas de aplicativo do Brasil, o Guerra Drivers.

Guerra na direção. Foto: arquivo pessoal

São quase 15 mil cadastrados e quatro mil ativos, que diariamente passam pelo “QG” e só pagam pelos serviços ofertados. “O QG é uma base do grupo Guerra Drivers, onde eles têm lavacar a preço de custo, lanche, sala de estar, sala de jogos, barbearia, escritório para mexer com a papelada”, cita. Mas o chamariz mesmo é o suporte gratuito dos colegas. 

“A função principal do grupo é a segurança do motorista. Ontem mesmo nós recuperamos um carro na luz do dia, de uma mulher que foi assaltada por dois meliantes e acionou nossos canais de rádio. Conseguimos acionar a polícia e, em conjunto, resgatamos ela e o carro”. Com o auxílio em rede, fica mais fácil aceitar corridas que antes pareciam, digamos, mais arriscadas. Ao menos é o que eles dizem.

O posto é o vilão?

Curitiba tem, hoje, 317 postos de combustível. De acordo com a pesquisa mais recente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), realizada em agosto, o preço médio da gasolina comum na cidade é de R$ 5,67 e o desvio padrão é de R$ 0,73.

“Quando se avalia os preços, é importante ter em mente ainda que: o produto é basicamente o mesmo (gasolina comum) e as margens de lucro são muito pequenas. No Paraná, a margem média, segundo a ANP, está em menos de 7%, somando a margem dos postos e das distribuidoras de combustíveis”, defende o Sindicato dos Revendedores de Combustíveis e Lojas de Conveniências do Estado do Paraná (Paranapetro).

O sindicato da categoria é incisivo ao dizer que o preço alto não é culpa dos postos. “Os combustíveis estão com preços altos em Curitiba e em todo o país devido a dois fatores: aumentos nas refinarias da Petrobras e também nas usinas de etanol”.

No acumulado do ano, a gasolina produzida pela Petrobras subiu cerca de 51%, enquanto o diesel avançou cerca de 40%. “Estes aumentos foram repassados aos postos pelas distribuidoras com agilidade. Foram nove alterações de preços na gasolina este ano. Há dez dias, a Petrobras realizou mais um aumento, da ordem de 3,3%, na gasolina”, informa.

“O etanol também vem passando por uma grande alta, e estes aumentos são de responsabilidade das usinas produtoras de etanol. O que acontece é que as usinas estão subindo os preços diariamente, e as distribuidoras repassam estes aumentos aos postos. Do início do ano para cá, o etanol já subiu mais de 45%”, afirma. “Vale ressaltar que o preço do etanol não é estipulado pela Petrobras, uma vez que este combustível é produzido por usinas de cana-de-açúcar privadas. Este preço tem variação diária. Quando os preços sobem, as distribuidoras repassam aos postos com agilidade, assim como fazem com a gasolina”.

Outro ponto importante de se levar em conta, de acordo com o sindicato, é que a alta do etanol também tem reflexo direto na gasolina, uma vez que a gasolina comum vendida no Brasil leva na sua mistura 27% de etanol. “Uma lei federal obriga esta mistura, por questões ambientais. Ou seja, quando sobe o etanol, acaba havendo impacto na gasolina – quase um terço da composição da gasolina comum é de etanol”, pontua o Paranapetro.

Para reduzir os preços, na visão do sindicato, a medida mais efetiva seria cortar impostos. “A maior parte do que se paga pela gasolina, por exemplo, vai para impostos. Apenas 6,86% do valor pago pela gasolina fica como margem de lucro para postos e distribuidoras dividirem. Petrobras fica com 35,86%. O ICMS, imposto estadual, leva 26,90%. Impostos federais (PIS/CIDE/COFINS) levam 13,56%. O custo do etanol anidro, que é misturado na gasolina, consome 16,99% do valor”.

Gráfico: Paranapetro

“Os postos representam o último elo até o combustível chegar ao consumidor final, e por isso são o lado mais exposto. Mas fica evidente que os postos são também o agente com menor poder econômico, e por consequência menor poder de interferência na variação de preços. Os preços altos prejudicam a população, a economia e também os postos, uma vez que inibem o consumo”, conclui o Paranapetro.

O que dizem os aplicativos?

Entrei em contato com os dois principais aplicativos citados pelos entrevistados – Uber e 99app – solicitando dados como motoristas ativos nas plataformas em Curitiba e tempo médio de espera para o usuário. Nenhuma das empresas informou números.

Também perguntei como estão as taxas repassadas aos parceiros e fui respondida apenas pela Uber. A empresa admitiu que, no passado, a taxa fixa era de 25%, mas desde 2018 ela se tornou variável “para que a Uber tivesse maior flexibilidade para usar esse valor em descontos aos usuários e promoções aos parceiros”, causando “confusão” entre os motoristas.

“Em qualquer viagem, o motorista parceiro sempre fica com a maior parte do valor pago pelo usuário – há confusão entre os parceiros sobre o valor da taxa porque em algumas viagens ele pode aumentar enquanto, em outras, pode diminuir. É por isso que todos os motoristas parceiros ativos recebem semanalmente, por e-mail, um compilado sobre os seus ganhos que mostra quanto ele pagou de taxa Uber naquela semana”.

As duas empresas falaram que, durante a pandemia, mais usuários estão optando pelos aplicativos de mobilidade porque se sentem mais seguros, conforme demonstra uma pesquisa feita pelo Datafolha em outubro de 2020, encomendada pela própria Uber. “De acordo com o levantamento, 38% dos brasileiros que não possuem veículo próprio acreditam que a bicicleta é o meio mais seguro para se locomover, empatado tecnicamente pela margem de erro com aplicativos como Uber (35%)”, comenta a Uber. Na visão de ambas, isso justificaria o tempo maior de espera e o “conforto” dos motoristas para recusar algumas viagens.

“A 99 esclarece ainda que o motorista parceiro tem a liberdade de aceitar ou cancelar uma chamada se achar necessário, no entanto, há um limite para a realização desses cancelamentos”, cita a empresa, sem detalhar qual seria esse limite. Apurei que, após cancelar duas chamadas, o motorista é “derrubado” pelo sistema. A 99app também afirma que não registrou alteração no número de motoristas cadastrados na plataforma em Curitiba, sem citar dados que sustentem a resposta.

A Uber defendeu que os rendimentos dos motoristas têm sido os maiores desde o início do ano. “Em Curitiba, por exemplo, os parceiros que dirigiram por volta de 40 horas ganharam, em média, de R$ 1.100 a R$ 1.200 na semana. Em um mês, significa que os motoristas estão com média de ganhos superior à média salarial de várias profissões no país, como fisioterapeutas, intérpretes, nutricionistas ou corretores, por exemplo, de acordo com o site da empresa Catho, que compila informações do mercado de trabalho”. Os valores batem com aqueles descritos pelos motoristas, mas a empresa não faz as contas dos gastos com despesas como o combustível, por exemplo.

A respeito do aumento do valor do combustível, as duas empresas citaram programas de "vantagens" e políticas de cashback, onde os parceiros podem receber uma porcentagem do valor que pagaram pelo combustível, a depender do posto escolhido. A 99 aproveitou para anunciar que, em breve, Curitiba será contemplada pelo Taxa Zero, que prevê o repasse integral do valor da corrida aos condutores em localidades e horários específicos. A empresa garantiu que os motoristas serão comunicados com antecedência sobre as condições.

Jess Carvalho

Jess Carvalho

Jornalista investigativa com foco na defesa dos direitos humanos. É formada em Jornalismo pela Universidade Positivo e mestre em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa

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