“A Plumbum vai reabrir? Que bom!”
Circular pelas ruas de Adrianópolis, a 130 quilômetros de Curitiba, é esbarrar com alguma história que converge com a fábrica da Plumbum, empresa que fazia extração de chumbo e que fechou em 1995 e ouvir de muita gente a comemoração sobre a possibilidade de reativação das atividades.
Antes do fechamento, um grupo francês era responsável pela operação. O encerramento das atividades pegou de surpresa muitos trabalhadores, que de uma hora para outra perderam seus empregos. Isso também impactou no quotidiano da cidade, que tem pouco mais de 6 mil habitantes e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de apenas 0,667, segundo dados de 2010 do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). Trata-se de um dos municípios com menor índice do Paraná.
A empresa está sob nova gestão desde 2001, quando foi vendida, mas dois processos por dano ambiental e por contaminação por chumbo impedem que ela volte a funcionar. O novo proprietário é Henrique José Zafari, gaúcho, de Porto Alegre. Quando ele comprou a empresa não sabia dos processos e assim que assumiu o local, também assumiu todo passivo. Existe uma condenação de R$ 40 milhões porque, segundo o processo, água e solo foram contaminados pela extração do chumbo. Os proprietários antigos se foram e deixaram a mina aberta e há duas décadas o local está num estado moribundo, apesar da estrutura imponente.
O Plural visitou as instalações da Plumbum. Enquanto uma comitiva com mais de vinte automóveis se deslocava para o portão principal da entrada da propriedade, que tem 1,2 mil hectares, João Batista Ferreira pintava as cercas de branco, sob sol escaldante. Ele mora ao lado da fábrica, trabalha de forma autônoma, com serviços que variam de pintura a roçada de grama. Oferece almoço e pergunta se “a Plumbum vai abrir?”. Fica animado ao saber que existe esta possibilidade. “Nossa, ia ser muito bom aqui para nós. Eu não morava aqui, mas o povo fala que era muito bom quando tinha a Plumbum”, diz.
Ao lado da casa dele mora um homem, que desconfiado, não deu muita trela para o papo do vizinho. Ele trabalha como segurança nas instalações da Plumbum, que tem mais meia dúzia de pessoas contratadas para manter o local mais ou menos vivo enquanto o imbróglio não se resolve.
A propriedade tem 200 hectares no Estado de São Paulo, na fronteira com Adrianópolis, mas é no lado paranaense que casas onde viviam os trabalhadores da fábrica resistem ao tempo, mesmo sem moradores.
Uma das pessoas que morou brevemente em uma destas instalações foi o senhor Altamiro Venancio, de 83 anos. Ele e a esposa Isabel Venancio, de 82 anos, viveram alguns anos em uma das casas que pertencem à empresa - eles não se lembram exatamente quanto tempo e discordam entre si do período. Hoje a maioria dos imóveis está desocupada, contudo, quando se fala na empresa para os locais, as percepções se dividem entre a preocupação com a contaminação por chumbo e a lembrança da presença forte da indústria na economia local.
“Ah, tinha bastante vida ali. Meu avô trabalhou lá muito tempo, ele contava isso, que tinha escola, posto de saúde, muita coisa ali perto da Plumbum”, diz Jhenifer Santana, que não viveu o período áureo da empresa, mas que diz que ficaria feliz com a retomada das atividades.
Avanços e retrocessos
O vice-prefeito da cidade, Israel Rodrigues, o Pardal (União), foi funcionário da Plumbum até fechar. Para ele, a possibilidade de reativação da planta é uma esperança para que o município se desenvolva. “A gente precisa de emprego aqui, muita gente tem que sair para ir trabalhar em outro lugar, isso é muito difícil”, critica.

O prefeito Vandir de Oliveira Rosa, o Vandir Veterinário (PSD), durante uma visita técnica organizada pela Justiça Federal - em uma tentativa de conciliação entre todos os envolvidos nos processos de dano ambiental e danos para a saúde de quem trabalhou por lá - disse que a cidade não pode “esperar mais trinta anos para resolver esta situação”. A percepção dele e do vice-prefeito é a mesma: o passivo ambiental deixado pelos antigos proprietários da Plumbum não prejudicou somente a natureza, mas o próprio desenvolvimento da cidade. “Nós precisamos achar a solução e isso tem que ser na conciliação da Justiça [Federal]”, afirmou.
Segundo dados do Mapa de Conflitos da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), nos cinquenta anos de atividades da Plumbum foram extraídas 210 mil toneladas de chumbo e outras 240 mil toneladas de prata da cidade. O problema – que consta no processo no qual a empresa foi condenada – é que foram gerados 350 mil toneladas de escória de minério de chumbo, que foi deixado a céu aberto, perto da Ribeira do Iguape, rio que corta a cidade.
A condenação deixou um passivo de R$ 40 milhões - problema que era desconhecido pelo novo dono da empresa, que comprou a Plumbum em 2001 - que enquanto não for resolvido impede o funcionamento, agora com extração de calcário e não chumbo. Outro ponto sensível é sobre as indenizações para pessoas que foram contaminadas por chumbo devido às atividades da empresa.
Em julho de 2025, uma denúncia fez com que o Ministério Público de São Paulo (MPSP) instaurasse procedimento para apurar um vazamento de óleo proveniente da Plumbum. Isto prejudicou as águas que cortam os municípios de Adrianópolis, no Paraná, mas também Itaóca, Iporanga e Eldorado, em São Paulo. À época, a Plumbum do Brasil informou que o vazamento ocorreu porque havia materiais deixados pelo antigo grupo francês, que encerrou as atividades em 1995.


O tempo de inatividade traz consequências para estrutura da Plumbum do Brasil | Fotos: Julia Sobowiak/Plural.
A dinâmica entre a atual Plumbum e da antiga Plumbum gera um impasse na resolução do problema ambiental e ainda mais na pretensa reativação da planta para extração de calcário - que tem uma reserva que pode ser explorada por ao menos três décadas, segundo o novo proprietário.
Apesar das graves questões ambientais que ainda não foram resolvidas, Zafari diz que não pode arcar com a condenação se não retomar as atividades. Ele não menciona ainda as ações individuais de pessoas que foram expostas a escória do chumbo, todavia, afirma que a reativação da indústria vai garantir empregos e desenvolvimento para a cidade.
“Realmente a Plumbum gerou um problema, que no meu entendimento não é tanto ambiental, é muito mais social do que ambiental, porque a população como um todo perdeu a sua fonte de renda, perderam a única fonte de renda que existia no município que era inclusive atividade que desenvolveu até o próprio município hoje o município carrega o nome de Adrianópolis em homenagem ao fundador desta indústria que vocês visitaram aqui”, defende o empresário.
O investimento para aquisição da planta não foi revelado pelo empresário - mas o fato de ele manter o local desde 2001 sem poder operar demonstra o potencial alto de performance no negócio.
O objetivo de Zafari é substituir a exploração de chumbo pelo calcário. Este ramo da mineração, segundo a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) das rochas carbonáticas (calcário, dolomito, mármore) teve um aumento de 19% de 2021 para 2022, passando de R$ 8,3 milhões para R$ 9,9 milhões. O valor corresponde à utilização de 19,6 milhões de toneladas dos minerais, empregados para a fabricação de cimento, cal, corretivos agrícolas e outros usos industriais.
Adrianópolis, segundo o CFEM tem 75% do Valor Adicionado Fiscal (VAF) do município decorrente de extração e transformação de minerais não metálicos. A retomada das atividades é de interesse da administração municipal, e também do Governo do Estado, que chegou a fazer uma ponte com investidores chineses para a reativação da Plumbum, que não foi consolidado por conta do passivo ambiental.
Segundo informações do Instituto Água e Terra (IAT), que enviou representantes para uma visita técnica ocorrida na fábrica, em uma tentativa de conciliação liderada pela Justiça Federal, o Paraná é um grande produtor de insumos não metálicos para construção civil. Este potencial de negócio é o que atraiu Zafari.


(Dir.) Dona Isabel e seu Altamiro, que moraram na antiga vila construída pela Plumbum | (Esq.) Casas sem moradores nas imediações da indústria. Uma vila-fantasma | Fotos: Julia Sobowiak/Plural.
“A gente usa calcário para muitas atividades: cimento, cal, nutrição. Então o que eu quero é abrir a fábrica, gerar empregos e trazer vida novamente para a cidade”, explica o investidor.
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) até março de 2026, apontam que o município de Adrianópolis teve apenas 101 contrações. Ainda assim, houve 108 desligamentos. Um saldo negativo de sete vagas. O cenário ocorre porque muitos dos trabalhadores, assim como Ferreira, que pintou as cercas da Plumbum, trabalham por temporada ou de forma autônoma. Outra parte tem emprego em cidades próximas - ou até mesmo em São Paulo.
“A gente não consegue desenvolver nada aqui porque que empresa vai investir se só fala no chumbo? A gente tem essa imagem ruim, mas o que precisamos mesmo é de emprego”, analisa o vice-prefeito Pardal.
Meio ambiente
Em um bar da cidade, três homens conversam tomando cerveja enquanto uma mulher lava o chão. Quando são perguntados se conhecem alguém que trabalhou na Plumbum, todos afirmam que sim. E é da mesma maneira em qualquer ponto da cidade. Após alguns minutos de conversa a pergunta logo vem: “Vai abrir a empresa de novo?". Ao serem informados sobre a possibilidade de reabertura do negócio não demonstram muita empolgação e voltam a falar de amenidades.
Dois dos rapazes aparentam ser jovens e por isso não se recordam do tempo do funcionamento da fábrica, mas outro, mais velho, se recorda e cita brevemente “o problema foi o que deixaram para trás né?”, em alusão a escória deixada a céu aberto em 1995.
Ele tem razão: o desafio da reativação da planta é respeitar a legislação ambiental - e cumprir o que consta na condenação da Justiça - já com trânsito em julgado, ou seja, sem possibilidade de recorrer – que prevê o isolamento da área onde ficava a fundição de chumbo na cidade, a eliminação dos resíduos de chumbo abandonados pelas empresas e a construção de dois poços de monitoramento do lençol freático.
Segundo o Ministério Público do Paraná, entre 1938 a 1995, houve a exploração de ouro, prata e chumbo “de modo desordenado e sem qualquer fiscalização ou controle efetivo por parte do Estado, seja quanto à saúde dos operários, seja quanto aos impactos sobre o ambiente”.
A Plumbum alega que apenas cinco áreas da propriedade são problemáticas, mas que estudos vêm sendo desenvolvidos para apresentar soluções sobre o que pode ser feito nessas localidades. A apresentação destes estudos deve ocorrer na próxima quarta-feira (28), quando representantes da empresa, da Justiça Federal, do IAT e do Ministério Público devem se reunir em audiência novamente. O Plural vai acompanhar a audiência para e desdobramentos do caso que se arrasta há décadas.
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