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Pimentel diz que Curitiba tem 200 vagas para internações forçadas e fala em contratar clínicas particulares

"Já tenho recurso garantido para isso", disse prefeito sobre contratação de vagas em clínicas e comunidades terapêuticas

Pimentel diz que Curitiba tem 200 vagas para internações forçadas e fala em contratar clínicas particulares
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O prefeito Eduardo Pimentel (PSD) revelou que Curitiba tem 200 vagas para internações involuntárias de pessoas em situação de rua. Em entrevista à Rádio Transamérica Curitiba, no último dia 16, Pimentel afirmou ainda que a Prefeitura poderá contratar vagas em clínicas particulares ou comunidades terapêuticas. A primeira internação forçada na cidade foi no dia 9 de janeiro, ação criticada por entidades como o Conselho Regional de Psicologia do Paraná e o Movimento de Luta Antimanicomial.

"Nós temos vagas disponíveis, mais de 200 nesse momento para essas pessoas. Se for necessário, vou contratar mais vagas na rede particular, já tenho recurso garantido para isso", disse o prefeito em entrevista ao jornalista Felipe Harmata.

De acordo com Pimentel, a mulher internada no início do mês foi levada para a Unidade de Estabilização Psiquiátrica Casa Irmã Dulce, ligada à Fundação Estatal de Atenção à Saúde de Curitiba (Feas). Depois, existe a possibilidade de ser encaminhada para uma comunidade terapêutica.

"Ela vai para um período de estabilização. Após isso, são três opções: ela vai para o hospital, se tiver algum problema de saúde física; vai para o Caps (Centro de Atenção Psicossocial) da Prefeitura, se tiver algum problema de saúde mental; e também pode ter a possibilidade de comunidade terapêutica, para o trabalho de dependência química", disse o prefeito.

Risco de higienismo e cárcere privado

Para críticos das internações involuntárias, esse tipo de procedimento abre a possibilidade para a adoção de uma política higienista, com o objetivo de remover a população de rua – que já vem sendo alvo de vereadores de extrema direita na cidade. Na outra ponta, instituições privadas, como clínicas e comunidades terapêuticas poderão ganhar recursos públicos para manter pessoas internadas.

O risco foi citado pelo Movimento de Luta Antimanicomial em nota divulgada após a internação da mulher em Curitiba. "Denúncias recorrentes indicam que nessas instituições há violações de direitos, trabalho forçado, restrição de liberdade e ausência de cuidado em saúde. A política de internação compulsória, portanto, não responde às necessidades da população, mas a interesses econômicos e eleitorais, articulados à expansão desse mercado".

Comunidades terapêuticas para tratamento de dependentes químicos, muitas delas ligadas a igrejas evangélicas, vêm sendo alvo de denúncias e operações policiais em vários Estados brasileiros. Veja alguns casos registrados somente no ano passado:

Em fevereiro do ano passado, a Câmara Municipal de Curitiba aprovou a criação da Frente Parlamentar em Defesa das Comunidades Terapêuticas, para, entre outros objetivos, "promover a articulação entre as comunidades terapêuticas com Poder Público". Integram a Frente 12 vereadores da base de apoio a Pimentel. O site da Prefeitura de Curitiba lista ao menos 15 comunidades terapêuticas que teriam certificação concedida pelo poder público municipal.

Manifestantes fazem ato contra internações forçadas na frente da Prefeitura de Curitiba
Movimento Nacional da População de Rua solicitou reunião com o prefeito Eduardo Pimentel

A Assembleia Legislativa do Paraná realizou uma reunião sobre o assunto na segunda-feira (19 de janeiro), convocada pelo deputado Renato Freitas (PT), por meio da Frente Parlamentar da População em Situação de Rua.

Durante a reunião, o promotor de Justiça Angelo Mazzucchi Santana Ferreira, titular da Promotoria de Saúde Pública de Curitiba do MP-PR, disse que esse público merece mais atenção por parte da Prefeitura. "Esses pacientes dessa população vulnerável, que são as pessoas em situação de rua, têm uma particularidade: eles precisam de um monitoramento social mais intenso, de um local para habitar e de um acompanhamento permanente das condições familiares”.

A Frente Parlamentar vai agendar uma audiência pública sobre o tema e encaminhou ofícios à Prefeitura, à Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, à FAS, à Defensoria Pública do Paraná e às Secretarias de Estado da Segurança Pública e da Saúde. O Núcleo de Defesa da Saúde Pública e Privada da Defensoria Pública informou que deverá se posicionar nos próximos dias.

As internações involuntárias em Curitiba são possibilitadas pela Portaria Conjunta nº 2, da Fundação de Ação Social (FAS), da Secretaria Municipal da Saúde e da Secretaria Municipal de Direitos Humanos, publicada em 19 de dezembro de 2025. A Prefeitura esclareceu que a Portaria segue a Resolução nº 2.057/2013 do Conselho Federal de Medicina (CFM), que trata, entre outros temas, da defesa do ato médico privativo de psiquiatras.

A Resolução do CFM diz que a internação involuntária pode ser adotada quando o paciente apresenta incapacidade grave de autocuidados; risco de vida ou de prejuízos graves à saúde; risco de autoagressão ou de heteroagressão; risco de prejuízo moral ou patrimonial; e risco de agressão à ordem pública.

O documento possibilita a internação de pacientes com "grave síndrome de abstinência a substância psicoativa, intoxicação intensa por substância psicoativa e/ou grave quadro de dependência química" e determina que os casos sejam comunicados ao Ministério Público Estadual no prazo de 72 horas.

No dia 9, a vereadora Laís Leão (PDT) encaminhou um ofício ao Ministério Público do Paraná, (MP-PR), solicitando que o órgão se posicione a respeito do tema, acompanhe a implementação da Portaria Conjunta nº 2/2026 e informe de que maneira pretende fiscalizar a aplicação dos critérios médicos. O MP-PR ainda não se manifestou sobre o assunto.

Na entrevista dada à Rádio Transamérica Curitiba, Eduardo Pimentel garantiu que só haverá internações quando for necessário, para quem "está em situação de rua já é conhecida da FAS, já recebeu o acolhimento, já recebeu o tratamento de saúde, já recebeu o atendimento da Prefeitura de Curitiba e está em surto, ou surto de doença mental ou de dependência química".

"O médico vai lá na ponta e dá o laudo. Então a autoridade é a saúde pública. Isso não é político, isso não é improviso, isso é técnico e trabalhado", garantiu o prefeito. "Os contratos dos prestadores de serviços da Prefeitura vão determinar uma porcentagem para contratar essas pessoas que estão em recuperação, então elas vão ter o emprego garantido".

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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