Nesta semana o Museu do Holocausto de Curitiba lançou o material educativo “A Chama e a Sombra: os 90 anos das Olimpíadas de Berlim”, resultado de um trabalho de pesquisa que reúne documentos, peças de acervo, fotografias, propostas pedagógicas e, sobretudo, trajetórias individuais que ficaram à margem da narrativa oficial dos Jogos Olímpicos de 1936.
O documento tem 50 páginas e está divido em capítulos que detalham como o esporte foi usado pelo nazismo para propagar a “superioridade” ariana. O conteúdo traz, ainda, propostas pedagógicas para trabalhar o tema em sala de aula e apresenta peças do acervo do Museu relacionadas aos Jogos. Baixe aqui o material educativo.
O coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss, destaca que o esporte e as Olimpíadas nunca estiveram dissociados da política. Desde sua criação, os Jogos refletem tensões nacionais, disputas de poder, exclusão, desigualdades sociais e raciais. Em 1936, esse vínculo ficou ainda mais evidente.
“Naquele ano, os primeiros campos de concentração, como Dachau e Sachsenhausen, já confinavam prisioneiros políticos. As Leis de Nuremberg, que institucionalizavam o antissemitismo, já estavam em vigor. Enquanto isso, mais de 300 estações de rádio transmitiam as competições em mais de 25 idiomas, projetando a imagem cuidadosamente construída de uma Alemanha moderna, organizada e pacífica”, afirma Reiss.
Para o coordenador de História do Museu do Holocausto, Michel Ehrlich, o material busca justamente contrapor a imagem das Olimpíadas construída pela propaganda nazista. “Ao longo da história, o esporte e as grandes competições foram usados tanto para sustentar regimes quanto para resistir a eles, e com o nazismo não foi diferente. Queríamos trazer uma pluralidade de histórias que ilustrassem diferentes trajetórias ligadas aos Jogos de 1936 e ao esporte em geral: atletas impedidos de competir, que se posicionaram publicamente, que encontraram formas de resistir ou que sabotaram os eventos.”
A Chama e a Sombra
Uma das passagens mais lembradas das Olimpíadas de Berlim é a do atleta negro norte-americano Jesse Owens, um dos maiores nomes da história do atletismo. Nascido em 1913, destacou-se ainda jovem nas provas de velocidade e salto em distância, construindo uma carreira marcada por recordes mundiais. Nos Jogos de 1936, conquistou quatro medalhas de ouro, feito que desafiou diretamente a propaganda nazista de superioridade racial ariana e o transformou em símbolo da luta contra o racismo.
Ao retornar aos Estados Unidos, seguiu enfrentando discriminação racial. Sem contratos ou emprego, foi atração de circo e correu contra motos, carros e cavalos para sustentar a família. Só nos anos 1950 ganhou reconhecimento mais amplo. Morreu em 1980.
O material também reúne histórias menos conhecidas, como a de Johann Trollmann, o “Rukeli”, nascido em 1907 em uma família cigana Sinti, na Alemanha. Ele se destacou no boxe alemão com uma movimentação ágil e constante, descrita como uma dança no ringue, e por isso criticado pelo regime por não ser “germânico” o suficiente. Barrado das Olimpíadas de Amsterdã, em 1928, seguiu lutando e acumulou vitórias, incluindo o título nacional dos meio-pesados, de 1933, anulado pelos nazistas.
Forçado a uma nova luta sem poder usar seu estilo, subiu ao ringue, em protesto, com o cabelo tingido de loiro e o rosto coberto de farinha, permanecendo imóvel até ser nocauteado. Depois desse episódio, a perseguição se intensificou. Em 1942, foi preso, torturado, deportado e assassinado dois anos depois. Por décadas, sua história permaneceu encoberta. Seu título de 1933 só foi reconhecido 70 anos depois, em 2003.
Outra trajetória, que tem relação com o Brasil, é a de Béla Guttmann, nascido em Budapeste em 1899, um dos maiores treinadores de futebol do século XX. Durante o Holocausto, escondeu-se em um sótão e depois escapou de um campo de trabalhos forçados, sobrevivendo até o fim da guerra. Foi jogador de futebol e competiu nas Olimpíadas de Paris, em 1924, mas foi como técnico que se consagrou. Ele ajudou a popularizar o esquema tático 4-2-4 e, em 1957, treinou o São Paulo, deixando um legado que influenciou a seleção brasileira campeã do mundo em 1958. Guttmann também conquistou duas Copas dos Campeões Europeus seguidas pelo Benfica, de Portugal, em 1961 e 1962. Morreu em Viena, em 1981.