Quem leu jornalismo produzido em Curitiba nas últimas cinco décadas pode não saber, mas teve a qualidade de sua leitura melhorada por Adamastor Marques. Desde 1975, quando se formou jornalista pela Universidade Federal do Paraná, Adamastor dedicou seus dias, e principalmente as noites, à revisão de textos de jornal.
Trabalhou a carreira toda na Gazeta do Povo, enquanto o jornal impresso existiu. E a função de revisor não era fácil: as páginas chegavam todas ao mesmo tempo, em cima da hora, quando o jornal já precisava ir para a gráfica. A equipe de revisores, comandada por Rui Staub, trabalhava na pressão - e como os textos também muitas vezes eram escritos às pressas, os erros eram comuns.
Adamastor, dono de uma paciência incomum, sabia ser rápido sem perder de vista o detalhe. Em cada página, encontrava dezenas de probleminhas. Sugeria verbos mais adequados, melhorava a pontuação, encontrava gralhas. E saía apressado pela longa redação para entregar cada página ao editor certo.
Na sua formatura, foi ele mesmo objeto de notícia no jornal. Vitimado por uma paralisia cerebral na infância, sofria sequelas na fala e no movimento - e o jornal ressaltou a sua superação de conseguir o diploma. Mas para ele parecia que um só diploma era pouco: nas décadas seguintes, se formou também em Filosofia e Gestão da Informação.
Depois do fim do impresso na Gazeta, continuou trabalhando como revisor, mas de casa. Ajudava autores de livros e de monografias, dissertações a melhorarem seus textos. Só parou quando não teve mais forças. Faleceu nesta semana, aos 79 anos, de leucemia.
Casado com Vera Lúcia, deixa os filhos Caroline e César e netos.