Há um número que resume o ano legislativo de Curitiba melhor do que qualquer discurso de plenário: 47.674. É a quantidade de requerimentos que os 38 vereadores protocolaram em 2025 — e é, de longe, a maior da história recente da Casa. Para se ter ideia, entre 2015 e 2024 a Câmara nunca havia passado de 26 mil requerimentos num único ano. Em 2025, o número mais que dobrou em relação a 2024 (+116%) e ficou em cerca de 2,4 vezes a média da década anterior (~20 mil por ano).
A explosão tem um endereço claro. 39.134 desses requerimentos — três de cada quatro proposições de todo o ano — são "Requerimentos à Prefeitura de Curitiba": pedidos para tapar buraco, podar árvore, trocar lâmpada, limpar terreno, recapear rua. Sozinho, esse tipo de documento responde por 74,7% de tudo o que a Câmara produziu.
Para efeito de comparação, os instrumentos que de fato servem para fiscalizar o Executivo — pedidos de informações oficiais, solicitações a outros órgãos, decretos de sustação de atos do prefeito e análises de prestação de contas — somaram 2.773 proposições, ou 5,3% do total. A Câmara protocolou, portanto, 14 pedidos de favor à Prefeitura para cada ato de fiscalização.
A função central de uma casa legislativa — vigiar quem executa o orçamento — virou nota de rodapé. E a engrenagem que a substituiu não para de crescer.
Em uma década a Câmara nunca passou de 26 mil/ano; em 2025 saltou para 47,7 mil — +116% sobre 2024.
Uma máquina que dobrou de tamanho
A série histórica, levantada requerimento a requerimento no sistema da Câmara, mostra que o pedágio sempre existiu — mas nunca operou nesta escala.
Durante dez anos, o volume oscilou numa faixa relativamente estável, entre 15 mil e 26 mil requerimentos anuais, acompanhando o ritmo dos ciclos eleitorais. 2025 rompe o padrão de forma brutal: sozinho, o ano supera em quase o dobro o recorde anterior (25.921, em 2023) e injeta no sistema mais requerimentos do que qualquer biênio recente.
Um quarto da 'legislação' são homenagens e denominações.
O salto coincide com o início de uma nova legislatura — vereadores recém-empossados correndo para "marcar presença" nos bairros. Mas a magnitude vai além da renovação de mandatos: 2021, também primeiro ano de legislatura, registrou apenas 16 mil. O que se vê em 2025 não é rotina de início de mandato; é a profissionalização de uma máquina de encaminhamentos — e de crédito político.
Pedidos à Prefeitura superam em 14 vezes os atos de fiscalização do Executivo (2025).
91% de requerimentos, 2% de leis
A radiografia da produção de 2025 é eloquente:
Dos 1.058 projetos, apenas 244 foram aprovados ou promulgados — uma taxa de 23,1%. Ou seja: a casa que existe para legislar dedicou 2% de sua produção a legislar, e aprovou menos de um quarto disso.
O que ela faz com os outros 98%? Em sua esmagadora maioria, encaminha demandas de bairro à Prefeitura. E é aí que mora o problema.
Composição das 52.385 proposições de 2025 por natureza.
O pedágio: o que o 156 resolveria sozinho
Curitiba mantém, há décadas, a Central 156 — telefone, site e aplicativo pelos quais qualquer morador pode pedir diretamente à Prefeitura o reparo de um buraco, a poda de uma árvore, a troca de uma lâmpada queimada ou a limpeza de um terreno baldio. É o canal oficial, gratuito e direto entre o cidadão e a administração.
Na teoria, o morador não precisa de intermediário. Na prática, a Câmara construiu um intermediário.
Os 39.134 "Requerimentos à Prefeitura" são, em sua imensa maioria, exatamente o tipo de demanda que o 156 atende. A diferença é o carimbo: ao transformar o pedido do morador em requerimento oficial, o vereador se coloca no meio do caminho. Quando o serviço é executado — algo que ocorreria de qualquer forma —, o gabinete reivindica o crédito: "consegui o asfalto da sua rua", "atendi seu bairro".
É um pedágio político. Não custa dinheiro ao cidadão, mas cobra uma moeda mais valiosa: o voto e a lealdade. O serviço público, que deveria chegar como direito, chega como favor — e favor tem dono.
Concentração em bairros populosos e periféricos.
A escala dessa operação fica nítida quando se divide o volume pelos 38 vereadores da casa: dá uma média de mais de mil requerimentos à Prefeitura por gabinete, por ano — vários por dia útil. Não é trabalho legislativo; é uma esteira de despachos.
A concentração reforça a leitura. Apenas dois vereadores — Bruno Secco (9.262 proposições) e Eder Borges (6.488) — assinam 30% de toda a produção da Câmara. Os cinco mais ativos respondem por 44%. Não por aprovarem mais leis, mas por operarem as maiores esteiras de requerimentos.
91% são requerimentos; apenas 2% são projetos.
A fiscalização que não houve
Pico em outubro; vale em janeiro (recesso).
Se o pedágio explica para onde foi a energia da Câmara, os números de fiscalização explicam o que ficou para trás.
- Pedidos de informações oficiais ao Município: 2.695 no ano (5,1%) — o principal instrumento de controle, mas ofuscado.
- Análise de prestação de contas: 2 decretos.
Enquanto isso, no fluxo inverso, a casa aprovou 82% dos projetos enviados pelo próprio prefeito (73 de 89). Uma Câmara que carimba quase tudo o que o Executivo manda e quase nada questiona não está fiscalizando: está homologando.
Para completar o retrato do empenho parlamentar, 2025 registrou 942 requerimentos de justificativa de falta às sessões e 1.097 votos de congratulações e aplausos — mais homenagens do que pedidos de informação a órgãos externos. A casa aplaude mais do que pergunta.
Projetos têm aproveitamento baixo; emendas, alto (anexam-se a projetos em curso).
Vereador "produtivo" está sob investigação por rachadinha
A distorção do sistema ganha rosto no caso de Lórens Nogueira (PP), um dos parlamentares mais citados como exemplo de "eficiência" — ele aparece entre os vereadores com maior taxa de aprovação de projetos (10 de 23, ou 43%, bem acima da média da casa).
Mas a etiqueta de produtividade desmonta sob a luz dos dados. Das 2.948 proposições que Lórens protocolou em 2025 — o terceiro maior volume da Câmara —, 2.632 (89%) são "Requerimentos à Prefeitura", a peça-chave do pedágio. De fiscalização de verdade, foram 14 pedidos de informações oficiais no ano inteiro. O "vereador produtivo" é, na prática, um operador de esteira com um punhado de leis no topo da pilha.
Das 2.948 proposições, 89% são requerimentos à Prefeitura; fiscalização real, quase nula.
E há o outro lado da conta. Em 26 de maio de 2025, Lórens tornou-se alvo da Operação Déjà-vu, do Gaeco (Ministério Público do Paraná), que investiga a prática de "rachadinha" — a apropriação, pelo parlamentar, de parte do salário de assessores. Segundo o MP, a ação controlada, autorizada judicialmente, identificou repasses compatíveis com o esquema; foram cumpridos 13 mandados de busca e apreensão na Câmara e em endereços ligados ao vereador, com duas malas de dinheiro apreendidas. Um vídeo citado pela investigação mostra o parlamentar recebendo R$ 5,6 mil em espécie numa entidade assistencial no bairro Xaxim — não por acaso, um dos bairros mais presentes na esteira de requerimentos da Câmara.
Em 1º de junho de 2025, o plenário aceitou a denúncia e abriu processo de cassação por 35 votos a 1 — o único voto contrário foi o do próprio investigado. Lórens também renunciou à presidência do Conselho de Ética da casa. O parlamentar nega as acusações e responde ao processo; vigora a presunção de inocência, e o caso ainda não tem desfecho judicial.
Dois gabinetes assinam 30% de toda a produção da Casa.
O que os números dizem — e o que não dizem
Este levantamento parte da totalidade das proposições de 2025 registradas na Câmara (52.385 itens, coletados diretamente do sistema oficial). A série histórica 2015–2025 foi obtida no mesmo sistema, contando os requerimentos por intervalos de data (a diferença de 2 unidades entre a contagem de 2025, 47.674, e a coleta integral, 47.676, é desprezível e confirma o método). Os totais por espécie, tipo, autor e situação são exatos.