Curitiba enfrentou pontos de alagamento e danos causados pelo excesso de chuvas nos últimos dias. A cidade sofreu com a chuva, mas não pelo que se podia esperar. O que mudou em Curitiba nas últimas duas semanas não foi a quantidade de dias de chuva. Foi quanto cai em cada um deles.
Entre 30 de agosto e 12 de setembro choveu em 11 dos 14 dias, uma frequência parecida com a do resto do ano. A diferença está no volume de cada dia: 24,9 milímetros em média, contra 6,7 milímetros nos dias de chuva de janeiro a julho. A cidade passou a receber em um dia o que antes levava quase quatro dias chuvosos para acumular.
O resultado é que os 273,8 milímetros dessas duas semanas quase igualam os 282,6 milímetros de todo o primeiro trimestre do ano, num período sete vezes mais curto.
A distinção importa porque não é o total de chuva que causa alagamento, e sim quanto cai em pouco tempo. A rede de galerias é dimensionada para uma vazão. Quando a água chega mais rápido do que ela consegue escoar, transborda, ainda que o acumulado do ano esteja baixo.
Os números são do Instituto Nacional de Meteorologia. O Plural baixou os registros hora a hora da estação meteorológica de Curitiba desde 1º de janeiro e somou o acumulado de cada dia. São 255 dias completos, sem falha de medição.
Nos sete primeiros meses do ano, Curitiba teve 11 dias com 20 milímetros ou mais, e 5 com 30 milímetros ou mais. Só nessas duas semanas foram 6 e 4, respectivamente. O dia 10 de setembro, com 52,4 milímetros, foi o mais chuvoso de 2026. Em 31 de agosto choveram 51,2 milímetros, e em 11 de setembro, 38,8. Os três dias mais chuvosos do ano estão todos nesse intervalo. Na noite de 11 de setembro, entre 22h e 23h, caíram 17,4 milímetros em uma única hora.
Um ano que virou de uma vez
Até julho, 2026 vinha sendo um ano seco em Curitiba. Março foi o caso extremo: 23,6 milímetros contra uma média histórica de 151,3, uma queda de 84%. Houve uma sequência de quinze dias seguidos sem chuva. Janeiro fechou 44% abaixo da média e fevereiro, 30%. O verão, que normalmente traz mais de um terço da chuva do ano, não veio.
A virada aconteceu em agosto, justamente o mês mais seco do calendário curitibano, cuja média é de 81,5 milímetros. Choveram 181,6 milímetros, mais que o dobro. Setembro seguiu o mesmo caminho: em apenas doze dias, 183,6 milímetros, quando a média do mês inteiro é de 143,3. Somando agosto e a primeira quinzena de setembro, são 365,2 milímetros em seis semanas.
Mesmo assim, o ano ainda acumula déficit. De janeiro a agosto foram 892 milímetros, contra 1.048,7 da média histórica para o período, 15% abaixo. O total até 12 de setembro chegou a 1.075,6 milímetros. Ou seja, a cidade chega à estação chuvosa com menos chuva no acumulado do que o normal, mas com um regime de precipitação muito mais concentrado.
O que vem pela frente
O padrão não deve mudar tão cedo. Em boletim divulgado na quinta-feira (10), o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná, o Simepar, projetou que o estado terá até o verão 2026/2027 maior frequência de períodos com chuva acima da média, com concentração de volumes elevados em poucos dias. O instituto alerta para risco de temporais severos, granizo, raios, enxurradas, cheias repentinas, saturação do solo e movimentos de massa.
A causa é o El Niño, o aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial, confirmado como ativo em junho. A temperatura da superfície do mar na área de referência da agência americana NOAA chegou a 1,8 grau acima da média, subindo de forma consistente desde abril. Há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno seja classificado como muito forte entre a primavera e o verão. Entre outubro e dezembro, há 75% de chance de que seja o El Niño mais forte já registrado desde 1950. O pico deve ocorrer entre novembro e janeiro, com projeção de 2,9 graus acima da média.
O Simepar prevê chuva acima da média em todo o Paraná, mas os maiores desvios devem se concentrar nas regiões Centro-Sul, Sul, Oeste e Sudoeste. A região metropolitana de Curitiba não está entre elas.
O sinal já estava nos dados
Os efeitos vêm sendo observados desde o começo do inverno. Segundo o Simepar, em agosto, entre as 47 estações meteorológicas do instituto com mais de cinco anos de operação, apenas três registraram chuva abaixo da média: Cianorte, Maringá e Apucarana. Em julho, foram apenas quatro: Antonina, Cerro Azul, Guaratuba e Guaraqueçaba.
Houve recordes. Fazenda Rio Grande, na região metropolitana de Curitiba, teve o agosto mais chuvoso desde que a estação foi instalada, em 2009. Em julho, Palmas registrou 311 milímetros, o maior volume para o mês em 28 anos de medição na cidade.
O próprio Simepar ressalva que o El Niño indica a tendência, mas não define em quais dias a chuva vai cair, o que depende dos sistemas meteorológicos que atuarem na região. Por isso, o instituto recomenda o acompanhamento diário das previsões.