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Terreiros de Curitiba se mobilizam para integrar suas práticas de saúde a tratamentos do SUS

Nos dias 14 e 15/03, Curitiba ganha um Núcleo da Renafro Saúde. O evento de lançamento acontece no Ilê Asé Tobi Odé Karê Igbo, no Cajuru e reúne lideranças religiosas e pesquisadores de saúde.

Terreiros de Curitiba se mobilizam para integrar suas práticas de saúde a tratamentos do SUS

A Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) é uma articulação da sociedade civil que reúne povos de terreiro, gestores e profissionais de saúde, integrantes de organizações não governamentais, pesquisadores e lideranças do movimento negro trabalhando pela promoção da saúde da população dos terreiros.

Hoje, a Renafro tem núcleos em várias cidades do país. Segundo o site da instituição, são 42 espalhados por diversos estados. E Curitiba vai ganhar seu primeiro núcleo no próximo final de semana. O Ilê Asé Tobi Odé Karê Igbo, terreiro com 26 anos de existência no bairro Cajuru, representará a Rede na capital paranaense. O evento de inauguração do núcleo acontece nos dias 14 e 15 de março na sede do terreiro.

A Yalorisha Josianne de Ode Kare, líder do Ilê Asé Tobi Odé, é a coordenadora da Renafro em Curitiba. Ela participa da rede há quatro anos e destaca que a articulação tem como objetivos lutar pelo direito humano à saúde; valorizar e potencializar o saber dos terreiros e o reconhecimento deles como espaços promotores de saúde; combater o racismo, o sexismo, a homofobia, lesbofobia e todas as formas de intolerâncias; legitimar as lideranças de terreiros como detentores de saberes e poderes para exigir das autoridades locais um atendimento de qualidade, onde a cultura do terreiro seja reconhecida e respeitada.

“Desde sua criação, a Renafro começou a atuar dentro dos Ministérios, procurando aproximar o SUS dos povos de terreiro. A gente sempre teve muita dificuldade de conseguir um atendimento público de saúde adequado às nossas necessidades. Assim, a Renafro tem atuado ao longo de anos para quebrar barreiras e fazer valer os direitos dos praticantes de religiões afro”, explica Mãe Josianne.

A Renafro foi criada em São Luís do Maranhão, durante a realização do II Seminário Nacional Religiões Afro-Brasileiras e Saúde em 2003. Ela e integra diversos espaços de decisão de políticas públicas de saúde, como o Comitê Técnico de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde, a Comissão Intersetorial de Saúde da População Negra e a Comissão Intersetorial de Saúde da População LGBT do Conselho Nacional de Saúde, Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde, entre outros.

A Yalorisha Josianne lembra que historicamente, as comunidades de terreiro enfrentam, ataques racistas e preconceituosos. E ao longo do tempo sofrem com a negação de direitos. “Os impactos dessa discriminação são profundos e afetam diretamente a saúde mental e física das pessoas que pertencem a essas comunidades. Por isso, é fundamental criarmos mecanismos que fortaleçam redes de proteção, acolhimento e cuidado”, diz.

Práticas integrativas no SUS

Mãe Josianne revela que um dos objetivos da Renafro é trabalhar para promover a integração das práticas de saúde promovidas pelos terreiros aos tratamentos do Sistema Único de Saúde (SUS).

A Resolução 715 do Conselho Nacional de Saúde, publicada em 20 de julho de 2023, destaca a importância das religiões afro como complementares ao SUS. Em alinhamento com a Constituição Federal de 88 e a Lei Federal nº 8.080/1990, a resolução estabelece a saúde como um direito universal, ressoando com as políticas de saúde dos terreiros.

A resolução aborda a ideia de que locais como terreiros têm sido portas de acesso para os mais necessitados, e define os terreiros como equipamentos promotores de saúde.

Entre as práticas da cultura popular dos povos tradicionais de matriz africana reconhecidas pela resolução estão os banhos de ervas, a utilização de plantas ancestrais maceradas ou fervidas com água, óleos essenciais, entre outros.

“A Renafro tem uma parceria muito boa com a Fiocruz e com o Ministério da Saúde. Minha intenção é 'descer a escada' com a Renafro. Vir dos ministérios para as secretarias estaduais e municipais do Paraná e de Curitiba. Não podemos viver só de cultura, se o povo de terreiro não tiver saúde, como vai ser a nossa terceira idade e os nossos mais velhos? Nossa intenção é trabalhar para levar as práticas de matriz africana como promotoras de saúde e de tratamentos complementares no SUS”, explica.

O lançamento

Nos dias 14 e 15/03, o lançamento do Núcleo da Renafro em Curitiba vai reunir representantes de terreiros, pesquisadores, médicos, sanitaristas, psicólogos e advogados.

Também participarão os coordenadores nacionais da Renafro Saúde, Baba Diba de Iyemonja, do Rio Grande do Sul e Mãe Nilce de Yansã do Rio de Janeiro.

Programação:

14 de Março: Das 09h às 18h

15 de Março: Das 09h às 12h

No Ilê Asé Tobi Odé Karê Igbo: Rua Roraima, nº 44 — Cajuru, Curitiba/PR.

O evento é gratuito e as inscrições podem ser feitas no link:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdJzWp2THWrYeFUmJPDPqP0Q5OT4tmfqsr9oUHC429lLg18Ug/viewform?fbclid=IwY2xjawQdUa5leHRuA2FlbQIxMABicmlkETFHT1VOcFdQZ1BCV2Frb25mc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHgH0exKRlSXRib89gjK4HDPmz5ycpOmhtdHq6RARUjdsMBSIUGjMAgYgcy0o_aem_LTrvetnoA5dH07kqQp0H_w

 Mais informações: https://www.instagram.com/renafrosaude/

José Pires

José Pires

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura dos povos indígenas do Sul do Brasil; meio ambiente; política; cultura e liberdade religiosa

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