O livro “Os Armazéns na Cidade, a Cidade nos Armazéns” tem lançamento marcado para esta terça-feira (21), na Mercearia Fantinato. A publicação revela o cotidiano de uma época, com suas histórias e tradições, a partir do olhar atencioso para essas casas de comércio e convívio. Olhar, não, olhares. As páginas trazem dois pontos de vista sobre os armazéns de secos e molhados, como explica o jornalista Sandro Moser, ele é o autor da segunda parte da obra; a primeira é assinada pela arquiteta e professora Cleusa de Castro. A organização do projeto, que também conta com fotos de Gilson Camargo, é da arquiteta Thais Glowacki.
Em "Os Armazéns na Cidade", está a análise de Cleusa dos espaços desse gênero que restaram na cidade, com suas características arquitetônicas e foco no patrimônio material. Já em "A Cidade nos Armazéns", Moser busca capturar a memória coletiva, as lembranças pessoais e os acontecimentos vividos dentro dessas casas comerciais, o imaterial.
Sandro Moser
O escritor conversou com o Plural sobre o processo de criação da obra. Ele contou como esses dois olhares, um birdview e um ao rés do chão, são complementares para traduzir os costumes que mostram a história das pessoas e de um tempo, e do charme que a atmosfera dos armazéns carrega. Ele também assumiu que usou "os sapatos do flâneur" para encontrar as histórias que escolheu para o livro, e que Curitiba - onde vive há muito tempo - ainda o surpreende. Um exemplo disso foi a descoberta de que uma das casas mais importantes para a cultura do Brasil, foi um armazéns de secos e molhados na cidade. Confira a íntegra da entrevista com Sandro Moser a seguir.
A organizadora e idealizadora do projeto Thais Glowacki afirma que a sua parte do livro foi escrita a partir de “etnografia naïf”. O que seria essa abordagem e como se deu isso no processo de pesquisa e coleta de dados para a escrita?
"Etnografia naïf" é uma brincadeira que eu faço sobre o meu método. Como um etnógrafo, tento interpretar a cultura, os hábitos, os costumes, os usos, mas eu não tenho a profundidade de um cientista social ou de um pesquisador, então chamo de "etnografia naïf". É essa maneira mais descontraída de tentar entender os fenômenos da cultura, as tradições, os usos e costumes da nossa comunidade.
Como são interligadas a parte escrita pela professora Cleusa de Castro e a assinada por você no livro?
As duas partes conversam, mas são claramente divididas, inclusive editorialmente, até com cores diferentes. A direção de arte do Jaime Silveira, que é brilhante, fez alguma diferença porque a grande sacada do livro é que são partes complementares. São dois olhares diferentes que fazem sentido quando colocados juntos, a Cleusa vê a coisa como um drone, o birdview, a implantação das casas nas esquinas da cidade, e a minha parte é entrar dentro das casas e ver quem é quem que trabalhava ali. Esse é o nosso movimento, ela vê o todo e eu vejo o particular.
Dá para ler fora da ordem ou cada parte separadamente?
Certamente dá para abrir uma ou outra, mas acho mais legal ler na sequência. Tem um sentido ali, primeiro você olha de cima e depois olha de dentro, mas dá para inverter tranquilamente. Assim espero!
No livro você traça uma aproximação dos Armazéns de Secos e Molhados com os pubs ingleses, pubs ingleses, cervejarias alemãs e bares de leite polacos. Isso vale para Curitiba e o que aproxima esses locais tão distantes geograficamente?
A nossa cultura é muito influenciada por esses espaços universais de sociabilidade. De alguma certa forma, com as suas particularidades e singularidades, eles têm o mesmo sentido, porque são pontos de sociabilidade que se tornam referência de um lugar, as pessoas se encontram lá, as pessoas gastam o dinheiro lá, as pessoas vão para lá depois do trabalho, as pessoas deixam recados um para o outro. E isso acontecia num pub inglês, numa cervejaria alemã, num bar de leite na Polônia, nos tradicionais boliches, na Argentina, e também nos armazéns de secos e molhados, em Curitiba. Cada cultura tem seu espaço assim, sua esquina, seu lugar de encontro, seu lugar de troca. Aqui no Brasil, mais especificamente em Curitiba, eram os armazéns secos e molhados.
A professora Cleusa de Castro usa o termo flâneur para descrever o olhar necessário para identificar na arquitetura uma história que, em certa medida, acaba invisibilizada. Contudo esse espírito (a própria palavra inclusive) está presente na tradição do jornalismo. O Sandro flâneur se realizou escrevendo esse livro?
Sim, eu vesti os sapatos do flâneur. Na tradição do jornalismo, a gente tenta fazer isso, circular para sentir ao rés do chão o que está acontecendo. E eu, na minha maneira naïf, tentei também, saí para bater perna e entrar nos lugares, conversar com as pessoas, sentir e ver. Para fazer um livro sobre a memória social de uma cidade, é fundamental você caminhar por ela e se deixar surpreender por ela. Apesar de viver em Curitiba há tanto tempo, eu ainda me surpreendo às vezes e, nesse livro, eu me surpreendi algumas vezes. Isso é bom e espero que apareça nas páginas do nosso livro.
Tem alguma história que está na obra e que você destaca como uma pista do que o leitor encontrará nas páginas da publicação?
Todo livro tem que ter uma novidade. No caso, a grande novidade é o trabalho da Cleusa com essa pesquisa da tipologia dos dos armazéns, que é a grande contribuição do ponto do patrimônio material, histórico, urbanístico e arquitetônico. Agora na parte imaterial, a minha parte, o mais legal é ter descoberto que a casa do Dalton Trevisan foi um armazém antes. Inclusive, ele mexeu na construção para tirar as portas, porque a casa tinha portas de armazém abertas tanto para a rua Amintas de Barros quanto para a rua Itupava; ali era o Armazém de Secos e Molhados Graf da Dona Rudolphina Nitche, casada com o Seu Graf. Então, a casa mais importante culturalmente de Curitiba, e talvez do Brasil, era um armazém. Contar a história extraordinária dessa mulher foi uma das coisas que mais me deu prazer.
Existe um "leitor ideal" para o livro? Por que ler “Os Armazéns na Cidade, a Cidade nos Armazéns”?
Eu diria que o ideal é que ele encontre leitores, essa é sempre a sorte que a gente quer para os nossos trabalhos. Mas os armazéns têm uma atmosfera de nostalgia para quem viveu e conviveu dentro deles. Muita gente vai se interessar e ficar tocada por toda a atmosfera, os armazéns são lugares bonitos e muito peculiares, são facilmente identificáveis com seus balcões, com suas balanças de contrapeso, com à venda a granel e tal. É uma tradição ainda muito presente, uma coisa que encanta, pelo menos, à geração que pegou uma parte da era dos armazéns. E vai interessar muito para estudantes de arquitetura e urbanismo e também para quem gosta da história da cidade, com um recorte de 200 anos da história de Curitiba numa perspectiva nova. É esse o nosso leitor ideal.
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Lançamento do livro “Armazéns na Cidade, a Cidade nos Armazéns”
De Cleusa de Castro e Sandro Moser
Data: terça-feira, 21/05/2024
Horário: 18h
Local: Mercearia Fantinato (rua Mateus Leme, 2553. São Lourenço)
Entrada e distribuição gratuita
O livro foi produzido com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba, e conta com apoio da CAT, Pesa, Grupo BRT, Kirsten - Painéis Elétricos e Sigma Telecom.