Neste sábado (13), acontece o encerramento do 2º Encuentros, ações de diálogo em dança Curitiba - América Latina. Durante nove dias o evento reuniu criadores de trabalhos colaborativos, em uma programação que apresentou espetáculos, residências artísticas, pocket shows e espaços de convívio, transformando a mostra em um campo de investigação contínua. Confira a programação completa aqui.
A iniciativa tem curadoria do grupo formado por Jimena Garcia Blaya (Argentina), Olga Gutiérrez (México) e pelo curitibano Leonardo Kunta, com interlocução curatorial da idealizadora e diretora artística Mariana Mello. Em entrevista ao Plural, Mariana Mello respondeu sobre detalhes do evento e também sobre o intercâmbio artístico e a conversa artística entre o Brasil e outros países da América-Latina. Confira a seguir.
Para quem não está no palco, mas na plateia, explique o que é a relação entre corpo e território que é o conceito de Encuentros.
A proposta de articular as noções de dança, corpo e território faz parte da curadoria dessa segunda edição, realizada por Jimena García Blaya (AR), Olga Gutiérrez (MX) e Kunta Leonardo da Cruz (BR). Encuentros - ações de diálogo em dança Curitiba - América Latina está pensada a partir de uma relação dinâmica entre corpo e território: Curitiba como um território para caminhar, observar, mover-se e conversar sobre o corpo, o movimento, as danças e performatividades, mas também um ponto de partida para refletir sobre os territórios que cada artista participante produz em sua comunidade e na cidade em que habita.
Esta edição acompanha artistas que estão refletindo não apenas sobre sua prática estética, mas também sobre sua inserção territorial e sua projeção em rede. Nos interessa especialmente conhecer como cada prática se relaciona com sua comunidade e como essa relação pode dialogar com outros territórios sem perder sua singularidade.
Em um momento de transformação dos modos de circulação e produção das artes vivas, consideramos fundamental propiciar contextos que articulem pensamento, afeto e cooperação, e que promovam a dimensão relacional dos espaços de encontro, ampliando discursos e terrenos de saberes para criar redes de conhecimento e intersecção nos modos de organização do corpo e do corpo em criação. Acionando espaços coletivos de intercâmbio e entendendo a travessia, o embate, o encontro e a relação com outros corpos-geografias como uma provocação: friccionar mundos, Curitiba - América Latina, brasilidades-latinidades, português-español. Isso nos permitiria criar outros panoramas sobre nossos países, discursos, estéticas, corpos? Outros panoramas sobre nós mesmas?
O que falta para diminuir o distanciamento cultural entre o Brasil e os outros países latino-americanos?
Acreditamos que para diminuir esse distanciamento é necessário conhecimento, interesse, curiosidade e, sobretudo, a possibilidade de acesso a contextos em que tais questões sejam pensadas e mobilizadas coletivamente. É na prática ativa do encontro, do intercâmbio, do convívio, e da vivência de experiências compartilhadas (seja entre artistas, entre artistas e público, entre artistas e gestores / produtores culturais) que o panorama se abre. Porque o encontro é uma ação: imperativa, urge, constrói, dói, modifica. O encontro é também uma maneira de operar, especialmente para os países da América Latina, para os quais o trabalho em rede, além de uma opção logística, é um paradigma de pensamento. Trabalhar em rede requer que deixemos de conceber nossos territórios como entidades separadas e derrubar as lógicas de centro-periferia, desobedientes da geopolítica que impõe muros e divisões, e operar para além das fronteiras. Encuentros tem como objetivo criar pontes, conectar universos: Curitiba - América Latina, Brasilidades - Latinidades, português - espanhol.
Diferentemente de outros países latino-americanos hispanohablantes, o Brasil ainda tarda a se reconhecer culturalmente como parte da América Latina, desconhecendo a realidade da maior parte dos países da região. É aqui que impera também a necessidade de transformar esse panorama através da construção de redes, ampliando espaços de diálogo, especialmente aqueles que criam um ambiente favorável ao intercâmbio entre diferentes contextos artísticos, culturais e sociais. Afinal, que tipo de conhecimento temos dos demais povos da América Latina? Quais histórias, narrativas, contextos e referências chegam a nós? Quais são as maneiras de viver, criar, pensar, de nossas nações vizinhas? O que sabemos do que se produz artisticamente nos países latino-americanos?
Entrar em diálogo com um outro que vem de um país distinto, enriquece o contexto local que, pela presença de um visitante, amplia seu olhar e suas práticas; assim como transforma o visitante, que se vê num ambiente novo e deve começar a reconstruir a si mesmo a partir da alquimia de uma viagem. Ambas situações se dão pela aparição da estranheza. Ser estrangeiro, se comunicar em outra língua, ter um sotaque que te apresenta como uma pessoa de outra parte, se sentir alteridade, tudo isso faz com que as práticas renovem sua plasticidade e que o olhar sobre o mundo se amplie. Ao mesmo tempo, essas presenças estranhas refrescam, renovam, mobilizam e enriquecem o contexto local, devolvendo-lhe a possibilidade de se reinventar.
O Encuentros promove espaços para a construção efetiva de relações e diálogos entre uma pluralidade de artistas advindos de diferentes contextos. A criação de redes internacionais de intercâmbio, gestão, circulação e colaboração artística permite que os artistas que já têm uma importância local passem a fazer parte de um contexto mais amplo e diversificado, conquistando mais espaços de atuação, ampliando sua esfera de relações profissionais na área da dança, e fomentando, inclusive, as possibilidades sócio-econômicas de manutenção de seu ofício.
É a segunda edição do evento. Dá para notar alguma mudança no circuito da dança local? As pesquisas, intercâmbios e trocas se mantiveram ou mudaram no intervalo entre os eventos?
A cena e o circuito de pesquisa, criação e produção em dança estão sempre em movimento; são dinâmicas e se transformam continuamente. No que se refere à Encuentros e a relação entre primeira e segunda edição, é interessante observar a continuidade de vínculos que nasceram durante a primeira edição e que foram permanecendo no tempo, desdobrando-se em outros encontros, projetos, colaborações. As duas edições realizadas selecionaram as artistas participantes através de convocatória aberta. A opção pelo formato de convocatória se dá por diferentes razões: primeiramente porque a convocatória permite alcançar um público mais amplo e diverso interessado em participar do evento, não ficando as opções de participação restringidas aos artistas já conhecidos pela curadoria; também porque ao entrar em contato com um maior número de propostas e projetos, é possível obter um panorama mais amplo e complexo da produção em dança dos territórios observados.
Ao observar as propostas recebidas percebemos uma grande pluralidade de pesquisas, criações e contextos de-para-em dança sendo realizados em Curitiba. Nesse sentido, seria pouco acertado pensar “a dança” ou “a cena da dança” como uma coisa só, homogênea. Na programação buscamos abarcar parte dessa heterogeneidade, apresentando espetáculos diferentes entre si, e não apenas espetáculos. Então, a programação faz um convite ao público a um percurso entre diferentes pesquisas-criações tanto locais quanto internacionais. E esse percurso trata-se justamente do encontro entre Curitiba e América Latina; é por essa razão que a cada noite de programação há duas apresentações, uma local e outra internacional.
Qual a importância da publicação para o segmento artístico?
A publicação é uma criação realizada em tempo real pelos artistas visuais Luana Navarro e Raro de Oliveira, que acompanham toda a programação do evento e, em diálogo entre si, com a curadoria, com artistas participantes, com a cidade e com os espaços, propõem registros e criações que compõem a programação. Logo, a publicação artística vai além do registro convencional de um espetáculo ou de uma mostra, normalmente realizado em foto ou vídeo. A iniciativa é importante também porque propõe uma articulação entre linguagens.
É interessante considerarmos também que as artes vivas se caracterizam pela efemeridade, por aquilo que se dá, irrepetível, no aqui-agora da dança, de um corpo que se move, de um grupo de pessoas reunidas para compartilhar um acontecimento estético. Então, como pensar maneiras de criar um registro disso, mas que seja um registro também criativo, que se proponha também como acontecimento estético? A publicação surge também como uma tentativa de condensar o efêmero em uma materialidade, que possa permanecer, e criar arquivo, memória, da mostra, da programação, e de seus acontecimentos.
2ª Mostra Encuentros - ações de diálogo em dança Curitiba - América-Latina
Data: De 05 a 13 de junho de 2026
Local: CAIXA Cultural Curitiba
Endereço: Rua Conselheiro Laurindo, 280 - Centro, Curitiba - PR
Ingressos por noite: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia-entrada)
Oficinas gratuitas
Outras informações:
https://linktr.ee/mostraencuentros
https://www.encuentros.art/