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Apesar de crime na justiça dos homens, destruição dos ex-votos de Maria Bueno é um ato de fé na impunidade

Desdém com patrimônio cultural deu fim a centenas de agradecimentos para a milagreira parda, vítima de feminicídio, cultuada por católicos, espíritas e umbandistas. Apenas 150 sobraram para atender promessa de recolocação

Ex-votos destruídos de Maria Bueno
Muro em frente ao túmulo de Maria Bueno nos anos 1960, em 2025 e, agora, 2026. (Fotos: 1, Diário do Paraná/Instagram de O Centro de Curitiba, 2 - Luciana Penante/Curitiba Sombria, 3 - Luciana Melo/Plural.)
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Recentemente um milagre às avessas veio a público. A história começa com fiéis consternados diante de uma mudança na paisagem do Cemitério São Francisco de Paula, o principal de Curitiba. Centenas de ex-votos datados do início do século passado até os dias de hoje sumiram da parede em frente ao túmulo mais visitado no campo santo: o da milagreira Maria Bueno – uma mulher parda, vítima de feminicídio em 1893 – que congrega devotos católicos, espíritas e umbandistas. Logo veio a revelação. A prefeitura notificou a Irmandade que cuida do jazigo a retirar as placas de agradecimento, o que resultou na destruição de patrimônio cultural com valor imensurável em processo de tombamento – o que é crime. E o pior ainda pode estar por vir. 

Qual o motivo?

Em nota, a prefeitura afirmou que o pedido foi motivado por manutenção de encanamento. Conforme o Plural apurou, a notificação enviada em novembro não falava em canos e estabelecia prazo de 30 dias para a retirada das placas “fixadas irregularmente no Cemitério São Francisco de Paula”, juntamente com um cartaz divulgando a chave PIX para arrecadar doações. O argumento era de que os itens contrariam o regulamento dos cemitérios da cidade. Entretanto, a regra atual não fala em placas de agradecimento ou ex-votos, apenas um artigo cita ser "vedada a utilização de estátuas, lápides, gravações, fotografias, ou qualquer outro objeto que, por si, atentem aos bons princípios da moral pública".

O decreto em questão, com o regulamento, é o 1.202/2011. Ele entrou em vigor mais de 50 anos depois dos restos mortais de Maria Bueno serem trasladados para o túmulo atual – em companhia dos ex-votos da sepultura anterior que, por sua vez, foram colocados no muro onde estiveram até o fim do ano passado. Naquela época, em 1960, agradecimentos à milagreira surgiam nas páginas de jornais e as placas em pedra, cimento, mármore, granito e metais somavam menor número do que em 2025, mas já eram um grande volume. Sem o mesmo cuidado tomado há mais de seis décadas, o conjunto estimado em 400 peças agora virou pó. Os itens foram danificados e jogados no lixo, restou somente o grupo dos feitos em bronze.

Não houve diálogo entre a administração do São Francisco de Paula e a Irmandade, nem questionamentos sobre alternativas e precauções necessárias. Nenhum profissional da área de patrimônio, restauro, história ou arquitetura de conservação foi consultado.

Crime e apagamento histórico 

Segundo o arquiteto, historiador e conservador de bens móveis, Thiago Botelho, a destruição “acarreta em crime e cabe denúncia ao Ministério Público”. Ele explica que ex-votos são patrimônio imaterial, pela religiosidade e crença do fiel naquele santo de devoção; e também se tornam patrimônio material num segundo momento, quando o devoto materializa a graça recebida nas placas. “Neste caso, houve um apagamento histórico, já que os ex-votos são documentos do processo milagreiro e configuram objeto de pesquisa documental e registro material", afirma. 

A oferta votiva aos milagreiros, como Maria Bueno, não é incomum. Outros ‘santos’ canonizados pela crença popular recebem agradecimentos do gênero, como Santa Felisbina Muller (Cemitério da Quarta Parada/SP), Maria Rosa (Cemitério de Piracuruca/PI) e Maria Bil (Cemitério de Várzea Alegre/CE). Da mesma maneira, a prática está presente em grandes santuários. No caso do São Francisco de Paula, ele diz que as placas não poderiam ser removidas nem destruídas. "Deveriam ter limitado o espaço com os ex-votos fixados e - para novos - estabelecer um local de guarda”, como acontece em Aparecida do Norte e também no Santuário do Bom Jesus (com ex-votos pesquisados pelo estudioso). Em datas especiais, o acervo resguardado entra em exposição. 

Ainda conforme Botelho, todo espaço de culto tem proteção e isso vale para os cemitérios, pois são considerados sagrados. “Municípios fazem o tombamento das necrópoles considerando importância, personalidades sepultadas, obras de arte presentes, artistas, enfim, por uma infinidade de quesitos. Quando há a presença de um santo popular é considerado (de forma imaterial) um espaço de peregrinação, o que eleva a um patamar maior de proteção e cuidado”, explica ele.

Crime na justiça dos homens 

O que aconteceu com os ex-votos de Maria Bueno foi um crime. E a afirmação não é uma metáfora. O advogado especializado em Patrimônio e membro do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult), Mário Pragmácio, esclareceu à reportagem que “se há um processo aberto que pode culminar no tombamento, ou um processo de inventário, já existe proteção cautelar do bem”. Há inclusive jurisprudência sobre o tema. “Decisões reiteradas em tribunais de todo o Brasil demonstram isso, ou seja, não é preciso um ato definitivo de tombamento para a proteção.”

E, sim, há provas de que o Cemitério São Francisco de Paula tem processo aberto e inventário aprovado. Pela Lei de Acesso à Informação, o Plural teve acesso a documentos do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Curitiba (CMPC) e da Superintendência de Obras e Serviços da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) que comprovam a existência de processo de tombamento do Cemitério São Francisco de Paula em andamento. O pedido foi cadastrado em julho de 2017. Em março de 2019, todos os integrantes do conselho declararam “estar de acordo com o tombamento”, o trâmite iniciou oficialmente e os presentes solicitaram a proteção temporária do bem. Conforme ata de reunião do CMPC de outubro de 2020, aprovação da Câmara Técnica já existia, o inventário foi aprovado, e uma das relatoras instituídas era da SMMA.

Documento assinado pela Superintendência de Obras e Serviços da SMMA ainda esclarece que o processo encontra-se na própria secretaria, para compatibilização com “procedimentos aplicáveis na administração do Cemitério, especialmente considerando Projeto de Lei nº 055.0082.2025”. Contudo, trata-se de projeto de regramento que ainda não está em vigor, ele passa agora pelas devidas comissões na Câmara para, então, ser votado pelos vereadores.

Publicamente, a prefeitura trata o São Francisco de Paula como patrimônio cultural há anos, e o túmulo de Maria Bueno está listado como um dos destinos determinados pela Lei da Rota do Turismo Católico de Curitiba.  

Fiscal e infrator

Curitiba tem sua própria legislação de Patrimônio Cultural (nº 14794/2016) e ela determina proteção cautelar nos mesmos termos da jurisprudência explicada anteriormente pelo advogado especialista Pragmácio. O texto da lei indica que a fiscalização dos bens sob proteção e a aplicação das punições deve ser feita pela Administração Pública Municipal. 

Entretanto, o São Francisco de Paula é da prefeitura. Ele está sob responsabilidade do Departamento de Serviços Especiais da Secretaria do Meio Ambiente (SMMA), chefiado por Denise Maria Vilela, e a administração direta é feita por Fabiane Izidoro, chefe de Divisão de Cemitérios. Esses setores são os mesmos que pediram a retirada dos ex-votos e fazem parte da mesma secretaria onde o processo de tombamento está aguardando compatibilização. 

O pior ainda pode estar por vir

A proteção do patrimônio cultural em Curitiba, que se mostra ineficaz em casos como o dos ex-votos de Maria Bueno, ainda pode piorar. A vereadora Indiara Barbosa (Novo) e o ex-vereador Rodrigo Marcial (Novo) estão tentando aprovar um projeto (055.00109.2026) para liberar as alterações nos itens que hoje são protegidos a partir da abertura do processo. Entretanto, há conflito com legislação federal e profissionais da área consideram uma mudança de alto risco para a preservação de peças, locais, paisagens, santuários e construções de valor imensurável. Confira quais são as alterações segundo portal da Câmara Municipal.

O projeto para retirar a proteção cautelar está atualmente na Comissão de Constituição e Justiça da casa legislativa. No entanto, a Lei Federal de Crimes Ambientais nº 9.605/1998 enquadra a destruição de bem em processo de tombamento como infração que pode ser punida com multa e detenção. O texto classifica da mesma maneira alterações sem a devida autorização em locais protegidos por valor paisagístico, turístico, artístico, histórico, cultural e religioso, entre outros.

O que diz a irmandade

Os responsáveis pela Irmandade Maria da Conceição Bueno confirmaram que apenas os ex-votos de bronze foram preservados, mas não sabem o número exato. Desde terça-feira, dia 2 de junho, as peças estão com a administração do cemitério, porém a data para reinstalação não foi oficializada. Eles também afirmaram que não tinham conhecimento do processo de tombamento do cemitério e que ainda não arrecadaram o valor necessário para a reforma do túmulo com a capela da milagreira.

O que diz a Divisão de Cemitérios

O Plural procurou a administração do Cemitério São Vicente de Paula e Fabiane Izidoro explicou que a recolocação dos ex-votos iniciou na manhã desta quarta-feira (3) e deve terminar em poucas horas. Ela também respondeu que, no total são 150 placas, a maioria de bronze, além de poucas de granito e cerâmica.

A reportagem ainda perguntou por que esses 150 ex-votos foram instalados em outro muro e não ficarão mais em frente ao túmulo de Maria Bueno; e sobre o andamento do processo de tombamento do cemitério. Não houve retorno até a publicação deste texto. O espaço continua aberto. 

Mais um capítulo: A reforma da capela de Maria Bueno

A pedido da Irmandade Maria da Conceição Bueno, em 2025, a arquiteta Letícia Pardo criou um projeto em 2025 para reformar a capela e o túmulo da milagreira. As obras seriam necessárias porque o pequeno santuário inunda quando chove, por causa de bueiros entupidos no cemitério.

Segundo explica Letícia, o projeto parou ainda no ano passado. Ela não recebeu mais notícias do andamento e a suspeita é de que não tenha sido aprovado, talvez por desorganização ou burocracia da administração do cemitério. Questionada sobre a remodelação descaracterizar o espaço, com muitas alterações, e se isso teria sido empecilho para a aprovação, a arquiteta diz não se tratar deste caso. “A única proposta diferente era realocar as plaquinhas dos fiéis para o muro, fora da capela, um pedido da própria irmandade e dos fiéis que escutamos. O restante seguimos, cores originais e tudo mais.” O muro até ali era o mesmo de onde foram retirados os ex-votos no fim do ano passado.

A respeito de pesquisa prévia, para saber se o cemitério é tombado ou tem pedido de tombamento aberto, explicou que “o que descobrimos é que não tem nenhum tombamento", entretanto não buscaram a informação no Conselho Municipal de Patrimônio Cultura nem na SMMA.  

Em vídeos postados no Instagram, Letícia compara a capela atual com a proposta de remodelação. Ela diz: “Ela é bem pequenininha e, aí, o revestimento está assim, chocho, capenga. Essas plaquinhas são bem antigas e a gente vai reformar, revitalizar. Mas, enfim, o revestimento está horrível. Então, no nosso projeto, a gente vai realocar as plaquinhas que estão aqui e colocar no muro, o que foi o pedido do pessoal da Maria Bueno. A gente colocou esse piso, que lembra estrelas e eu acho lindo, tanto no piso quanto no muro de acender velas. Aqui, uma pintura nova, piso novo. 

Aqui é a parte interna, muito chocho. E aqui, a gente propôs uma pintura que eu estou fazendo em parceria com uma amiga artista, a Luana. E dentro a gente fez o túmulo todo de pedra de mármore, com nichos. E ladrilhos lindos no chão, que eu sinto que toda igreja tem que ter ladrilhos. Então a gente usou aqui também.”

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Assista ao vídeo postado em outubro de 2025. A conta do escritório da arquiteta no Instagram tem mais de 55 mil seguidores.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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