Você já deve ter passado por esse tipo de situação algumas vezes, numa viagem ou até mesmo assistindo a um filme ou série sem legendas na TV. Ouvir pessoas conversando ou dizendo algo diretamente a você em uma outra língua e não entender patavinas do que está sendo dito é muito frustrante. Gera desconforto, angústia, ansiedade. De uma certa forma, eu acho que é mais ou menos isso que faz com que, em comparação a outros estilos musicais, o jazz tenha um público significativamente menor. Se a maioria das pessoas não entende a linguagem desse gênero, como esperar que elas sejam capazes de apreciá-lo de uma forma plena?
Eu ouço jazz há mais de 30 anos e, à medida que fui mergulhando de um jeito cada vez mais profundo nesse idioma, passei a admirá-lo (e entendê-lo) cada vez mais. Mas não vou mentir, não foi um processo fácil. Foi, sem brincadeira, algo muito semelhante ao processo de aprendizado de uma língua estrangeira.
Penando, ao longo de anos, consegui aprender um inglês suficientemente bom para poder viajar pra fora do Brasil sem passar por grandes apertos e, quando finalmente consegui me familiarizar um pouco mais com o idioma, tive a felicidade de poder trabalhar como designer para empresas dos Estados Unidos e da Europa. Mas se perseverei e progredi em relação ao inglês, sinto que falhei com outros. Por falta de tempo, de consistência no estudo e, talvez, por não desejar o suficiente aprender esse ou aquele idioma.
Porque aprender uma língua requer, em primeiro lugar, na minha muito humilde opinião, realmente ter vontade e disposição para aprender aquele idioma específico. Gostar dele, do seu som. Como dizia um amigo meu, da “melodia” contida em cada língua. Afinal, pode reparar, cada idioma tem mesmo uma certa musicalidade. O português de Portugal, se comparado ao brasileiro, soa mais seco, mais duro. Não digo mais feio ou mais bonito, até porque morei em Lisboa e aprendi a amar, além daquela cidade, a sua gente e a sua cultura, o seu idioma. É apenas diferente. Em teoria é isso, compartilhamos, nós e os nossos irmãos portugueses, o mesmo idioma. Mas, na prática, o deles tem uma “música” e o nosso tem outra.
O jazz é tido por muitos como um gênero musical, digamos, elitista, pouco acessível. Sempre me perguntei o porquê disso. Um outro amigo meu — que não é músico — me disse uma vez: “pra mim, os solos que os músicos de jazz tocam parecem aleatórios; parece que os caras estão tocando qualquer nota”. Fiquei com
aquilo na cabeça. Conversando com mais pessoas, percebi que várias compartilhavam da mesma opinião; jazz, para elas, parece ser um gênero musical dominado por músicos exibicionistas, caras que tocam um volume grande de notas sobre harmonias meio “tortas” apenas pra tentar impressionar as pessoas. Não
é isso que eu sinto quando eu ouço jazz, mas, como eu escrevi, eu estudo esse idioma há muito tempo e entendo perfeitamente aqueles que não são capazes de entendê-lo, porque um dia eu também estive no mesmo lugar: ouvia, queria muito entender, e não conseguia.
Até que numa noite de domingo, no distante ano de 1990, tudo mudou. Eu e um primo tivemos a sorte de assistir a um show do Pat Metheny Group, transmitido pela extinta TV Manchete. Você não viveu o suficiente pra saber qual canal de televisão era esse? Tudo bem, esse é só um detalhe da história! O show começou com a câmera se aproximando lentamente do palco. No centro dele, um guitarrista com um visual, digamos, peculiar: cabelos grisalhos desgrenhados, uma camisa com as mangas arregaçadas, uma guitarra archtop surrada, toda remendada com silver tape e uma escova de dente amarela presa à alça do instrumento (oi?!), e, para a surpresa acho que de todos, um calção branco e um par de tênis sem meias.
O figurino impressionou bastante tanto a mim quanto ao meu primo, lógico! Continuamos à frente da TV por ter achado graça daquilo tudo, mas o que nos atingiu em cheio mesmo foi a música. Se não estávamos esperando um músico com um visual daqueles num show de jazz, definitivamente não estávamos preparados para o som que aquela banda foi capaz de gerar naquele show. Uma apresentação para mais de 100 mil pessoas nas ruas de Montreal, Canadá. Se você ficou curioso, procure pelo show do Pat Metheny Group na edição de 1989 do tradicional Montreal Jazz Festival. Não é difícil de encontrar trechos relativamente longos desse show no YouTube.
Conhecer aquela banda, mas especialmente a música daquele cara de cabelos desgrenhados naquela noite, mudou não apenas a minha forma de tocar guitarra — costumo dizer que eu tento tocar guitarra há quase 4 décadas —, mas a minha maneira de ouvir música. Especialmente música instrumental. De 1990 pra cá, aquele cidadão de figurino e cabelo pra lá de incomuns virou o meu professor. Ao longo dos anos, tive o prazer de encontrar e conversar com o Pat Metheny algumas vezes. A conversa mais longa que tive com ele foi em Lisboa, em 2002. Ele não lembra, com certeza. Eu não vou esquecer nunca. Nunca sentei pra ter uma aula de guitarra sequer com ele. Pelo menos não pessoalmente. Mas aprendi um volume imensurável de coisas sobre música, harmonia, composição e improvisação apenas ouvindo os seus discos. Todos eles.
Na próxima quinta-feira, dia 28 de agosto, vou ter a oportunidade de assistir o Pat Metheny ao vivo pela quinta ou sexta vez. Só que agora na Ópera de Arame, aqui em Curitiba. Certamente, ter a chance de vê-lo tocar aqui na cidade na qual eu nasci vai ter um significado especial. Poucos artistas — em qualquer que seja o gênero musical — tiveram ou têm a capacidade de produzir tanto, e em tantas formas diferentes, como ele. Ele já gravou música brasileira, teve um hit tocado no rádio nos anos 80 (This is Not America, com David Bowie), tocou com várias lendas do jazz (Ornette Coleman, Michael Brecker, Chick Corea, Jaco Pastorius e Jim Hall, pra citar apenas alguns), compôs trilhas sonoras para o cinema, já tocou e gravou em todos os formatos possíveis (solo, duo, trio, quarteto, quinteto, acompanhado por orquestra — humana e mecânica, etc.). E fez tudo isso, segundo a opinião de muitos músicos e guitarristas, reinventando o som da guitarra jazz.
Mas afinal, por que você deveria ouvi-lo? Ou ainda, por que não deveria perder a oportunidade de vê-lo e ouvi-lo ao vivo, aqui em Curitiba, no próximo dia 28? Porque ele é um artista único. Um cara que coloca a alma em cada nota que toca. Um músico que, como poucos, não parece simplesmente tocar um instrumento. Parece, isso sim, fazer a sua guitarra — ou praticamente qualquer instrumento de corda semelhante a uma guitarra ou violão que colocarem no seu colo — cantar uma infinidade de melodias que conseguem ser ouvidas, compreendidas e sentidas até mesmo por “não-músicos” e pessoas que, como eu mencionei, não estão familiarizadas com música instrumental e jazz.
Pergunte a qualquer músico se é fácil tocar um instrumento. E por tocar, eu digo tocar de verdade mesmo, dominar um instrumento, seja ele qual for, com maestria. Tocar bem um instrumento demanda tempo, esforço, um número absurdo de horas de estudo, dedicação, trabalho e privação em relação a uma série de outras coisas.
Mas aprender a tocar é uma coisa! Ser capaz de se comunicar com os outros através da música que você produz é outra, num nível completamente diferente. Emocionar, fazer a pele arrepiar, levar pessoas às lágrimas sem falar nenhuma palavra, apenas tocando, produzindo uma sequência de notas e acordes no seu instrumento. Isso é raro, extremamente difícil e, arrisco dizer, sublime. Requer muito talento, muita sensibilidade. E se a música, ainda por cima, tiver sido composta por você, então você, meu amigo, subiu ao Olimpo da música. Na música instrumental, um lugar ocupado por gênios como Miles Davis, John Coltrane, Charles Mingus, Duke Ellington, Thelonious Monk e Gershwin.
O que dizer, então, de um cara que começou a fazer isso profissionalmente com 15 anos e gravou o seu primeiro disco com 21? Enquanto muitos ainda estão, durante a adolescência, com o traseiro colado na cadeira e o instrumento no colo, dando os primeiros passos no longo e árduo caminho da música, um garoto chamado Patrick Bruce Metheny, de Lee’s Summit, no Missouri, magro, com aparelhos nos dentes e cabelos compridos — nessa época ainda penteados — já estava na estrada. E logo em seguida já estava ensinando na renomada Berklee College of Music, em Boston. Mas além do óbvio talento, o que fez daquele garoto prodígio um músico tão diferente aos olhos e ouvidos dos outros?
Arrisco dizer que, além de um talento absolutamente fora do comum, a sua inteligência em perceber que tocar guitarra — ou qualquer outro instrumento — vai muito além de apenas fazer notas soarem no ar. Pra ser um grande músico e realmente se conectar com as pessoas, você precisa ser capaz de se comunicar através do seu instrumento. De tocar sem perder o foco de servir à música com o seu instrumento o tempo todo. Você tem que ser capaz de deixar o ego de lado — aquela vontade quase incontrolável, que se apodera de quase todo músico, de mostrar para os outros o quão rápido você é capaz de tocar —, e tocar apenas as notas que a música de fato precisa que sejam tocadas. As notas necessárias — e talvez até esperadas — por aqueles que a estiverem ouvindo. Isso requer sensibilidade, habilidade, bom gosto, finesse. Uma capacidade de tocar pensando não apenas naquilo que você gostaria de ouvir, mas imaginando, tentando adivinhar, intuir de alguma forma, o que os outros, a sua plateia espera, anseia ouvir. Tocar não apenas as notas certas, mas também na dose certa. Tocar várias notas, poucas em outro momento. Nenhuma. Entender que o silêncio também é música.
Numa entrevista recente — além de um mestre da guitarra, Metheny também é um sujeito articulado —, ele falou sobre a música que talvez seja a canção mais tocada em todo o mundo: Parabéns pra você. Sobre Happy Birthday, ele disse mais ou menos isso: “se todos os músicos de jazz fossem capazes de entender o que está por trás dessa música, mais e mais pessoas passariam a ouvir jazz ao redor do mundo”. Segundo ele, a aceitação global de Parabéns pra você está no seu formato, na sua repetição. “As pessoas entendem o formato da música, ouvem uma estrofe e conseguem antecipar o que está por vir, como a melodia se desenvolverá”. Para ele, se todo músico de jazz fosse capaz de improvisar dessa forma, desenvolvendo com inteligência e sensibilidade o “motivo” musical, eles então produziriam uma música que se conectaria muito mais, num nível emocional, com as pessoas.
Isso, pra mim, é uma verdade incontestável. É a resposta para a pergunta que eu me fazia lá na adolescência, trinta e tantos, quase quarenta anos atrás: por que a maioria das pessoas não gosta de jazz? Talvez porque muitos músicos insistem no erro de tocar pra eles mesmos, sem se preocuparem, de verdade, com o efeito que aquilo que estão tocando terá sobre a plateia. Tocam muito quando deveriam tocar pouco. Alto quando deveriam tocar mais baixo. Não desenvolvem o seu discurso adequadamente e soam, para o seu público, como um estrangeiro falando um idioma completamente desconhecido, ou como aquele orador chato que, uma vez com o microfone na mão, parece que nunca mais vai calar a boca. Assisti, inúmeras
vezes, pessoas levantarem das suas mesas em bares de jazz para irem ao banheiro durante improvisos intermináveis. De novo: se a pessoa se perde e não entende mais o que está sendo dito, vem o desconforto, a angústia. A vontade de pedir uma bebida ou levantar para ir ao banheiro. Ou de ir pra casa, talvez.
Vá ao show do dia 28 de agosto na Ópera de Arame. Você vai assistir à performance de uma lenda da guitarra e da música instrumental. Um músico que se importa com a sua plateia e que se esforça muito, da primeira à última nota do show — e olha que shows do Pat Metheny podem ter até 3 horas de duração —,
para criar uma conexão com as pessoas que estão ali prestigiando a sua apresentação. Ao longo das últimas 6 décadas, Metheny participou de uma infinidade de projetos de outros artistas, gravou mais de 40 trabalhos sob o seu próprio nome e ganhou 20 prêmios Grammy — o Oscar da música —, sendo o único artista da história dessa premiação a vencer em 10 categorias diferentes.
Serviço
Pat Metheny em Curitiba
28 de agosto, na Ópera de Arama
Ingressos aqui