Era um negro alto, magro, de cabelos grisalhos e voz grave. Nasceu Mansueden dos Santos Prudente no dia 03 de julho de 1931. Aos 20 anos de idade virou Chocolate. Foi sambista, carnavalesco e agitador cultural. Para uma geração de músicos e boêmios, mais precisamente para os que respiravam samba na Curitiba das décadas de 1970 e 1980, era um mestre, o Mestre Chocolate.
Tinha pinta de carioca, mas não era do Rio de Janeiro. Era do Largo da Carioca, na cidade de Antonina. A paixão pela Cidade Maravilhosa, no entanto, o acompanhou por toda a vida desde quando por lá morou no final da década de 1940. Em 1951 voltou para Curitiba e criou raízes no bairro Capão da Imbuia.
Mestre Chocolate foi um dos mais importantes nomes do Carnaval de Curitiba. Começou na Escola de Samba Colorado, lá nos anos de 1960. Depois saiu e criou a Escola de Samba Ideais do Ritmo, que mais tarde viraria um bloco carnavalesco.
Respirava carnaval 365 dias do ano. E nos meses que antecediam os desfiles, tratava de conseguir recursos para sua escola sair. Numa reunião na recém criada Fundação Cultural de Curitiba, estavam o prefeito Jaime Lerner, alguns secretários e os presidentes das escolas de samba. Chocolate chegou à reunião com uma vara de bambu nas mãos.
- Ô Chocô, sem confusão hoje, hein? Advertiu alguém.
De nada adiantou. Ao ver que a prefeitura enrolava mais uma vez para liberar as verbas para as escolas, batia com a vara no chão e gritava:
- Cadê nosso dinheiro, sem dinheiro não tem desfile e sem desfile não tem carnaval!
Depois, mais calmo, asseverava para um amigo:
- Eu mordo o cachorro, e às vezes a prefeitura!
Chocolate era um grande artista. Foi compositor de sambas enredos memoráveis como “Mamangava”, que recebeu nota 9,5 de Cartola e “Leila Pra Sempre Diniz”, composto em 1981 e que era uma ode à sua musa, Leila Roque Diniz, atriz e mulher à frente de seu tempo.
Há mais de 50 anos, ele não apenas liderava o Bloco Carnavalesco Ideias do Ritmo, mas também promovia ações sociais e movimentos que ecoam ainda hoje nas discussões contemporâneas: feminismo, combate ao racismo, envolvimento político, tolerância religiosa e a essência do fazer e cantar o samba.

Chocolate faleceu em 1984 e o Bloco Ideais do Ritmo deixou de sair nos carnavais. Mas o projeto foi retomado em 2013 e, por meio do trabalho incansável de Moysés Ramos – amigo e discípulo do Mestre -, a história de Chocolate vinha sendo resgatada e registrada. E em 2024, a saga do maior boêmio da puritana Curitiba virou filme.
“Chocolate: O Eterno Cidadão Samba”, dirigido por Nivaldo Lopes e Eduardo Prante é um documentário que destaca a vida e o legado do boêmio 40 anos depois de sua morte. A primeira exibição do filme aconteceu na Cinemateca de Curitiba.
Nivaldo Lopes começou a pesquisar sobre Chocolate quando fazia filmagens sobre outro sambista curitibano, Maé da Cuíca. O documentário sobre o Mestre Chocô foi produzido com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. “Entre a apresentação, aprovação e produção do projeto foram quatro anos aproximadamente, de 2021 a 2024. As filmagens eram para acontecer ainda no carnaval de 2023, porém, no final do ano de 2022, o Eduardo Prante, empreendedor e codiretor do projeto, teve sérios problemas de saúde e assim tivemos que realizar e finalizar o filme em 2024”, conta Nivaldo.
Moysés Ramos, sambista, artesão e morador do Capão da Imbuia, viveu sob a companhia do Mestre Chocolate por muito anos. Mas faleceu em 2025, também no Capão da Imbuia.
Ele contava que as iniciativas para resgatar e registrar a história do “Velho” começaram há algum tempo. “Quando tiramos o Bloco Ideais do Ritmo da rua, em 1986, dois anos depois da morte do Velho, houve uma debandada. Os integrantes se dispersaram e a história ficou parada por anos”, diz.
Lembrava que os trabalhos de resgate da história de Chocolate, do Bloco Ideais do Ritmo e também do samba curitibano, voltaram em 2013. “Isso foi retomado quando apareceram dois jornalistas, dois garotos que me procuraram para produzir matérias para o jornal do Capão da Imbuia. Aí começamos a contar a história do bairro, do Bloco, do Mestre. Contar também as histórias de toda a discriminação que tinha com a gente, porque era o crioulo com os seus branquinhos. Então, essa retomada começou mais ou menos março de 2013. Aí foram dois anos de puro resgate do Capão da Imbuia, que é o meu limo”, dizia Moysés.
Moysés contava que o Mestre era um malandro, no sentido mais elegante da palavra. “Malandro o que que é? É você se comunicar fácil, ser seguro de si, ter elegância, bater de frente com os preconceitos e isso ele fazia com seu simples viver. O velho em si era uma referência pela maneira como se conduzia, pela maneira que se impunha”.
