A 2ª Mostra Pôr do Sol, do circuito independente do 34º Festival de Curitiba, está em cartaz até o dia 12 de abril no Campo das Artes – espaço criado pelo ator Luís Melo para realizar um sonho que nunca deixou de pulsar ao longo de seus mais de 40 anos de carreira. O evento traz um pouco do que fez o artista ser taxado de maluco por muitos: a ousadia de perseguir o teatro contemporâneo de pesquisa, sem medo do risco, e ao mesmo tempo buscar fazer alguma diferença na vida das pessoas.
A curadoria e a direção artística da Mostra são do ator. Na programação, estão cinco espetáculos com ingressos gratuitos, quatro deles também apresentados na Mostra Lúcia Camargo, e uma festa. As peças são: “Jonathan”, dias 31 de março e 1º de abril, às 20h; “Órfãs de Dinheiro”, dias 2 e 3 de abril, às 20h; “Vinte!”, dia 4 de abril, às 20h, e dia 5 de abril, às 19h; “Cabo Enrolado”, dias 8 e 9 de abril, às 20h; e “Sidarta”, dias 11 de abril, às 20h, e 12 de abril, às 19h. Os ingressos estão quase esgotados no Sympla, mas os interessados podem conseguir se houver desistências (basta entrar em contato). A Festa Pôr do Sol será no dia 10 de abril, a partir das 18h, com show de Janine Mathias e da pianista Klüber, às 20h. As entradas estão à venda a partir de R$ 15 (meia).
Luís Melo
Em entrevista exclusiva para o Plural, Luís Melo conversou sobre a produção da Mostra Pôr do Sol. Também contou sua trajetória profissional, revelou que “Macunaíma” e Pina Bausch influenciaram sua saída de Curitiba no passado e como Beto Bruel e um toque do destino o levaram até o projeto que pode ser considerado sua missão de vida. O ator ainda explicou por que o teatro é inesgotável e não existe sozinho. Confira a seguir.
Você também pode assistir à entrevista completa no YouTube do Plural.
Muita gente conheceu o seu trabalho pelas novelas na televisão e pelos filmes. Mas você tem uma identidade teatral com a cidade, uma relação muito forte com Curitiba. Como foi o início de sua carreira nos anos 1970, em Curitiba, até a entrada no Grupo Macunaíma, dirigido por Antunes Filho, em São Paulo?
Eu comecei no teatro em Curitiba. Minha formação inicial foi vendo teatro, assistindo teatro, me interessando pelo teatro. E me indicavam que a melhor maneira de ingressar era fazer um curso, então eu sou formado pelo Curso Permanente de Teatro da Fundação Teatro Guaíra – criado justamente para formar atores para o Teatro de Comédia do Paraná (TCP), que estava abrindo uma companhia estável e precisava de uma renovação de pessoas.
Eu tive o privilégio de fazer esse curso. Na época, as pessoas falavam: “Que maravilha se todas as escolas de teatro fossem assim.” E, realmente, era uma estrutura bastante grande com uma diversidade de professores e experiências. Tínhamos corpo clássico de teatro com a professora Halina, e, ao mesmo tempo, corpo contemporâneo com a Eva Schul, que vinha da dança moderna, com as experiências que teve com Grotowski no Canadá, esgrima, coisas que dificilmente se encontraria numa outra escola.
Depois da formação, eu fui professor assistente. Eu gostava do ambiente escolar e de estar ali porque a pesquisa e a troca foram fundamentais para mim, como também o acompanhamento. Eu acompanhei a Eva Schul, as aulas de voz e assistência de direção. Até entrar no Teatro de Comédia do Paraná, eu acompanhava todos os movimentos, trabalhei com Antônio Carlos Kraide, que foi um diretor fundamental do Paraná, jovem e potente, que a gente infelizmente perdeu cedo.
E o meu instinto de curiosidade era muito grande. Eu fiz de tudo que aparecia: “Não passei por essa experiência ainda, então eu quero passar, eu quero conhecer”. Fiz espetáculos que juntavam dança e teatro, com Rita Pavão. Todas essas experiências me deram uma bagagem que foi fundamental. Com todo esse conhecimento, sem a pressa de que as coisas aconteçam rapidamente, você se estrutura e não perde mais. Pelo contrário, isso te impulsiona para voos maiores.
Eu nunca imaginei sair de Curitiba. Fui em busca do teatro de pesquisa em São Paulo, que ainda não encontrava espaço aqui.
Luís Melo
Eu nunca imaginei sair de Curitiba. Fui em busca do teatro de pesquisa em São Paulo, que ainda não encontrava espaço aqui. Não que eu não tivesse questionado: “Se temos um grupo de dança do Balé Teatro Guaíra, o corpo de baile, e uma escola; se temos uma orquestra sinfônica e um coro, por que não ter um corpo de teatro formativo? Por que não fazer uma pesquisa?” O curso de teatro era direcionado a um tipo de teatro, não havia espaço para uma companhia estável de pesquisa teatral, que convidasse os diretores mais diversos possíveis. Essa foi a motivação da minha saída de Curitiba, principalmente depois de ter visto “Macunaíma”, Pina Bausch e outros espetáculos de dança contemporânea e dança-teatro que passaram pela cidade excursionando pelo Brasil.
Com a ida para São Paulo, eu tive toda essa experiência de 12 anos, com oportunidade de viajar pelo mundo inteiro e participar dos festivais mais importantes, numa época efervescente, com diretores relevantes do mundo inteiro. Essa troca foi importante para a abertura da visão de que o teatro é inesgotável. Desde o teatro com tecnologia, na época o laser estava entrando no teatro, até um espetáculo como “A hora e vez de Augusto Matraga”, que levamos para a Alemanha, onde o público delirava quando o elenco fazia os burricos, acontecia um parto e nascia um bebê em cena, e a magia era o próprio ator: o corpo do ator era o cenário, o corpo do ator era esse movimento. Eles ficaram emocionados porque já tinham perdido isso, a tecnologia tinha tomado conta, falavam que era poesia no palco e ficavam encantados com tudo aquilo, a gente fazendo a vaquinha passando e aquela coisa e tal. Era belíssimo.
E consegui fazer alguns clássicos, como Nelson Rodrigues, Shakespeare, Tchaikovsky. Foi importante ter o privilégio de passar por esses clássicos todos na mão de grandes diretores, é uma experiência que todo ator deve ter para começar. Esses clássicos podem ter uma leitura contemporânea, entretanto é importante que você parta daqui para conseguir fazer uma releitura.
Depois desses 12 anos, você começa sua carreira no audiovisual ou volta para Curitiba?
Dali eu saio para o audiovisual e começo pelo cinema. Eu estava no espetáculo “Vereda da Salvação”, quando recebi o convite do Waltinho para fazer o filme “Terra Estrangeira”. Logo em seguida, também por causa da participação da Laura Cardoso no espetáculo que chamava a atenção, fui para a TV. Mas o namoro da televisão comigo já vinha de antes, só que qualquer oferta naquele momento não seria mais importante do que o trabalho que eu estava desenvolvendo no teatro. Era muito mais importante permanecer lá. Então, nunca tiveram pressa.
Eu entrei na televisão com 38 anos e a experiência foi ótima. Recebi um convite e resolvi aceitar também porque tinha alguns privilégios, eu continuava fazendo o espetáculo e gravava só às segundas-feiras, terças e quartas – coisa que só o Fagundes fazia. Isso foi em 1995 e não durou tanto tempo assim.
O privilégio era por entrar mais maduro na televisão?
Era porque eles necessitavam do meu trabalho, porque eu daria um outro tom ao trabalho. Foi ótimo, só que eu nunca consegui abandonar o teatro.
Em 2000, depois de algumas experiências com teatro fora do grupo do Antunes, resolvi voltar para Curitiba e montar o ACT — o Ateliê de Criação Teatral, um centro de pesquisa que eu sempre sonhei ter para oferecer formação, um lugar agradável, em que as pessoas se sentissem acolhidas. Porque a gente fica sempre sendo empurrado: ensaia um pouco nessa sala e depois sai, sai do primeiro andar do Guaíra e vai para uma escola, sai daqui… Não. É importante ter um espaço, nem que seja para ficar olhando para o teto, mas que você saia de casa, vá para esse espaço e a arte está ali.
O teatro sozinho não existe – sem a dança, a música, as artes plásticas, a fotografia, a literatura, que são alimentos pra gente.
Luís Melo
O ACT também era para que pudéssemos trabalhar com arte multiárea. Porque o teatro sozinho não existe – sem a dança, a música, as artes plásticas, a fotografia, a literatura, que são alimentos pra gente. Quando os atores saem, só falam de teatro e é muito chato, prefiro sair com pessoas de várias áreas, conversar sobre outros assuntos. É fundamental trabalhar nessa potência, você forma um público para teatro, mas também faz com que conheçam o que está sendo desenvolvido na cerâmica, na gravura, na música.
O ACT formou muita gente. Foram quantos anos em atividade?
O ACT começou em 2000, comigo Nena Inoue e Fernando Marés [ambos em cartaz nesta edição do Festival]. Em 2008, eu mudei para o Campo das Artes, o Fernando Marés já tinha saído e a Nena permaneceu tentando transformar o espaço em um centro cultural, porque ele já tinha sido abraçado pelos artistas e pela comunidade. Mas a gente não conseguiu nem com a Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e nem com o Governo do Estado. A dificuldade foi de financiamento para a manutenção. Quando eu voltei, eles [FCC e Secretaria de Cultura do Paraná] falaram que se dessem um espaço para mim, teriam que dar para todo mundo. Eu respondi: “Dá para todo mundo. As pessoas vão cuidar desses espaços e fazer com que eles permaneçam. Agora, se sucatear, tira. Sucateou, tirou.”
É importante ter esses espaços, pelo menos para locação, para poder manter um trabalho que não é pontual. Mesmo nos projetos culturais que a gente faz hoje em dia há dificuldade, porque só pode ser executado se você tem um espaço para isso.
Antes do Campo das Artes, o Sesc foi importante para você?
Os espetáculos do ACT foram levados para o Sesc. Primeiro foi “Cão Coisa e a Coisa Homem”, dirigido pelo Aderbal Freire Filho e que foi o primeiro espetáculo do Ateliê, depois “Daqui a 200 anos”, que eram contos de Tchekhov. Fiz coisas no Sesc durante muito tempo. Estreei espetáculo no Sesc Rio, e isso até criou um ciúme do Sesc São Paulo. Porém, eu estava gravando lá e havia um projeto para ter um Sesc no Rio de Janeiro – não tão forte quanto o de São Paulo –, mas poderoso e criativo. O Sesc Copacabana era a minha casa, tanto o Arena quanto a Sala Multiuso. Fiz vários espetáculos ali, como “Sonata Kreutzer”, em cima do romance de Tolstoi, que foi criado para aquela Arena e depois adaptei para palco italiano, “RockAntygona”, “O que eu gostaria de dizer”. Para o Sesc Anchieta, eu retornei com o espetáculo “Mutações” em 2023, depois de 21 anos que estivemos lá com “Cão Coisa e a Coisa Homem”. Inclusive “Mutações” também veio para o Festival de Curitiba, em 2024. Enfim, eu nunca perdi essa relação com o Sesc.
Nessas idas e vindas, você nunca parou de trabalhar no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas sempre manteve sua relação com Curitiba. Quando começa o projeto do Campo das Artes? Ele é a sua missão de vida?
Sim, o Campo das Artes é meu projeto de vida. Fica em Balsa Nova, no distrito de São Luiz do Purunã, a cerca de 50 km de Curitiba. Eu me mudei para lá em 2008, por indicação do Beto Bruel [um dos criadores de luz mais importantes do Brasil], que me levou para conhecer. A família Bruel, com seus vários artistas, se estabeleceu por ali. Eu não sei por que escolhi esse lugar; quando vi, já estava construindo. Depois eu ficava fazendo a ponte aérea e sendo taxado de maluco por voltar para Curitiba e ir para o Campo. “As pessoas vão te esquecer”, diziam.
Sim, o Campo das Artes é meu projeto de vida.
Luís Melo
E, na realidade, o trabalho triplicou. Continuo fazendo as gravações, afinal de contas, é como eu consigo manter esses projetos, não tem outra maneira. Lá, os ingressos são gratuitos, porque são projetos que você faz. Mas não são suficientes para a manutenção do espaço e dos espetáculos.
A dificuldade vem da falta de financiamento público para manutenção de um espaço de residência e pesquisa, um centro cultural?
Exatamente. O Campo poderia inclusive ter uma programação mais intensa e atender um número muito maior de pessoas, facilitaria bastante o intercâmbio, principalmente com artistas de fora ou de outras regiões do Brasil. Essa integração é essencial, porque as paisagens são diferentes. Para isso, é fundamental o apoio financeiro, mas é difícil. A Secretaria de Cultura foi instituída há pouco tempo pela Prefeitura, não tinha. Até conseguir o envolvimento com frequência do poder público no local é difícil, porque a partir do momento que você está lá não dá para ficar fazendo de conta de que não existe. E o Brasil inteiro sabe da existência do Campo das Artes.
A abertura para formar um público também é complexa. Você entra com um espaço de arte contemporânea, muito diferente do que eles estão acostumados, do que entendem por arte, como o artesanato e as tradições folclóricas deles – que são super-bem-vindas, principalmente porque alimentam a arte contemporânea. Dá para fazer releituras dos costumes dessas pessoas; as histórias dessas pessoas interessam para uma dramaturgia atual.
Quando o Campo das Artes abriu para o público?
O meu interesse é que essas pessoas ajudassem a pensar o Campo das Artes como um coletivo, seja com o pessoal de literatura, seja com o pessoal de artes plásticas. Tudo é possível ali.
Luís Melo
O espaço só foi aberto para visitas quase dez anos depois de minha mudança para lá. Eu queria ter um mínimo de estrutura e o avanço sempre foi bastante lento. Teve um problema de destelhamento, precisei fazer um levantamento para saber o que acontece no local e adaptar a arquitetura. Em 2017, durante festivais e outros eventos, o próprio Beto fazia uma excursão levando pessoas das artes plásticas para lá, que começavam a convidar outros artistas. O meu interesse é que essas pessoas ajudassem a pensar o Campo das Artes como um coletivo, seja com o pessoal de literatura, seja com o pessoal de artes plásticas. Tudo é possível ali. E também assumir que não é um espaço meu, eu não nasci para administrar nada, nasci para criar, um artista não sabe fazer isso.
Confira toda a estrutura atual do Campo das Artes aqui.
No meio disso tudo nasce a Mostra Pôr do Sol, que neste ano está no circuito independente do Festival de Curitiba. Me conta como ela surge e quem embarca nela com você.
Este ano ela está acontecendo graças à Entre Mundos Produções, com a Laura Tezza e a Dara van Doorn, que são da trupe Ave Lola e estão entrando na produção cultural com características que eu acho interessantes, como a maneira de selecionar a programação e onde investem sua energia. A Mostra Pôr do Sol foi totalmente estruturada a partir de um cronograma com propostas delas, sugerindo outras companhias e estabelecendo a relação com o Festival de Curitiba. E elas foram tocando esse barco com a experiência que ganharam na melhor escola, que foi e continua sendo produzir a Ave Lola. Na primeira mostra, elas já estavam com a gente e agora, na segunda, elas assumiram o comando. A gente está ali para obedecer e curtir tudo o que está acontecendo de maravilhoso, principalmente essa receptividade, porque elas pensam em tudo.
E a curadoria tem esse apoio importante do Festival de Curitiba, porque a gente não tinha assistido os espetáculos, mas selecionou pelo que você escuta sobre eles, para saber se têm a cara do Campo, quais precisam estar na programação para criar uma linha de pensamento contemporâneo – que é a maior dificuldade na integração com a comunidade, com sua visão mais tradicional. Aos poucos, esse contato com arte contemporânea é aceito quando você dá outras possibilidades, e o retorno é bastante positivo, porque você atrai pelo encantamento.
É bastante gratificante saber que você faz diferença na vida dessas pessoas.
Luís Melo
Desde espetáculos que o público recebeu de uma forma superafetiva e nos surpreenderam, porque a gente tinha receio de como as senhoras iriam receber um espetáculo falando sobre empoderamento da mulher, relacionamentos abusivos, feminicídio. Elas saem e tiveram coragem de discutir isso entre elas. É muito bonito de ver. E a afetividade também, muitas pessoas ali são comadres, compadres, mas nunca se abraçaram, nunca tiveram um convívio com arte. É bastante gratificante saber que você faz diferença na vida dessas pessoas.
34º Festival de Curitiba
De 30/3 até 12/4 de 2026
Ingressos gratuitos e pagos até R$85 (mais taxas administrativas), à venda no site www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller - Piso L3 (Segunda a sábado, das 10h às 22h e, domingos e feriados, das 14h às 20h).
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