A Camerata Antiqua de Curitiba apresenta uma estreia mundial nesta sexta e sábado. A obra "Stemning", escrita sob encomenda pelo curitibano Andras Ellendersen. O programa também contará com obras de Beethoven, da cantora Caroline Shaw e de Mozart Camargo Guarnieri.
A abertura do concerto será o terceiro movimento do quarteto 16 de Beethoven, uma das obras-primas do repertório de câmara do século 19. Em seguida, a orquestra faz a estreia da peça de Andras.
Com raízes dinamarquesas, Andras Ellendersen escreveu "Stemning" com base em sua pesquisa no mestrado em Música da UFPR. O texto que serviu de inspiração para a obra é do pensador dinamarquês Kierkegaard, e fala sobre o episódio bíblico em que Abraão, atendendo a um pedido de Deus, prepara o sacrifício de seu filho Issac.
O compositor tem relações antigas e familiares com a Camerata. A avó Ruth Jucksch, a mãe, Bettina Jucksch, e o pai, Atli Ellendersen, todos violinistas, e o tio Thomas Jucksch, violoncelista, integraram a Camerata em algum momento de suas carreiras.
Em seguida, a Camerara apresanta To the Hands, peça coral contemporânea da americana Caroline Shaw, de 43 anos. Será a primeira vez que a Camerata Antiqua de Curitiba apresenta a peça. A composição chama a atenção para problemas contemporâneos, em especial a crise global de refugiados e o acolhimento aos deslocados internos. O encerramento é com a Missa Diligite (1972), de Mozart Camargo Guarnieri.
A regência do concerto será do maestro Ricardo Bologna, que é professor de Percussão e Regência do departamento de Música da Universidade de São Paulo.
O Plural conversou com Andras sobre a estreia de sua peça:
O que você pode falar sobre a peça que a Camerata vai tocar? Como ela se encaixa na tua carreira?
Stemning (em dinamarquês, disposição ou atmosfera) é escrita para coro misto e orquestra de cordas. É uma peça dinâmica, interrogativa e cheia de contrastes, mudanças bruscas de andamento, caráter e afetos. Isso se dá porque se trata de uma representação musical (ou écfrase musical, no jargão acadêmico) de uma narrativa literária.
O texto-fonte é o prólogo do livro Temor e Tremor (1843), de Søren Kierkegaard, no qual o filósofo explora sua obsessão com a figura de Abraão a partir da história bíblica do sacrifício de Isaque. Ali, Kierkegaard reconta esse episódio partindo de quatro pontos de vista, e a música reflete esse jogo de perspectivas através de uma certa flexibilidade estilística.
Há momentos em que a obra evoca a harmonia de um romantismo tardio, enquanto, em outros, é guiada quase puramente por um arroubo rítmico e obsessivo em microtons. Os instrumentos alternam entre sons convencionais e alternativos na construção de texturas e massas sonoras.
Para minha carreira, é um marco importante pois se trata de minha primeira composição orquestral, de modo que muitos dos efeitos propostos na partitura são novos também para mim. É um trabalho de fôlego que por um lado reflete algum amadurecimento de minha linguagem criativa, mas que também congela um instante na trajetória de uma voz em construção.
Como o resultado sonoro é sempre uma negociação entre o compositor e o intérprete, só posso agradecer pela sorte de estar nas mãos de um grupo à altura do desafio e que topou a aventura.
É raro orquestras locais darem espaço para compositores novos. Como surgiu essa oportunidade e por que ela é importante?
Em 2024, uma obra coral minha esteve entre as finalistas de um concurso de composição na Dinamarca. Amigos da cena musical de Curitiba incentivaram que eu apresentasse a peça ao coro da Camerata para propiciar uma estreia brasileira da obra. Em maio do ano passado, Den blinde, røde orm foi cantada com a regência de Angelo Fernandes.
Ainda que muitos nesse meio já me conhecessem desde pequeno por ser filho de músicos, esse momento especial abriu um canal de comunicação profissional com a orquestra que antes eu não tinha. Como estava no meu primeiro ano de mestrado em Criação Sonora no PPG-Música da UFPR, aproveitei o momento para propor à direção uma obra vinculada à minha dissertação que seria dedicada à Camerata, e agradeço a todos que possibilitaram a integração da peça à programação.
É muito importante porque demonstra que, ainda que saiba preservar com excelência a riqueza que herdamos do repertório tradicional, o grupo também sabe olhar para o presente e o futuro da música. Afinal, parte da força que até hoje a música do passado exerce sobre nós vem do fato de ter nascido numa sociedade com a vontade e os meios de nutri-la, preservá-la através de redes públicas de apoio e tradições vivas de criação e interpretação.
Hoje, nosso mundo é mais fragmentado e complexo. Com ele, também a nossa música. O interesse das orquestras é imprescindível para o florescimento de um cenário criativo forte, principalmente no âmbito local. A Camerata já estreou obras de compositoresatuantes em Curitiba como Harry Crowl e Davi Sartori, e faço votos para que colaborações dessa natureza se tornem cada vez mais comuns.
Quem você diria que são tuas influências na música contemporânea? Para quem nunca te ouviu, o que você diria que é possível esperar, com o que você acha que a tua música se parece?
As influências na arte são uma seara que tem algo de misterioso e insondável, porque independentemente daquilo que possamos expressar abertamente, nós nunca sabemos ao certo quais vozes falam através da nossa e de que maneira.
Tenho Ligeti como uma referência de clareza e intencionalidade. Em termos de gosto harmônico, destaco a mescla de idiomas nas obras do finlandês Rautavaara e do americano Timo Andres. Gosto de pensar que minha música traz algo do frio da música nórdica como as de Allan Pettersson e Jón Leifs, talvez animada pela energia solar dos trópicos. Como cristão, encontro inspiração tanto no silêncio de Arvo Pärt quanto no maximalismo místico de Messiaen. E Bach é uma fonte de gênio que nunca seca.
Mas esse é só um lado da história. Desde minha adolescência, tive um pé também no mundo do rock setentista, da música popular brasileira e até do metal extremo. Não vou dizer que escuto de tudo, porque não seria verdade, mas tento expandir meu horizonte sonoro com regularidade, e tudo isso encontra alguma forma de entrar na partitura.
Mais recentemente, fiz uma excursão pelo mundo do improviso e do jazz que despertou em mim um novo apreço pela qualidade irrepetível e corpórea da experiência musical. A música não pode ser só abstração. Precisa de vida, de sujeira — e precisa cada vez mais, num mundo progressivamente tomado pela lógica das IAs.
Hoje encaro a arte da composição com uma atitude muito aberta, sem qualquer traço de dogmatismo. É claro que enxergamos o mundo sempre através de nossos filtros; só Deus pode ver com a pura universalidade. Mas tento pensar que, dentro das minhas limitações, minha música tem espaço para uma vasta gama de recursos estilísticos. Qualquer gesto musical pode ser bem-vindo desde que sirva para expressar o que deve ser expresso. Agora, o que deve ser expresso, essa sim talvez seja a pergunta mais importante.
Para concluir, outra influência incontornável é, claro, a dos professores e mentores que nos cruzam na vida. Davi Sartori, Samuel Andreyev, Harry Crowl e Sunleif Rasmussen, para mencionar alguns, são todos pessoas cujo modo de pensar até hoje exerce impacto sobre decisões muito concretas e particulares que faço na elaboração de uma partitura.
Vi que você é brasileiro mas tem um pé nas Ilhas Faroe. Conta essa história?
As Ilhas Faroe são uma nação do Atlântico Norte, território autônomo no reino da Dinamarca, mas que guarda uma língua, economia e identidade profundamente próprias.
Minha conexão com o país começa nos anos 80, quando minha mãe Bettina, curitibana de ascendência alemã, viajou à Suíça para estudar violino no Conservatório de Música de Berna. Lá conheceu meu pai Atli, um colega nascido em um pequeno vilarejo faroês (Fuglafjørður, o fiorde dos pássaros). Casaram-se na Dinamarca e se estabeleceram em Curitiba anos depois. Desse casamento nasceram minha irmã Anna e eu, que crescemos mantendo laços estreitos com a parte nórdica da família através de visitas bianuais. Meus pais são até hoje violinistas por paixão e profissão, e a Camerata é certamente a única orquestra brasileira que pode ostentar ter tido um faroês no naipe dos primeiros violinos por algumas boas décadas.
Em 2019, agora com sua segunda esposa e seus dois filhos, meu pai voltou a residir nas Ilhas Faroe. É um arquipélago com uma vida cultural muito rica e surpreendentemente agitada, na qual tive o privilégio de transitar nos últimos anos, criando conexões e abrindo várias portas. Sou brasileiro e com muito orgulho, mas essa herança singular é algo que também cultivo com muito carinho. E sou muito grato por tudo isso.
Serviço
Sexta-feira (15/5), às 20h, e sábado (16/5), às 18h30
Local: Capela Santa Maria (R. Conselheiro Laurindo, 273 – Centro)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), pelo site comprenozet.com.br