A palavra yorùbá Àfọ̀sẹ̀ (Afoxé) remete a uma vertente oracular ligada ao culto de Ifá e ao poder do encantamento. Inspirados nessa força ancestral, no final do século XIX e início do século XX surgiram na Bahia os primeiros blocos de Afoxé, idealizados por ogãs dos terreiros de candomblé.
Afoxé é “falar com força”. Com raízes iorubás, essa manifestação cultural e religiosa leva o candomblé às ruas por meio do canto, do ritmo e da dança, afirmando a identidade negra e a espiritualidade de matriz africana no espaço público. É a voz da ancestralidade em movimento.
Em Curitiba, o Bloco Afoxé AyeLayó mantém vivo esse legado desde a década de 1970. Há fontes que divergem sobre a data de fundação, 1979 seria o ano mais citado. O cortejo representa a presença histórica dos povos de terreiro na capital e em sua região metropolitana, reafirmando pertencimento e memória em uma cidade frequentemente associada a uma identidade branca e europeia.
A criação do primeiro afoxé curitibano — quando diferentes terreiros se uniram para ocupar as ruas — foi um marco na afirmação religiosa e cultural afro-brasileira. A iniciativa tornou visível uma verdade que até hoje tenta ser silenciada: há orixá em Curitiba. O bloco foi fundado por importantes lideranças do candomblé local, entre elas Pai José Francisco de Oxóssi Odé Otaoci, Mãe Arilda de Iansã, Pai Sebastião Braz Kafú Milodé, Tata Fernando Costa, Cezar de Iansã, Pai Altevir Tarachiuk, Veco de Iansã, Pai Manoel Muzilo, Pejigan Glauco Souza Lobo, entre outros.
Pai Francisco Odé Otaoci foi um dos precursores do candomblé na cidade, em meados dos anos 1970. Iniciado na tradição por Raimunda de Ogum, mais conhecida como “Pé de Pincel”, construiu uma linhagem espiritual que remonta a Vicente de Matatu, Doné Romana de Possú e Ventura, todos da Bahia. Jornalista, técnico em contabilidade e pesquisador das religiões de matriz africana, tornou-se referência na difusão do culto aos orixás. Fundador do CEPECAB (Centro de Pesquisa da Cultura Afro-Brasileira), implantou os cultos de Exu e Iroko no centro de Curitiba e estruturou uma das primeiras casas de candomblé da capital — a terceira— a partir da qual se irradiou o culto no Paraná. Muitas casas hoje existentes no estado e até em outros países descendem diretamente de sua tradição.

Outro nome fundamental é o de Glauco Souza Lobo, nascido em Niterói e cidadão honorário de Curitiba, cidade que declarava ser o grande amor de sua vida. Militante das religiões afro-brasileiras, do movimento negro e da cultura popular, teve atuação destacada no carnaval curitibano: presidiu as escolas de samba Não Agite e Embaixadores da Alegria e afirmava ser autor do primeiro samba-enredo local. Também presidiu a Fundação Cultural de Curitiba, foi secretário municipal de Turismo e fundou o Instituto Cultural Ilu Aye Odara, articulando políticas públicas e ações culturais voltadas à valorização afro-brasileira.
A força dos caboclos no desfile de 2026
Pai Ibe de Logun, atual presidente do bloco, define o Afoxé como uma manifestação que integra música, dança, espiritualidade e ancestralidade em cortejos que ocupam as ruas no Carnaval. “Mais do que uma expressão festiva, o Afoxé tem dimensão política: afirmar a identidade negra, combater o racismo e valorizar a cultura afro-brasileira no espaço público”, afirma.
Em Curitiba, o Afoxé cumpre papel simbólico na afirmação da presença negra. Desde as décadas de 1970 e 1980, quando passou a desfilar no centro da capital, o cortejo se tornou uma declaração cultural e política: a cidade também é negra, atravessada por batuques, saberes e tradições afro-descendentes enraizadas nas comunidades de terreiro.
Atualmente, o bloco amplia esse reconhecimento com apresentações em palcos e espaços institucionais, como o Museu Oscar Niemeyer e o Teatro Guaíra, além de eventos públicos. Desenvolve ainda oficinas de artes, música e percussão voltadas às comunidades de terreiro, fortalecendo a cultura afro e incentivando a formação de novos afoxés.
O enfrentamento ao racismo, destaca Pai Ibe, é parte da experiência cotidiana dessas comunidades e antecede a própria criação do bloco. Entre as ações recentes está o projeto Afoxé do Amanhã, voltado a crianças, que promove o conhecimento das tradições afro-brasileiras, o respeito à diversidade e a valorização étnico-racial desde a infância.
No Carnaval de 2026, o tema escolhido é “Caboclos e a força da terra”. Definido por votação interna, o enredo homenageia entidades centrais nas cosmologias afro-brasileiras, associadas à sabedoria dos elementos naturais, à fartura, à simplicidade e à conexão com o território. O desfile levará à avenida alegorias e elementos pedagógicos que apresentam ao público os significados históricos e simbólicos dessas entidades.
Tradicionalmente responsável por abrir a noite de Carnaval em Curitiba, o Afoxé cumpre também uma função ritual: purificar simbolicamente a avenida antes da passagem das escolas de samba e dos foliões, harmonizando energias e pedindo proteção espiritual para a festa. “Nosso papel é apaziguar a avenida, para que todos celebrem com alegria e respeito, levando a beleza do povo de santo”, sintetiza a organização.
O cortejo costuma reunir entre 200 e 250 participantes, com expectativa de crescimento a partir da mobilização das comunidades de terreiro da capital e da região metropolitana. Como gesto simbólico ligado ao tema, o bloco pretende distribuir sementes ao público, incentivando o plantio de árvores e a reflexão sobre equilíbrio ambiental diante das mudanças climáticas e do desmatamento.
Entre tradição, educação e afirmação identitária, o Afoxé segue ocupando as ruas de Curitiba como expressão viva da resistência negra e da continuidade ancestral afro-brasileira.