No bairro Boqueirão, em Curitiba, fica o Ilê Asè Igba Afauman. Uma casa de candomblé que carrega há quase 60 anos a função não apenas de louvar os orixás, mas também de acolher, escutar e fortalecer vínculos que vão além de seus muros. Desde o início de março, o Ilê promove uma série de ações culturais e oficinas voltadas à valorização da cultura tradicional dos povos de terreiro. Intitulado “Ocupação Cultural Afauman – Celebrando a Ancestralidade Afro-Brasileira”, o projeto teve início no dia 2 de março e atraiu pessoas de todos os credos.
Taiane Dias Ferreira não é praticante de religiões de matriz africana. Mas ela e a filha Melissa, de sete anos de idade, se encantaram com a oficina de percussão. As duas nunca tinham conhecido um terreiro. “Quando fiquei sabendo da oficina eu perguntei para minha filha se ela queria participar. Ela adorou a ideia e aí fiz nossa inscrição”, conta.
Taiane diz que a decisão de participar das oficinas veio de um interesse antigo, ainda que distante, pelas religiões de matriz africana. Criada no cristianismo, ela passou a rever suas referências ao longo do tempo. Relata que, ao crescer, começou a enxergar a espiritualidade “de outro jeito” e passou a simpatizar com essas tradições, embora nunca tivesse frequentado um terreiro.
“Eu achei uma ótima oportunidade por ser uma oficina, por ser aberta, e também pela questão da gratuidade”, explicou. E acrescenta que já acompanhava manifestações culturais como o bloco Pretinhosidade, além de ter amigos que frequentam candomblé e umbanda, o que despertava ainda mais sua curiosidade.
Mesmo assim, o primeiro contato com o espaço foi recente. Taiane conta que não conhecia o terreiro antes e passou a segui-lo nas redes sociais após ver a divulgação das oficinas. A experiência prática, segundo ela, tem sido surpreendente. “Eu tô achando sensacional. Mas tocar atabaque é muito mais difícil do que eu imaginava”, diz.
As oficinas oferecidas pelo terreiro fazem parte de um projeto que utiliza recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura do Ministério da Cultura. A iniciativa busca valorizar e preservar as tradições de terreiro por meio de uma ocupação que reúne diferentes expressões e saberes ancestrais. A proposta é fortalecer a identidade e a economia das comunidades tradicionais, com capacitações, rodas de conversa, vivências e oficinas. A programação, que vai até abril, inclui vivências culturais, visitas guiadas, rodas de conversa e oficinas conduzidas por Mestres e Mestras Griôt (guardiões da tradição oral africana e afro-brasileira) atuantes nas comunidades de terreiro da região.

Nos últimos anos, o Ilê Axé Afàuman passou a se consolidar também como um centro cultural. As oficinas atualmente oferecidas pelo terreiro são fruto desta conquista, é o que explica a coordenadora de projetos do Grupo Atinsá, Muriel Guitel, que é filha de santo da casa e uma das organizadoras do projeto Ocupação Cultural Afauman.
“A dimensão cultural do nosso terreiro sempre existiu, mesmo antes do reconhecimento formal. O nosso fundador, o Pai Kafú, já incentivava manifestações como samba de roda, capoeira, jongo e maculelê. O terreiro sempre foi um ponto de cultura natural”, lembra.
Segundo Muriel, a formalização do Ilê ocorreu a partir da participação em editais públicos, como os da Política Nacional Aldir Blanc (PENAB), que permitiram o reconhecimento pelo Ministério da Cultura. Ela acrescenta que o espaço também foi reconhecido como de utilidade pública pela Câmara Municipal de Curitiba.
Muriel explica que as oficinas fazem parte de um projeto mais amplo, chamado Ocupação Afauman, que busca estruturar uma “trilha de formação ancestral”. A proposta parte do entendimento de que o terreiro é a base de diversas manifestações culturais brasileiras, como o samba e a capoeira, por exemplo.
O público das oficinas, segundo ela, é bastante diverso. “Recebemos músicos, pessoas de várias vertentes e até sem religião definida”, revela. E destaca que muitos participantes chegam motivados pela curiosidade cultural, e não necessariamente pela religião.
Além dessas atividades, o projeto inclui oficinas de construção de instrumentos, artesanato, gastronomia de terreiro e elaboração de projetos culturais. “A gente ensina a estruturar uma ideia para participar de editais e captar recursos”, explica.
Percussão e dança são as oficinas mais procuradas
As vagas das oficinas deste ano já estão esgotadas. E há uma lista de espera com mais de 30 pessoas para a oficina de percussão. Novas edições devem ocorrer apenas no próximo ano. Percussão e dança são as mais procuradas, com média entre 20 e 25 alunos por edição.
Nas oficinas do projeto quase todos os professores são filhos de santo da casa, além de colaboradores como a antropóloga Janaína Moscal e a contadora Karina, que estuda a cultura negra.
O Ogã Mário Eduardo e o Ogã Vitor são os professores desta oficina de percussão. Iniciado no terreiro ainda criança, Mário ressalta que o processo de aprender e também de ensinar os toques dos atabaques exige paciência. “A gente vai passando exercícios até virar o toque. Nós usamos uma metodologia progressiva, na qual os alunos repetem sequências até desenvolver coordenação e ritmo”.
Ele destaca que nem todos sairão tocando como profissionais, mas acredita que o aprendizado básico já é significativo. E também chama atenção para a diversidade do público. Segundo ele, há tanto integrantes de terreiros quanto pessoas que nunca tinham se aproximado de um atabaque.
Quase 60 anos de história
A trajetória do Ilê Asè Igbá Afauman começa muito antes da criação das oficinas. Em 1951, nasceu no Rio de Janeiro Sebastião Braz. Um homem negro, filho de Pereira Nunez e Maria Isabel Braz. Tanto sua mãe quanto sua avó materna já eram iniciadas no candomblé. Em 1968, já reconhecido como Pai Kafú Milodé, que significa “o pequeno caçador”, ele fundou sua primeira casa de santo em Foz do Iguaçu.
Alguns anos depois, em 1972, mudou-se para Curitiba onde criou o Ilê Asè Igbá Afauman, no bairro Parolim. Depois o terreiro foi para o bairro Boqueirão onde permanece até hoje. Após o falecimento de seu babalorixá, Pai Nillo de Oxossy, Pai Kafú deu continuidade às suas obrigações religiosas ao lado do lendário sacerdote Pai Odé Otaioci, fortalecendo assim os vínculos entre o Ilê Asè Igbá Afauman e o Ilê Asè Igbá Onin Odé Akueran.
Com a morte de Pai Kafú Milodé, em 2009, a liderança da casa passou para Mãe Vera de Oxum, escolhida para conduzir o terreiro. Desde então, ela é responsável por orientar os filhos de santo e manter o culto aos orixás.
Após a morte de Pai Kafú o Ilê por um momento de transição. Mãe Vera conta que muitos integrantes deixaram a casa naquele período. “Eu fiquei com apenas 10 filhos na roça”. Com o tempo, no entanto, ela conseguiu reconstruir o grupo. Hoje, cerca de 40 pessoas participam das atividades, embora muitas morem em outras cidades.

Mãe Vera lembra que o legado da casa atravessa gerações. “Se contarmos desde o primeiro barracão, já são quase 60 anos de história”, diz.
Segundo ela, um de seus principais objetivos ao assumir a casa foi manter o terreiro ativo e ampliar suas atividades, incluindo ações sociais, como a distribuição de cestas básicas e roupas para a comunidade.
Além dos filhos de santo e simpatizantes, o espaço também costuma receber estudantes e pessoas interessadas em cultura afro-brasileira.
Mãe Vera diz que tocar uma casa de santo não é fácil. E hoje, a questão do preconceito religioso segue como um dos principais desafios. Ela conta que, ao longo dos anos, pouco mudou nesse aspecto. “O preconceito continua o mesmo, não mudou nada”, destaca. E critica a falta de articulação entre os próprios terreiros, uma desunião que enfraquece a luta contra o racismo religioso. Ela relembra que, no passado, havia mais cooperação entre as casas, enquanto hoje observa disputas e vaidades. “Antigamente era mais unido”, afirma.
E a história do fundador do Ilê Asè Igbá Afauman vai virar filme. O legado de Kafú Milodé será contado por meio de um documentário que estreia em abril e terá exibição na Cinemateca de Curitiba e em outras duas salas de cinema.