No último ano, a pergunta “como se matar sem sentir dor?” foi 70% mais procurada no Google, de acordo com o Trends, ferramenta que mostra o comportamento das buscas na plataforma. Caso você tenha repetido essa busca e caído aqui, esta é a primeira coisa que precisa saber: você não está sozinho. O medo é real - e a gente entende.
Estudos mostram que quando um país passa por uma piora socioeconômica, também há um aumento do sofrimento como um todo. Quem nos contou foi um especialista: o psiquiatra Deivisson Vianna, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ele completou dizendo que “vivemos numa crise não apenas sanitária, mas também política, econômica e social, com o retorno da fome”. Em outras palavras, “uma crise de autoestima nacional.”
Sobreviver ao Brasil tem se mostrado um baita desafio. Mas outra coisa que o professor nos falou merece ser escrita: a tentativa de suicídio é um pedido de ajuda. “E esse pedido de ajuda precisa ser ouvido. Às vezes alguém considera frescura ou acha que não pode ajudar porque não é especialista, mas ser ouvido é um jeito de diminuir a angústia.”
Você já verbalizou o que está sentindo para alguém disposto a escutar?
Suicídio versus pandemia
Além do professor Deivisson, ouvimos a professora Sabrina Stefanello, também da UFPR. Ambos disseram que não é possível traçar uma correlação direta entre a pandemia do coronavírus e um possível aumento nos casos de suicídio. Ao menos não é isso que os estudos mostram - nem os dados. Em 2019, Curitiba teve 138 casos de suicídio. Em 2020, o número caiu para 122, ou seja, 11,5% a menos.
Você deve estar se perguntando: por que, então, as pessoas estão buscando mais sobre o assunto na internet? Deivisson nos deu uma importante pista lá no início. Sabrina tem outro palpite: “A possibilidade de uma morte desesperadora pode ser muito angustiante. Em Manaus, por exemplo, a gente viu muitas pessoas morrendo por falta de ar. Diante desse cenário, não me estranha que pessoas tenham buscado mais por alternativas.”
Na opinião da profissional, talvez as pessoas procurem possibilidades temendo alguma situação-limite e isso não quer dizer que elas vão necessariamente se matar. Ela também menciona aqueles que já tratavam algum transtorno mental e pioraram com a pandemia, principalmente os mais ansiosos.
“Quase todos nós ficamos mais ansiosos. Pra alguém que já tinha um problema desse tipo, a pandemia pode ter exacerbado muito o quadro. E a gente vê isso na prática, durante os atendimentos. Algumas pessoas estavam em esquema de retirada de medicamento e precisaram voltar a tomar porque ficou intolerável.”
Seja qual for o caso, o acolhimento é a melhor saída - e a solidariedade pode ter a ver com o descompasso entre os dados. “Na minha bolha, eu vi muitas redes de solidariedade e pessoas se ajudando. O acesso à psicoterapia ampliou muito com a possibilidade do atendimento online. Existem grupos se colocando pra atender sem custo, com preço simbólico, com negociação. Na minha percepção, isso provavelmente teve um efeito que a gente não consegue mensurar diretamente.”
Como acolher?
“A gente vive num mundo de emojis de WhatsApp. Desaprendemos a escutar”, afirma Deivisson. “Existem estudos que apontam, por exemplo, que o médico consegue escutar o paciente por seis segundos antes de interrompê-lo com uma pergunta. A gente tem uma baixa capacidade de ouvir o sofrimento sem rapidamente partir para um julgamento, um aconselhamento ou uma resposta vazia como ‘vai dar tudo certo’, ‘não pense nisso’. O acolhimento é justamente a escuta não-julgadora.”
A dica, portanto, é não julgar, não infantilizar nem ridicularizar a demanda do outro. É claro que a psicoterapia é importante e também pode ajudar, mas fortalecer e ampliar a rede de apoio, na visão dos especialistas, é fundamental.
“Não é só uma questão da psiquiatria. É muito mais do que isso e é muito mais complexo do que a própria psiquiatria pode explicar. Então, eu acho mais honesto da nossa parte estimular que as pessoas acionem as suas redes significativas, porque em geral quem está ouvindo pode até não ter certeza do que fazer, mas pode tentar ajudar. Além disso, ao estimular as pessoas a falarem sobre o assunto, a gente vai destruindo o tabu, sabe?”, comenta Sabrina.
Prevenção é abrir espaços para as pessoas falarem das suas angústias; é facilitar o acesso a tratamentos; é ajudar, por exemplo, quem está passando por situações socioeconômicas muito difíceis, que podem ser extremamente estressantes e desesperadoras. Faça o que está ao seu alcance.
E se eu não tiver com quem falar?
O Centro de Valorização da Vida (CVV) é de fácil acesso e tem compromisso com o sigilo. Então, caso você possa usar o telefone, ligue 188. É uma excelente alternativa. Você não será atendido por um médico nem passará por uma consulta. Quem faz o CVV é a própria comunidade. Você vai conversar com outra pessoa disposta a ouvir.
Não quer falar? Prefere escrever? Também dá. Clique aqui para acessar as informações de contato.