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Capital europeia ou centro negro do sul do país?

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Bloco Afropretinhosidade. Foto: Tami Taketani/Plural

Nesse feriado do Dia da Consciência Negra não tem como escapar de olhar para nós e tentar identificar, afinal, quem somos e de onde viemos. Então que lugar melhor para começar do que o Censo Demográfico de 2022?

Uma das primeiras informações importantes que o Censo nos dá sobre Curitiba é que desde o Censo de 2000 o percentual de pessoas que se declaram Brancas na cidade tem diminuído. Foi de pouco mais de 84% em 2000 para 74% em 2022.

Mas o que mudou? O item raça/cor do Censo é autodeclarado. Ou seja, é possível que tenham mais pessoas negras, pardas, amarelas. (Dãh!) Mas uma hipótese válida também é que mais pessoas se reconheceram como pretas e pardas.

Percentual da população por raça/cor, Censo 2022 - IBGE

Mas algo interessante de observar é que a população que se declara branca permaneceu no mesmo patamar de 1,3 milhão de pessoas, enquanto o número de pessoas que se declaram não brancas - e principalmente se declaram pardas - aumentou significativamente. Os residentes de Curitiba que se declaram pardos foram de menos de 200 mil para 355 mil entre 2000 e 2022.

A despeito da fama de "capital europeia", Curitiba é mais negra/parda que Florianópolis e fica quase empatada com Porto Alegre nesse quesito, com a diferença que na capital gaúcha há mais pessoas que se declaram negras, quase o mesmo que as que se declaram pardas, enquanto em Curitiba a maioria se declara parda.

E o Paraná é o estado do sul com maior percentual de população não branca: 35,4%. É um índice menor que a média nacional, que é de 56,5%, mas maior que do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

A diferença que aparece no bolso

Não é só na quantidade que os brancos e os negros/pardos de Curitiba se diferenciam. Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) Trimestral, os dados relativos ao segundo trimestre de 2012, 2018 e 2024 mostram que em Curitiba o rendimento médio das pessoas brancas ficaram de 35% a 45% acima dos negros e pardos.

Rendimento médio mensal de pessoas com mais de 14 anos recebidos efetivamente em todos os trabalhos.

E o mais sério: essa realidade mudou pouco no período. Em 2012 o rendimento médio dos negros foi de 58% e o dos pardos foi de 65% do rendimento médio dos brancos de Curitiba. Em 2024, 12 depois, os negros e pardos registram rendimentos médios de 56% e 59% dos brancos.

Além disso, enquanto o rendimento médio dos brancos avançou 29% no período, o dos negros cresceu 26% e dos pardos 17%. O índice de inflação do período segundo o Banco Central, calculado com base no IPCA, foi de 96%.

Já o relatório do Ministério do Trabalho e Emprego de Transparência Salarial (com base nos dados da RAIS de 2022) aponta que no Brasil o salário médio dos homens negros é 81,5% e o das mulheres negras é 69% do salário dos homens brancos.

No Paraná (o relatório não tem dados por município), a remuneração dos homens negros é 78,4% e a das mulheres 93% do salário médio dos homens brancos.

Servidores Públicos

E já que estamos falando em quem somos, conclui que aqui é o melhor lugar para um dado no qual tropecei há um tempo e tava louca pra contar para alguém: um quinto dos trabalhadores de Curitiba estão na Administração Pública, Defesa e e Seguridade Social.

É uma proporção MUITO fora da curva no estado. Das cinco maiores cidades do Paraná, 4 tem entre 6 e 7% de trabalhadores na administração pública. Parece óbvio já que a cidade não só concentra aqui parte importante da Administração Estadual, como também de empresas estatais, órgãos dos governos federal e estadual, além de três universidades públicas de grande porte. E 30 mil servidores municipais.

Isso nos coloca uma teoria a ser estudada: teria o alto índice de servidores públicos na força de trabalho da cidade protegido Curitiba de maiores perdas econômicas durante a pandemia de Covid-19? Afinal, os servidores não só estiveram na linha de frente do enfrentamento da crise, como também foram pouco afetados por demissões e reduções salariais no período.

A identificação de setores da economia resilientes em crises é fundamental para o estabelecimento de uma política de reação a emergências.

Você pode ter se perguntando qual categoria está em segundo lugar na cidade: O setor de comércio varejista (11%), seguido do setor de serviços (6,7%).

"Ameaça trans"

A julgar pela quantidade de discursos de parlamentares da extrema direita contra o que eles pintam como uma onda da "ideologia de gênero" (entre aspas porque ideologia de gênero não existe) que transforma todos que toca, temos uma fila de pessoas sendo submetidas a cirurgias e procedimentos do processo transexualizador (o que se chama grosseiramente de mudança de sexo).

Mas o fato é que segundo os dados do Datasus, entre 2014 e 2024 foram geradas 966 AIHs (Autorizações de Internação Hospitalar) de itens relativos ao processo transexualizador. Sim, 966, sem zeros à direita.

Isso inclui o acompanhamento do paciente, atendimento clínico, pré e pós operatório, tratamento hormonal pré-cirurgia e a cirurgia em si. A maioria dos procedimentos foram realizados em São Paulo e no Rio.

No SUS, o processo transexualizador é disciplinado pela ​portaria nº 2.803​, que determina, entre outras coisas, que a terapia hormonal prevista no processo só pode ser administrada em pacientes com 18 anos de idade ou mais e os procedimentos cirúrgicos são autorizados só em pacientes com 21 anos ou mais e acompanhamento prévio de dois anos por uma equipe multidisciplinar.

Até a próxima semana!

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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