Com a truculência verbal característica da extrema-direita, fomos mencionados, o Plural e eu, pelo vereador João Bettega (União Brasil) em uma das sessões da Câmara Municipal na semana passada. De acordo com o herdeiro, cujo principal projeto até agora é tentar burocratizar ao máximo a distribuição de alimentos para quem tem fome, eu o acusei de ter agredido uma funcionária terceirizada na invasão à reitoria da UFPR por um punhado de vândalos do MBL, no dia 1 de setembro de 2023.
Se tivesse alguma familiaridade com a língua portuguesa além de usá-la para gritar ao microfone e humilhar adolescente autista em seu canal no YouTube, o nada nobre edil teria interpretado corretamente meu texto e saberia que não o acusei diretamente de nada, mas reproduzi apenas o que, à época, foi nacionalmente noticiado.
Porque não importa de quem partiu o soco que atingiu uma funcionária terceirizada, se do próprio Bettega, do delinquente que veio do Rio de Janeiro, sabe-se lá com quais recursos, ou de qualquer outro dos milicianos que integravam o grupo. A agressão à servidora e às e aos estudantes, incluindo o uso de spray de pimenta, estão amplamente documentados: há testemunhas oculares, imagens do circuito interno da Universidade e um Boletim de Ocorrência registrado na polícia.
Além, claro, das táticas da milícia política que é o MBL, amplamente conhecidas, porque parte da história da ascensão das extremas-direitas ao poder. No Brasil, tomamos ciência do MBL e da violência com que atua, quando sua tropa de choque impôs o terror em estudantes secundaristas durante as ocupações de 2016 e, no ano seguinte, com os ataques à exposição Queer Museu.
Mas a estratégia não é nova. Na história do século XX, ela aparece na Espanha dos anos de 1930, quando as falanges fascistas alinhadas ao general Franco, atacavam, às vezes violentamente, os campi universitários porque temiam o avanço da esquerda nas universidades espanholas.
Na Itália e na Alemanha, grupelhos militantes se empenharam em cooptar estudantes e professores. Os que recusavam o alinhamento ideológico eram agredidos, verbal e fisicamente, pelos camisas negras italianos e as SA alemãs, precursoras das temidas SS, a polícia política organicamente ligada ao Estado nazista alemão.
Apesar das diferenças mais ou menos pontuais, os objetivos eram comuns: eliminar ou aniquilar o inimigo por meio da violência, física e verbal, e da disseminação de mentiras e da propaganda contra a “ameaça comunista”, convencendo seus compatriotas de que uma violência ritualizada e “higienizadora” era importante para livrar o país daqueles que o ameaçavam internamente.
Na trajetória que levou os fascismos ao poder, o uso de milícias paramilitares foi absolutamente fundamental, para intimidar ou mesmo destruir os inimigos. E eles eram muitos: os judeus, na Alemanha principalmente, mas não apenas. A esquerda, por certo, fosse ela comunista, socialista ou anarquista. E o conhecimento, viesse ele de museus, de livros, queimados em grandes fogueiras, das escolas ou universidades.
A delinquência como política
Em seus dois últimos livros, publicados recentemente, o historiador francês Johann Chapoutot mostra que a ascensão do nazismo não foi um acidente na história alemã. Mas resultado da longa maturação de uma “visão de mundo nazi”, uma mescla de “contracultura paranoica”, forjada a partir das experiências traumáticas das décadas anteriores, em um contexto de crise econômica e de forte radicalização política.
Algo parecido ocorreu em outros países, onde o fascismo também prosperou, primeiro como movimento político de rua até chegar a regime de governo, casos da Itália e da Espanha. E em todos eles, a tomada final do poder dependeu, também, de alianças com forças institucionais, conservadoras ou liberais, laicas ou religiosas, que se alinharam aos fascismos por convicção, conveniência ou oportunismo político.
Nos livros, mas principalmente em entrevistas e outras intervenções públicas, Chapoutot insiste na necessidade – e, no caso de historiadores, a obrigação, afirma – de atentarmos para as similaridades entre o ambiente que, nos anos 1920 e 30, tornou possível o fascismo, e o contexto político atual.
No passado como agora, o avanço da extrema-direita é uma tentativa de capturar sentimentos legítimos de descontentamento, desconfiança e mesmo humilhação, transformando-os em combustível para a disseminação do ódio, e plataforma para a consolidação de um projeto autoritário de poder. É o que está em curso nos Estados Unidos de Trump e, no Brasil, com o bolsonarismo.
Aliado de Bolsonaro, o MBL que pariu Bettega (e outro vereador de extrema-direita, Eder Borges), além de lideranças políticas do quilate moral de um Gabriel Monteiro ou Marcos do Val, o “Mamãe Falei”, cumpre nesse projeto papel fundamental: provocar, disseminar mentiras, destruir reputações, perseguir inimigos políticos, invadir e atacar escolas, universidades, manifestações artísticas e movimentos sociais. Em suma: a delinquência como modo de ação política
A invasão ao prédio no Complexo da Reitoria, como comentei à época, foi só o começo. A atuação parlamentar de algumas de suas lideranças, seja na Câmara de Vereadores de Curitiba ou na Câmara dos Deputados, onde se aliou a Arthur Lira (PP-AL) para perseguir e cassar o mandato de Glauber Braga, (PSOL-RJ) não nos deve engar.
Como nas milícias políticas que os antecederam, o compromisso do MBL não é com a democracia, mas com a destruição dela, fragilizando suas instituições, eliminando direitos e liberdades, demonizando a esquerda e perseguindo minorias e grupos vulneráveis. E até aqui, é forçoso reconhecer, o projeto tem obtido êxito.
E ainda que a tentativa de golpe do dia 08 de janeiro de 2023 ecoe a Marcha sobre Roma, e os fascistas de hoje dificilmente sairão às ruas uniformizados, preferindo ameaças e insultos nas redes sociais e tribunas parlamentares, não custa lembrar que o nazismo não começou com os campos de concentração e o holocausto. A violência do fascismo não é monstruosidade ou loucura, tampouco a irrupção de uma anomalia.