A campanha pelo voto impresso e as "quatro linhas da Constituição" voltaram. Depois do voto do ministro Luiz Fux, na quarta-feira (10), pela absolvição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no processo sobre a tentativa de golpe de Estado, lideranças bolsonaristas do Paraná tiraram do armário velhas alegações e frases de efeito, que incluem a necessidade do voto no papel e a anulação da ação sobre os atos de janeiro de 2023. Não faltou a tradicional descrição da imagem de pessoas “com a Bíblia na mão” entre uma janela quebrada e outra.
O deputado federal Sargento Fahur (PSD) partiu logo para a defesa da anulação do processo. Seria a primeira vez na história que o Supremo Tribunal Federal (STF) anularia uma ação em função do voto divergente de um ministro, mas entre o público bolsonarista as palavras de ordem costumam funcionar. “Fux honra a toga. Anula tudo”, escreveu o deputado com letras maiúsculas, talvez acostumado a erguer a voz nas sessões da Câmara. Ele ainda chamou o ministro Alexandre de Moraes de “violadorzinho”.
Fahur ainda utilizou a hashtag “bolsonaro free”, o que pode ser traduzido como “livres de Bolsonaro”, e não “Bolsonaro livre” (o que seria uma afirmação mentirosa, já que o ex-presidente está em prisão domiciliar).
No fim do mês passado, Fahur voltou a defender a pena de morte. “Desgraça só dá despesas”, escreveu. Ele não explicou se a lista do que chama de “desgraças” inclui o bolsonarista George Washington de Oliveira Sousa, condenado por planejar um atentado a bomba no Aeroporto Internacional de Brasília na véspera do Natal de 2022, enquanto golpistas permaneciam acampados na frente dos quartéis. George Washington tinha um cargo no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado pela senadora Damares Alves (PL-DF) no governo de Bolsonaro.
Popcorn sellers under attack
Para o vice-prefeito de Curitiba, Paulo Martins (Novo), o STF “gera medo” até em pipoqueiros, que estariam com sua liberdade de expressão ameaçada ao comentar as decisões dos ministros e o futuro julgamento dos embargos de declaração no processo contra Bolsonaro e os outros condenados.
“O STF é hoje um tribunal que gera medo nas pessoas. Jornalistas, acadêmicos, pipoqueiros, políticos e até advogados, todos temem dizer o que pensam, temem serem notados pela corte”, escreveu Martins, provavelmente inspirado pela célebre frase proferida em abril por Bolsonaro:
“Popcorn and ice cream sellers sentenced for coup attempt in Brazil.”
Jair Messias Bolsonaro, condenado nesta quinta-feira (11 de setembro de 2025) pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.
Para Paulo Martins, Fux é o STF. “O que resta de uma corte constitucional está em Fux”, escreveu o vice-prefeito – o que valerá pelo menos até outro ministro tomar uma decisão que ele e seu grupo político considerem aceitável.

"Impresso e auditável"
Outro deputado federal, Filipe Barros (PL), aproveitou o voto divergente de Luiz Fux para reviver a campanha pelo voto impresso. Em publicação redes sociais, desafiou qualquer pessoa a debater o assunto com ele.
“Eu fui o relator dessa matéria em 2021. Sou um defensor eterno do voto impresso com recontagem pública”, disse o deputado. Apoiador do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Barros não explicou se os bolsonaristas também pretendem alterar as zonas eleitorais brasileiras – a exemplo do que o Partido Republicano vem fazendo nos Estados Unidos, mudar os mapas eleitorais para beneficiar a extrema direita nas eleições futuras.
Barros disse também que a investigação contra Bolsonaro “não passa de ficção” e “invenção” da Polícia Federal: “O ministro Fux acaba de escancarar aquilo que temos denunciado há meses. Ele mostrou as contradições, suposições e invenções da PF e da PGR", disse o deputado, como se o Brasil inteiro não tivesse visto o então presidente dizer que não cumpriria mais ordens do STF no dia 7 de setembro de 2021 – uma clara tentativa de governar como um ditador, sem respeitar decisões de outro Poder.

As famosas “quatro linhas” também voltaram ao vocabulário da extrema direita. Talvez inspirado pelo presidente Lula (PT), Filipe Barros apelou para uma metáfora futebolística para definir as cerca de 13 horas usadas por Luiz Fux para ler seu voto. “Fux botou a bola no chão, jogou redondo e não deu bicão – muito menos recorreu ao VAR. Tudo dentro das quatro linhas”.
Após a confirmação da condenação de Bolsonaro e dos outros réus, o deputado afirmou em vídeo que o julgamento foi "marcado pela parcialidade", "feito no lugar errado" e com "provas forjadas". "Nós vamos fazer tudo para que a anistia seja aprovada", prometeu.
Sobre juízos e competências
O senador Sergio Moro (União Brasil) avaliou que, depois do voto de Fux, o processo deveria ser enviado para a primeira instância da Justiça. "São substanciais e consistentes os questionamentos do Min. Fux quanto à falta de competência do STF para julgar a acusação contra Bolsonaro e os generais", escreveu o ex-juiz declarado incompetente em 2021 para julgar Lula. "A melhor coisa que o STF poderia fazer seria remeter o processo a primeira instância".
Moro não comentou o fato de Fux ter acompanhado Alexandre Moraes na condenação de mais de 600 réus pelos atos golpistas de 8 de janeiro. Dos oito réus da Ação Penal 2668, Fux votou pela condenação de Mauro Cid e Walter Braga Netto, apenas pelo crime de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Augusto Heleno, Alexandre Ramagem, Almir Garnier, Anderson Torres, Jair Bolsonaro e Paulo Sérgio Nogueira foram considerados inocentes pelo ministro. Moraes, Carmen Lúcia, Flávio Dino e Zanin votaram pelas condenações.

"Bíblia na mão"
O deputado federal Reinhold Stephanes (PSD) escreveu que Fux, ao proferir seu voto, estava “demolindo Alexandre de Moraes”. E voltou a falar sobre a "Bíblia na mão" dos manifestantes. “Nunca um golpe de estado poderia ter sido dado com senhoras desarmadas, pessoas com bíblias e com seu líder no exterior sem manter nenhum contato e sem apoio do exército”, escreveu o parlamentar.
Seguem algumas imagens de apoiadores de Jair Bolsonaro "com a Bíblia na mão" no dia 8 de janeiro de 2023 em Brasília:







