O topo de uma serra com a estátua de um Cristo de braços abertos, mas sem ser vista por ninguém. Era de certo modo assim a situação no Morro do Cristo, no distrito de São Luiz do Purunã, cidade de Balsa Nova, localizada a 45 quilômetros de Curitiba. Uma serra de onde é possível enxergar as cidades de Balsa Nova, Campo largo e até capital.
Nesse local, que fica entre o primeiro e o segundo planalto paranaense, no dia 2 de julho deste ano, ocorreu a chamada retomada Morro do Cristo. Hoje, dez famílias caingangue estão instaladas, com onze crianças e quatro pessoas idosas.
A comunidade caingangue resolveu dar vida a um lugar que, até então, estava abandonado e com obras incompletas. Há registros de abandono desse lugar, que já foi movimentado, e que datam de mais de 10 anos.
Nova ocupação
André Matos Kafár é vice-cacique na nova ocupação. Ele já teve a experiência de liderar a ocupação Parque do Mate, que é outra retomada, ocorrida em Campo Largo, ainda em 2022, durante a pandemia, em área pertencente ao governo estadual.
Na verdade, ao lado de sua família, Kafár já atravessou o sul do país. Oriundo do Rio Grande do Sul, logo passou pela ocupação Aldeia Condá, em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, e agora teve experiências no entorno de Curitiba em busca de um lugar para viver. “Já nos acostumamos, desde os dez anos, em fazer essas retomadas”, pondera André.
Desde o início da ocupação, a relação com a prefeitura da cidade de Balsa Nova, as lideranças indígenas relatam, é marcada até o momento por respeito e atendimento nas áreas de educação e assistência social.
A preocupação atual das lideranças indígenas fica por conta do futuro e da mudança de prefeitura, uma vez que a atual gestão de Marco Antonio Zanetti (PSD) deu lugar para Clevinho Poletto (PL), eleito no dia 6 de outubro, com 53,12% dos votos.
A reportagem procurou a prefeitura por duas vezes, mas não teve um retorno sobre o posicionamento da gestão sobre a situação das famílias. O espaço segue aberto para eventual manifestação.
No momento, a maior dificuldade está no acesso à água. A fonte mais próxima fica a cerca de 200 metros do acampamento e o grupo ainda não conseguiu instalar uma bomba de água, além do encanamento suficiente, no local. De toda a forma, André Matos acredita que a nova ocupação tem gosto de futuro. “É como um fruto bom, que atrai os pássaros”, compara.
Lideranças avaliam momento de retomadas de terras
Recentemente, em vários estados do Brasil, o movimento indígena tem realizado retomadas de terras lideradas pelas diferentes etnias. Apenas no Paraná foram pelo menos oito áreas em anos recentes
Na avaliação de lideranças e pesquisadores, esse cenário respondeu a duas questões centrais: a demora na demarcação de terras indígenas e o próprio risco presente na tese do Marco Temporal.
A liderança indígena Jovina Ren Gha, moradora da comunidade urbana Kakané Porã, no bairro Campo de Santana, em Curitiba, avalia que as retomadas são uma orientação presente em todo o país. Na voz de Jovina, elas preservam ou revitalizam espaços. De acordo com ela:
“Tem tantos lugares que estão abandonados e que precisam de cuidado e reflorestamento. As retomadas são para cuidar, não para invadir, precisamos de reflorestamento”, afirma.
André Matos Káfar, uma das lideranças da retomada Morro do Cristo, confirma também que o movimento indígena passa por um momento de ações e troca de informações articuladas nacionalmente.
“Nos sentimentos fortalecidos. Ao todo, são 360 representações nacionais de diferentes etnias organizadas. Infelizmente, muitas vezes é preciso a morte de indígenas para a Funai reconhecer as áreas, mas o que está em jogo é o futuro da minha geração”, reflete Kafár, que possui 33 anos.
Hoje em dia, a maioria das 1.391 terras e demandas territoriais indígenas existentes no Brasil (62%) possui alguma pendência administrativa para sua regularização. Dentre as 867 terras indígenas com pendências, pelo menos 588 não tiveram providência do Estado para demarcação e ainda aguardam a constituição de Grupos Técnicos (GTs) pela Funai, responsável por proceder com a identificação e delimitação destas áreas. Os dados são do Conselho Indígena Missionário (CIMI), de 2022.
Morro do Cristo
Para acessar o espaço, basta ir pela BR-277 e acessar uma entrada antes do pedágio de São Luiz do Purunã.
Construído em 1976, o monumento do Cristo foi “erguido” por um casal de Guarapuava, como pagamento a uma promessa. Trata-se de uma estátua com 18,5 metros de altura. Tanto a estrutura da estátua quanto a capela e demais construções no local estavam abandonadas.
Inicialmente, o terreno é particular, pertencente à Estância Purunã Loteamento de Incorporação de Bens Ltda. Passadas várias vendas e aquisições, foi comprado por uma imobiliária de Curitiba. Desde a ocupação, não há reivindicação jurídica do terreno. O loteamento envolve cerca de 20% da área destinada para preservação ambiental.
Doações de materiais de construção, canos, água e alimentos podem ser entregues no Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), na rua Desembargador Motta, 2791. Contato: 9963-67613 (Gentil).