O deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, votou a favor da taxação de compras internacionais a partir de US$ 50, conhecido como “imposto da Shopee”. Ele também votou contra a taxação de grandes fortunas, a isenção de pagamento do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais e por zerar os impostos sobre produtos da cesta básica. E já se manifestou, veementemente, contra o fim da escala de trabalho 6 x 1, projeto da deputada Erika Hilton, do PSOL de São Paulo.
Apenas a título de imaginação: se fosse um parlamentar nos tempos da Corte, o bolsonarista amigo de Neymar Jr. seria contra a abolição da escravidão e a favor dos interesses dos escravocratas. No parlamento, atuaria para garantir indenizações milionárias aos proprietários de negros escravizados e o porte de arma para que pudessem defender suas propriedades, incluindo, obviamente, os negros escravizados.
Mas, perversa e espertamente, usaria os jornais da época para lançar mão à pena e deslegitimar os abolicionistas, acusando-os de conspirar contra o país, e apresentar-se como paladino da liberdade e da igualdade, escondendo seu apoio à escravidão e aos escravocratas.
Peço licença para esse pequeno exercício de anacronismo histórico para tentar expressar melhor a gravidade do que ocorreu nesses últimos dias, tendo Nikolas Ferreira como protagonista.
Sim, falo da medida desastrosa e desastrada do governo e da onda criminosa de mentiras propagadas pelo deputado em um vídeo que atingiu milhões de visualizações em pouco mais de 24 horas, e acabou se tornando o principal responsável por mais uma derrota governista. Premido pela repercussão negativa e incapaz de convencer pela verdade, Lula revogou, na quarta (15), o ato normativo que alterava as regras de fiscalização da Receita Federal sobre transações financeiras, incluindo o Pix.
O vídeo de Nikolas Ferreira é exemplar da estratégia de manipulação e desinformação da extrema-direita, e que cada vez mais conta com o suporte e a simpatia das plataformas digitais, seriamente empenhadas em turbinar esse tipo de estratégia, simplesmente porque elas dão mais lucro. Vamos a ele.
Contra o “sistema”
É um vídeo curto, como tem de ser para alcançar o máximo de espectadores. Nikolas Ferreira, que não é trouxa, diz nele que “o pix não será taxado”, para tentar eximir-se da acusação de mentir e atentar contra a economia popular. Mas é o que vem depois que cala mais fundo em quem assiste o material: ele não duvida que possa ser, porque, diz, a comprinha do Shopee não seria taxada, mas foi; quem ganha até 5 mil reais seria isento de pagar o IR, e continua pagando.
Quer dizer, se o governo mentiu antes, quem garante que não está mentindo agora? Claro, Nikolas Ferreira não fala sobre como votou nas matérias que mencionei na abertura desse texto, porque ele sabe, e conta com isso, que a esmagadora maioria dos que o assistem e compartilham, não checa informações nem fiscaliza o voto de cada deputado, e é presa fácil do discurso mentiroso de que a culpa, no fim das contas, é mesmo do governo.
Todo o vídeo, incluindo o uso de cores escuras e o fundo musical, é feito para ressaltar não o que é dito – o pix não será taxado –, mas o que é sugerido como possibilidade – que ele pode ser –, além daquilo que é pura mentira: que a medida atingiria principalmente o trabalhador informal e os pequenos empreendedores, que se trata de mais uma tentativa do governo de controlar, vigiar e monitorar a vida das pessoas comuns.
Além de revogar a medida, a reação do governo e dos governistas é sintomática da dificuldade de, não apenas o governo, mas de boa parte da esquerda, em lidar com as estratégias midiáticas digitais da extrema-direita. Acionar o Ministério Público, investigar e eventualmente processar quem espalhou, criminosamente, as mentiras, ainda que necessário, pode dar ainda mais munição à oposição.
O vídeo de Lula fazendo uma doação, via Pix, para os Corinthians, conseguiu alegrar os corintianos, nada além disso. A mudança no comando do Ministério das Comunicações tampouco é suficiente. Não apenas porque o problema do governo Lula não é apenas de comunicação (mas isso é assunto para outra coluna), mas porque praticamente ninguém, fora do espectro progressista, se informa pelas redes oficiais do governo.
Pelo contrário, uma das razões para a eficiência das redes de extrema-direita, além de uma mãozinha de Elon Musk e Mark Zuckerberg, é que na narrativa dos Nikolas Ferreiras da vida, eles são aqueles que resistem ao “sistema”. E se o “sistema” mente, manipula e controla, não há razão para confiar em seus canais de comunicação. Se a rebeldia agora é reacionária, é nas redes sociais que essa “guinada rebelde” melhor se manifesta.
Não é fake news, é mentira
Algumas contas e perfis progressistas, mais ou menos alinhados ao governo, também reagiram. Algumas tentativas esbarraram no pouco engajamento, porque a esquerda parece mais empenhada em criticar o Chavoso da USP porque ele não viu e não gostou de “Ainda estou aqui”. Outras, insistem em apostar na razoabilidade civilizatória como antídoto contra a barbárie, oferecendo uma aula imperdível do professor João Cezar de Castro Rocha que “desmascara mais uma vez a extrema direita”.
Nada tenho contra essas iniciativas, entre outras coisas, porque seria contraditório vindo de alguém que mantém uma coluna (quase sempre) quinzenal em um jornal. Mas sejamos honestos: qual o alcance dos dezoito parágrafos desse texto, ou mesmo de uma aula de um renomado professor universitário em uma plataforma digital, frente ao impacto e aos estragos causados pelas mentiras propagadas, dia sim e outro também, pela extrema-direita? Se os argumentos racionais e os fatos já não importam, qual a saída?
A falsificação e a distorção, com fins políticos, de fatos e informações não é algo novo. Mas a maneira como as redes e seus algoritmos funcionam, direcionados para formarem verdadeiras “bolhas ideológicas”, criaram uma temporalidade nova e, com ela, um circuito de informações (ou desinformações, enfim) em que, justamente, o excesso de contextualização sobrecarrega a lógica do consumo e da replicação automáticas.
Hábil na manipulação dessas ferramentas, o objetivo da extrema-direita é desorientar o leitor no seu processo de formulação de conhecimento e formação de opinião, mobilizando afetos em prol de suas pretensões políticas autoritárias. Trata-se de assumir que qualquer noção de verdade tem uma importância cada vez mais secundária; o enganosamente simples prevalece sobre o honestamente complexo.
Tem funcionado. E é inegável que, até aqui, o campo progressista tem perdido batalha após batalha, permitindo que a extrema-direita paute o debate público e a maneira como temas importantes serão tratados. Inclusive em aspectos apenas enganosamente pueris, como, por exemplo, chamar de fake news o que é pura e simplesmente uma mentira.
À medida que esse comportamento se consolida, são os fundamentos da democracia, mesmo a mais formal e institucional, que estão em risco. E é esse o fim a que aspira a extrema-direita, e para o qual ela mobiliza todos os meios ao seu alcance, inclusive e principalmente, os mais inescrupulosos, como fez Nikolas Ferreira essa semana. O que está em jogo é maior que a aprovação do governo Lula e as eleições do próximo ano.