Em uma de suas máximas mais conhecidas, Marx observou, relendo e atualizando a afirmação hegeliana segundo o qual “todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes”, que seu mestre Hegel esqueceu de acrescentar: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
O velho barbudo se referia ao golpe de Estado de Luís Bonaparte, sobrinho do outro Bonaparte, o Napoleão, que Marx denomina, ironicamente, de o “18 Brumário de Luís Bonaparte”, título do livro que começa a escrever nas semanas seguintes ao golpe e que publica no ano seguinte, onde desenvolve as teses centrais do materialismo histórico.
Perpetrado no dia 2 de dezembro de 1851 (ou o mês Brumário, no calendário jacobino da Revolução Francesa), ele colocou um fim à II República, proclamada após as revoltas de junho de 1848, reimplantando a monarquia e proclamando Luís Bonaparte, Imperador Napoleão III. Sem deixar de considerar a gravidade dos acontecimentos, Marx ainda assim os lê a contrapelo para extrair deles sua dimensão farsesca e caricatural.
Daí a recorrência a dois conceitos teatrais: a tragédia para se referir ao 18 Brumário original, o golpe de 9 de novembro de 1799, que culminou com o fim dos governos revolucionários e o início da ascensão de Napoleão Bonaparte; e a ideia de farsa para mostrar que, diferentemente daquele, que se move desde a Revolução de 1789 em linha ascensional, esse último se apropria de outra revolução, a de 1848, para esvaziá-la.
Mais de um século depois, o teórico Dolf Oehler amplia a leitura daqueles episódios. Em obra significativamente intitulada “O velho mundo desce aos infernos”, Oehler chama a atenção para o caráter agônico dos acontecimentos de 1848 e dos anos imediatamente subsequentes. A derrota dos trabalhadores, perpetrada pela burguesia liberal que abandonara por completo sua dimensão revolucionária, argumenta, firma a aliança entre a nova classe dominante e a aristocracia conservadora.
É essa aliança que encerra, igualmente, a possibilidade de que, mesmo e apesar das diferenças entre trabalhadores e burgueses, algumas inconciliáveis, havia um interesse comum que os unia desde o final do século anterior, o dezoito: a luta contra a tirania.
O ocaso da utopia iluminista foi selado com o sangue de 16 mil trabalhadores mortos nas ruas de Paris em junho de 1848 – e outros milhares, cerca de 30 mil, pouco mais de duas décadas depois, quando a Comuna de Paris foi massacrada, em maio de 1871.
De certa maneira, Oehler faz com Marx o que Marx fez, antes, com Hegel: lê a contrapelo a sentença marxiana. Deslocando o sentido da noção de tragédia tal como aparece no “18 Brumário”, o ensaísta alemão a retoma e relê não em sua acepção estética, mas histórica. E como experiência histórica, ainda que os contextos e atores sejam distintos, as tragédias se repetem ou, mais precisamente: um mesmo acontecimento pode ocorrer, por assim dizer, duas vezes. E em ambas, como tragédia.
Como foi possível que permitissem a barbárie?
Como historiador, não é incomum que pessoas me abordem, dentro ou fora da sala de aula, indagando como foi possível os alemães permitirem a ascensão do nazismo?
Subjacente à pergunta está aquele sentimento, misto de descrença e perplexidade: ninguém percebeu o que estava por vir? Perceberam, mas duvidaram que seria possível? Deram de ombros supondo que, afinal, se o pior acontecesse, não seriam eles as vítimas? Ou, como pretendia Wilheim Reich, não houve engano nem enganados, pois em certo momento e sob determinadas circunstâncias, o nazismo foi exatamente o que elas, as massas alemãs, desejaram?
Não existe uma resposta única, nem fácil. Mas uma maneira de nos aproximarmos de uma compreensão do que aconteceu há quase um século, é olharmos o que estamos vivendo agora, diante dos nossos olhos, e as respostas que estamos dando à crescente ameaça do fascismo que nos assombra, como um espectro.
Não muito diferente do que fizeram aqueles que nos antecederam, nos esforçamos para ignorar e, no limite, normalizar gestos que deveriam, antes, nos inquietar. E não me refiro apenas a saudação nazista de Elon Musk, que alguns analistas brasileiros relativizaram como um simples “gesto entusiasmado” de um fanfarrão –, diga-se de passagem, os mesmos que acreditam em um “bolsonarismo moderado”.
O braço estendido do bilionário cuja fortuna tem origem na exploração, pelo pai, de minas de esmeraldas em Zâmbia, na África, é a face mais visível e teatral – e um pouco bufa, admito – da extrema-direita, cujo projeto político e de poder ganhou um novo e importante impulso com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos.
Em menos de um mês na Casa Branca, entre outras medidas, Trump prometeu assumir a Faixa de Gaza, construindo no local um resort internacional depois de uma “limpeza étnica”, basicamente concluindo o genocídio que o Estado de Israel começou e Benjamin Netanyahu tentou, mas não conseguiu terminar, em sua última investida contra o território e os palestinos; ameaçou países vizinhos; retirou os Estados Unidos da OMS, do Acordo de Paris e do Conselho de Direitos Humanos da ONU e suspendeu o financiamento a programas humanitários.
No âmbito interno, revogou mais de 70 medidas de seu antecessor, Joe Biden; anistiou os golpistas que invadiram o Capitólio em 2021; expulsou milhares de imigrantes ilegais, e prometeu confinar outros milhares em Guantánamo, que pretende transformar em um novo campo de concentração; retirou restrições para a polícia perseguir e prender imigrantes, que agora podem ser detidos em igrejas, hospitais e escolas.
Se a fúria com que o mandatário estadunidense avança sobre quase tudo e quase todos, especialmente os mais fracos, assusta, é importante lembrar que Trump é um sintoma de um movimento que o antecede e criou as condições de sua reeleição. Afinal, o avanço da extrema-direita, hoje como na Europa dos anos 1930, é um projeto político e de poder gestado e executado com paciência e método.
Criar inimigos para temer e odiar
Já se especulou e falou demasiado sobre as muitas condições desse avanço: a aliança entre o neoliberalismo e a nova face do fascismo, exemplarmente demonstrada no individualismo crescente e na desvalorização da política, da esfera pública e dos propósitos coletivos; a incapacidade do campo progressista de responder às demandas urgentes dos grupos e indivíduos precarizados e desenvolver uma alternativa viável e convincente à globalização e ao “realismo capitalista”; a importância e o papel decisivo das big techs e das redes sociais, cujos algoritmos são instrumentalizados para promover as pautas e políticas da extrema-direita.
Mas pouco se fala do papel que as democracias liberais desempenharam na produção dessa ameaça. Se no passado recente a democracia moderna foi construída e se consolidou sobre os fundamentos da escravidão e do colonialismo, a de agora carrega em seu DNA as guerras civis, o apartheid e a ocupação da Palestina pelo Estado de Israel, por exemplo.
Em ambos os contextos, a brutalidade das democracias foi abafada sob um verniz de civilidade e contenção da violência. Mas vimos sua potência destruidora irromper com o horror dos campos de concentração e do extermínio judeu e, agora, a perseguição feroz contra outras minorias, igualmente expostas e vulneráveis.
Os palestinos em Gaza, os imigrantes ilegais, as comunidades negras dos guetos e periferias e a população LGBTQIA+ são os novos indesejados. Representados, nos discursos da extrema-direita, como uma ameaça à sociedade e suas variações – a família tradicional, notadamente –, sobre esses grupos deve prevalecer a mão pesada de um Estado que não é mínimo.
Das muitas medidas anunciadas por Trump nas últimas semanas, algumas se destacam porque dizem respeito, diretamente, à vida de homens e mulheres trans que tiveram seus direitos mais elementares simplesmente retirados, entre elas, a suspensão de passaportes com o gênero X, usado por pessoas não binárias; a expulsão de soldados trans das Forças Armadas; e a proibição de mulheres trans em prisões femininas.
Como em toda ação coordenada, a perseguição trumpista à população LGBTQIA+ recrudesceu a sanha persecutória da extrema-direita brasileira. Em Curitiba, por exemplo, o vereador Guilherme Kilter, do NOVO, quer proibir faixas alusivas ao movimento em prédios públicos da capital. Por que? Não importa, é só ódio e desprezo mesmo, além do gozo de verem uma população já marginalizada e vulnerável, ser ainda mais premida e ameaçada pela precariedade e a violência.
Na prática, o avanço dos direitos LGBTs não retira nenhum privilégio de Trump, Kilter ou de qualquer liderança da extrema-direita. Mas a criação do outro como uma ameaça a ser contida é condição para forjar a identidade e assegurar a unidade do grupo, fortalecendo aqueles que se apresentam como a única salvaguarda capaz de contê-la. Na Alemanha, foram os judeus, hoje, os párias são as “minorias” – imigrantes, mulheres, negros, pobres e, de maneira muito particular, a população LGBTQIA+.
Exagero ao equiparar o que vivemos hoje à experiência trágica do nazismo? Não. Aliás, também foram consideradas excessivas as vozes que ousaram, nos anos 1920 e 1930, chamar a atenção para o risco eminente da ascensão da violência totalitária, que não iniciou com Auschwitz, mas com ideias, discursos e grupos extremistas que fomentaram o medo, o preconceito e o ódio. Na primeira vez, resultou em tragédia. Se seguirmos indiferentes à barbárie, não será diferente na segunda.