Goreng (Iván Massagué) abre os olhos e se depara com suanova realidade: um cubículo de concreto, uma cama de cada lado, um companheirode cela e um poço. Uma espécie de prisão vertical – todos os dias, umaplataforma cheia de comida faz paradas em cada nível. “Os de baixo” comem osrestos dos “de cima”. Cada dupla passa um mês no nível, ao fim dos trinta dias,acordam em outro – pode ser acima, pode ser baixo. Ninguém sabe.
Abaixo do nível 50 – um número intermediário – a comidajá é escassa. Não só por ser insuficiente, mas porque “os de cima” pisam nosalimentos, cospem, comem mais do que necessitam para viver, destroem as sobrasque poderiam alimentar outros. Tudo, é claro, faz uma perfeita metáfora para ofuncionamento da sociedade em que vivemos.
Há apenas duas regras no “Poço”: você come enquanto aplataforma estiver no seu nível, e só; cada pessoas tem direito a levar umúnico objeto consigo – que pode ser qualquer coisa. Aos poucos, Goreng vaiaprendendo os acordos não escritos desse sistema, e o preço que a fome aloucura cobram.
Lembra um pouco a plataforma da peça “Aquele que cai” (“Celui qui tombe”): a constante inconstância das circunstâncias. Momentos altos, baixos, medianos. Companhias distintas. Mesmo ilustrando uma situação inicialmente distópica, as similaridades simbólicas com a realidade estão ali: o passar do tempo; o tédio; a convivência; o acordar, dormir, comer; a forma como as pessoas tendem a se ajustar em uma sociedade – não importa qual seja.
É desconfortável. O filme trata de uma ficção – não éreal. Claro. Mas não é sequer a violência física e gráfica que dói no estômagoao fim dos 94 minutos do filme espanhol. Também não é a tensão e o alívio quetomam conta de Goreng a cada despertar em um novo nível. A angústia e o peso deassistir “O Poço” vem de uma percepção simples: de que, se cada um fizesse suaparte, ninguém estaria na pior das situações.
“É meu direito”, bradam alguns dos prisioneiros enquantopisam e destroem alimentos. “Eu estava lá embaixo, aqui em cima, vou aproveitar.”Ou ainda: “os outros 340 indivíduos de cima são responsáveis, não eu”. O quemais dói é a incapacidade dos seres humanos de, em meio a uma situação extrema,olharem além de si mesmos. Seria coincidência qualquer semelhança com arealidade?
Serviço
“O Poço” está em cartaz na Netflix. Falado em espanhol, o filme tem 94 minutos, classificação de 16 anos e cumpre bem o papel de suspense psicológico.