Umas das primeiras frases que li na vida foi um grafite, no muro pré-fabricado de uma casinha de esquina, a caminho da escola: “Amaral quebrou o pau e foi pro hospital”. Eu e toda a geração em idade de alfabetização, que morava no bairro Santa Paula e estudava na Escola Estadual Raul Pinheiro Machado, em Ponta Grossa, achava o máximo a gíria que designa o “punhal de mel”, como diria Dalton Trevisan, escrita ali, despudoradamente, para todo mundo ler. Poesia, pornografia, urologia e humor, tudo numa frase só.
Não tinha ninguém chamado Amaral no bairro - sim, todo mundo meio que se conhecia por lá, era como uma cidade pequena dentro de uma cidade pequena - então desconfio que Amaral era só para rimar com pau mesmo. Claro que “quebrar o pau” provavelmente significava que o tal Amaral levou uma surra de alguém, mas nossas mentes eram imaginativas o suficiente para não cogitar essa possibilidade sem graça. Nossa interpretação era ao pé da letra e pronto. Até hoje.
Outro grafite notório daquela época foi escrito no muro de uma escola perto do antigo zoológico da cidade (Ponta Grossa, lembra?) -aquele que tinha galinhas e patos em exposição - e que, pouco depois, descobri da lavra de apotegmas de Woody Allen: “Só penso em sexo quando respiro”. Aquela frase algo subversiva levava algum humor para a cidade, sempre cinza e carrancuda, burrenta em essência. Isso é da época em que os grafites se resumiam a frases divertidas. Por exemplo, aquela que Paulo Leminski escolheu como a poesia do ano de 1982, em Curitiba: “Pqna, volta”, escrita por todo um trajeto de ônibus até a rodoviária. Acho que até hoje não descobriram a autoria do grafite nem a identidade da famosa pequena.
O aforismo mais obscuro, da mesma época, no entanto, estava em letra sofrível nos fundos da igreja adventista do bairro. Um enigma que perdura na memória: “Bucetão cai pinto”. Ficou por lá durante anos até colocarem o muro abaixo. O bom dessas pichações é que elas são um acontecimento, são descobertas nas manhãs seguintes, quando você vê uma aglomeração de vizinhos ao redor do muro murmurando o descaramento do meliante.
Como quando escreveram “Ghostbusters" com spray vermelho num pavilhão do colégio Elzira Correia de Sá, três quadras para baixo do Raul Pinheiro Machado. Até então, anos 80, os muros eram só para impedir que gatunos pulassem para dentro da sua propriedade e não um palimpsesto de protestos ou uma "tela de pintura". Agora é raro um muro sem uma sílaba ou um desenho em cores degradê berrantes.
Volta para os Ghostbusters. Parecia ser o nome de uma gangue, mas tava mais para uma turma de jovens notívagos que arranhavam Legião Urbana em volta de fogueiras. Diferente dos "Garis”, um grupo de ladrões liderados por um bandido chamado Cabelo, que aterrorizou o bairro nos anos 70. Eram a versão local das gangues de Warriors, Guerreiros da Noite, Walter Hill. Eu podia imaginar uns caras mal encarados, usando roupas alaranjadas fluorescentes, de vassouras nas mãos e um carrinho cilíndrico verde, à espreita na esquina escura, prontos para acertar a cabeça de um desavisado com um objeto de malha de metal, e roubar seu relógio ou uma carteira magra.
No fim de semana antes do Natal visitei o velho bairro de infância. As casinhas de dois e três quartos se adaptaram e viraram sobrados, lojas, mercadinhos, bancos, hamburguerias, barbearias, panificadoras, açougues, oficinas mecânicas, casas lotéricas, escritórios de advocacia, churrascarias e farmácias. O fluxo de pessoas pelas ruas e a dinâmica econômica própria acelerou e a profecia dos mais velhos se fez: a Santa Paula virou uma cidade.
Ao voltar para casa, um tanto melancólico por rever o bairro de tantas histórias e personagens, passei em frente a uma associação de velhinhos, dessas que promovem danças de salão, bingos e jogos de biriba. Num beco sinistro, grafitado em letras grandes e com ortografia clara, um recado ou uma advertência: “PCC”.
A triste bigorna da realidade caiu na minha cabeça. Amaral's dead, baby. Amaral's dead.