Pular para o conteúdo

Veríssimo e Jaguar: a última viagem.

Por Benett
Veríssimo e Jaguar: a última viagem.
Publicado:

Não duvido que Luis Fernando Veríssimo tenha apurado o passo a fim de pegar o mesmo barco que Jaguar para “o outro lado”. O problema é que Caronte, o barqueiro que leva as almas nunca espera quem não está no ponto. Penso que seria divertido uma última viagem desses dois gigantes do humor juntos, e imaginei um diálogo divertido entre eles. Não creio que ficariam ofendidos com essa minha pequena “diatribe”. É só uma homenagem honesta a meus ídolos de toda a vida:

 Em meio a nevoa densa um Veríssimo apressado chega na barca de Caronte, abre lugar entre desconhecidos e senta-se ao lado do único rosto que lhe é familiar.

Jaguar: - Não morre mais. Eu tava pensando em você agora mesmo.

Veríssimo: - Quem é ex-vivo sempre desaparece.

Jaguar: - Enfim, nos livramos daquela porcaria de mundo. Passamos muito tempo sendo velhos.

Veríssimo: - É, mas não estamos necessariamente melhores agora.

Jaguar: - Olha só, uma plaquinha dizendo “ambiente livre do cigarro”. Esse ambiente é livre de qualquer coisa. Até de ambientes.

Veríssimo: - O Caronte tem a maior cara de quem fumou a vida inteira. Essa pele, esses dentes, o bigode amarelo. Todo esfarrapado. Olhe essas unhas dos pés!

Jaguar: - Ele parece um cartunista.

Veríssimo: - Ele já não devia ter se aposentado? Quem fica em seu lugar quando adoece ou precisa visitar a mãe?

Jaguar: - Ouvi dizer que antigamente você podia fumar aqui, mesmo que tivesse um bebê de colo ao seu lado.

Veríssimo: Antigamente até os bebês de colo fumavam.

Jaguar: - O que pode acontecer se alguém acender um cigarro? O cara vai reclamar? “Ei apague isso, não quero morrer de câncer”. 

Veríssimo: - Esse cara é casado? Será que tem filhos? Estudam em escola pública ou particular? Torcem para o Grêmio ou para o Inter? Votam no Lula ou no Bolsonaro?

Jaguar: - Imagina casar com o Caronte. Um dia ele aparece com uma legião de almas para dormir na sala. E a mulher reclama: “eu disse para não trazer trabalho para casa”.

Veríssimo (imitando a voz de Caronte): - Desculpe, esse trabalho está me matando.

Veríssimo: - Quem banca a travessia das almas? Porque sem subsídios um negócio desses não se sustenta. Sabemos que cada morto leva o óbolo para Caronte mas isso não paga nem a manutenção do barco. 

Jaguar: - Esse barco não vê manutenção desde que Virgílio sentou a bunda nessas tábuas.

Veríssimo: - O que se pode comprar com um óbolo?

Jaguar: - Nem um rollmóps no Bracarense.

Veríssimo: - Caronte deve ser o típico PJ, sem direito a férias e décimo terceiro. O primeiro trabalhador precarizado da História. Só vai se aposentar quando morrer, e SE morrer.

Jaguar: - Acho que o Caronte é laranja de algum deputado brasileiro. 

Veríssimo: - Acho que ele tá metido com o PCC. Os caras estão no ramo dos transportes há muito tempo.

Jaguar: - Olha lá, do outro lado do rio. São as sereias. Consegue ler o que tá escrito naquela placa?

Veríssimo: 50 óbolos oral, 80 normal, 100 anal.

Jaguar: - Engraçado, achei que sereias só existiam no mar.

Veríssimo: - Acho que a Grécia não se recuperou totalmente da última crise.

Jaguar: - Em terra de Caronte, quem tem um olho é ciclope.

Veríssimo: - Ei, estou ouvindo um som de violão.

Jaguar: - É o Tom Jobim.

Veríssimo: - E o Vinícius de Morais.

Jaguar: - O Millôr e o Paulo Caruso estão com uma garrafa de uísque.

Ziraldo: - Estamos esperando vocês. Como na cena em que Paul Sorvino, Robert de Niro e toda a gangue recebem Henry Hill saindo da cadeia, em Os Bons Companheiros.

Jaguar: - Ok, vamos descer aqui.

Jaguar e Veríssimo são os primeiros a descer.

Caronte: - Esperem. Eu vou com vocês. Cansei dessa merda.

Ele joga o remo no água, puxa um cigarro da orelha e põe na boca.

Caronte: - Alguém tem fogo?

FIM

Alberto Benett

Benett

Benett

Cartunista e jornalista, é um dos sócios-fundadores do Plural. Chargista da Folha de S. Paulo e da Piauí.

Todos os artigos
Tags: Humor Paraná

Mais em Humor

Ver todos

Mais de Benett

Ver todos

De nossos parceiros