Os trabalhos de três poetas de Londrina estão reunidos no livro “Marés”, publicado pela editora Banquinho. Marcelo Oikawa e Silvio Oricolli são jornalistas e Rafael Monteiro, publicitário.
Oikawa e Oricolli, ambos nascidos no início da década de 1950, são autores da maior parte dos poemas. Os dois se apresentam com deliciosos autorretratos em que enfatizam as primeiras experiências em redações, o que mostra que se veem, acima de tudo, como jornalistas.
Como poetas, os três se dizem bissextos e, ainda assim, apaixonados por essa forma de expressão. O Plural publica a seguir um poema de cada um desses três autores.
“Capital do café”
(Escrito por Marcelo Oikawa)
Uma Londrina apressada
é do que mais me lembro
Aquela atmosfera
carregada de urgência
Uma ansiedade
de pegar com as mãos
O preço do café
pode subir pode cair
Todos correndo
atrás da fortuna
traiçoeira
como a geada negra
como a superprodução
como os insetos
e fungos
como os ácaros
e os roedores
e como a maior praga
o bicho mineiro
Aqueles olhos amedrontados
grudados
nos imensos cafezais
Se houver geada
Haverá fome
Murmura o trabalhador
Se houver geada
haverá fome
murmura o trabalhador
O vento gelado na noite negra
contamina as espinhas
e vai dobrar
os homens mais fortes
E a Bolsa do Café
com seus fantasmas
espreitando
o interior da noite
É a geada negra
Pedro Venâncio faliu
e desacorçoou
Com ele os Oliveiras
os Tanakas
os Voigts
os Severinos
É a geada negra
A catástrofe fria
derruba
a Bolsa de Nova Iorque
e arrasta junto
homens desconsolados
O trem
cortando a paisagem
vai indiferente
Transportando o prejuízo
e com ele toda a angústia
dos homens aflitos
“Prosaico”
(Escritor por Silvio Oricolli)
Quando decidi medir o dia
Na rua logo ali, pela janela,
Selei meu destino: instituí
Fronteira. E polícia poética.
Sem passaporte, barrei-me
Na alfândega do vitrô. Virei
Sacoleiro de obviedades
“Iemanjá”
(Escrito por Rafael Monteiro)
Pequenino era o grão.
Sem eu perceber, na revoada frenética da vida, ele me invadiu.
Apertou forte meu peito e cantou.
Como se ninasse minha alma fez adormecer minha arrogância.
Gigante era o grão.
Naquele dia ventou. Cheiro de pétala.
O perfume me guiou.
Era o seu quintal. Profundo.
Pedi licença e me banhei.
Escorriam histórias.
Banhei minha força.
Irriguei meus sonhos.
Lavei a alma.
Meus olhos. Uma nascente de água salgada.
Me esvaziei.
De repente eu estava ali.
Grão.