Jocy de Oliveira tem uma trajetória longa e bem-sucedida como pianista, compositora e artista multimidia. Nascida em Curitiba em 1936, passou os primeiros anos de vida entre o casarão dos bisavôs na Rua Aquidabã (hoje Emiliano Perneta) e a casa modernista (projeto de Frederico Kirchgässner), dos pais na Comendador Araújo. Seus pais faziam parte da elite local. Seus familiares formavam um grupo culturalmente ilustrado e moralmente rígido. Essa rigidez definia o espaço que cada um de seus membros ocuparia para sempre. Alguém que não se “encaixasse” poderia até desaparecer, caso da tia Otília, que Jocy chega a questionar se de fato existiu.
Otília é uma das alucinações registradas por Jocy na sua autobiografia. O foco de “Alucinações Autobiográficas” (Ed. Relicário) está na infância passada entre Curitiba e São Paulo. A menina foi amada e cuidada por vários familiares. Mas havia segredos e eles eram levados tão a sério que agora, aos 88 anos, ela encontra tantas lacunas nas suas lembranças que suas memórias se apresentam etéreas como sonhos. Como se ela tivesse passado a infância em contato com fantasmas. Transferidas para o papel, essas memórias incompletas, mas resistentes, proporcionam ao leitor a vivência de um devaneio. Jocy parece falar de outro mundo: móveis art déco, uma avó que escrevia sobre mitologia grega, um tataravô alemão que compunha, um grande quintal que a menina não podia explorar, um velho sempre calado e que tinha o diagnóstico de “melancolia”, o quarto trancado da menina morta, a mesa de Natal que parece cenário de “Fanny & Alexander”. Pode-se deduzir que de tudo a memória da menina Jocy guardou o mais extraordinário e que coisas simples – como a presença do parente depressivo – ganharam ares de irrealidade por terem sido tratadas como tabus pelos adultos.
Em São Paulo, para onde a família se mudou quando o pai, cafeicultor, perdeu a safra após uma geada, começaram os estudos de piano de Jocy. No colégio de meninas ricas, as freiras estrangeiras valorizavam a vocação musical da aluna talentosa e lhe reservavam, para os estudos diários, uma grande sala iluminada por uma claraboia. A mãe exigia que Jocy estudasse todos os dias. Ela descreve uma viagem ao Rio de Janeiro em que, menininha de seis ou sete anos, tocava por horas no grande hall do hotel no Flamengo, “com piso de mármore, grandes lustres de cristal, espelhos venezianos e um piano de cauda”, para deleite de hóspedes idosos. Na mesma viagem, em visita à bisavó em uma mansão de Copacabana, ela tocou dois prelúdios de Chopin no piano de cauda alemão. A alma criadora de Jocy se formava assim, entre o deleite proporcionado pelo mar de Copacabana e velhas damas que se escondiam em salas escurecidas por cortinas pesadas; entre fazendas de café que avançavam sobre a mata paranaense e o canto orfeônico nos corredores da escola; entre o sabor da paçoca preparada em Curitiba por uma mulher preta que pode ter sido escravizada na juventude e o sabor da cuca de banana preparada por Karen, a vizinha alemã.
Em conversa com suas divas, as personagens de suas óperas, Jocy conta as lembranças de infância. É assim que estruturou o livro. Também fala sobre as experiências profissionais que deram o rumo de uma carreira sempre identificada com a vanguarda, as parcerias musicais com colegas artistas, como Stravinsky, Berio, Santoro, e o machismo em que tropeçava a toda hora e que insistiam em lhe dizer que não existia. Jocy diz o que pensa sobre o mundo em que começou a fazer arte e o cenário atual; é sempre uma visão corajosa e crítica. Se não me aprofundo nestes trechos do livro é porque seus relatos de infância me impressionaram fortemente.
Jocy fala em tempo quântico, um tempo que se curva sobre si mesmo, em que o começo resiste e em que o fim não se confirma. Antes de publicar o livro, ela procura uma prima em Curitiba para conferir se suas lembranças fazem sentido. A prima confirma tudo. Tudo é real, tudo existiu. Quando Jocy começa a se sentir aliviada pela validação feita pela prima, percebe que ela fala dos mortos como se ainda estivessem aqui. Ela os recebe em visitas esporádicas e não parece disposta a esclarecer se os sabe mortos, se sabe que delira, se sabe que inventa. É um fechamento perfeito para o tempo que resiste, o tempo das memórias de Jocy.
Serviço
"Alucinações autobiográficas", de Jocy de Oliveira. Ed. Relicário. 170 págs. R$ 76,00.
Leia também: Jocy de Oliveira fala sobre Stravinsky, Berio e sobre ser ignorada por Curitiba