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Sobre esquecer livros

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Numa aula de literatura, anos atrás, a professora fez um comentário que nunca esqueci.

Na minha memória, alguém na sala perguntou se ela tinha lido um livro que não fazia parte da bibliografia da disciplina (e não me lembro mais qual era o livro, mas também não vem ao caso). E ela respondeu algo como: “Sim, li. Mas faz tanto tempo que é como se eu não tivesse lido. Mas lembro que gostei do livro. Preciso ler de novo”.

Para mim, foi uma revelação.

Até então, não sabia que era permitido se esquecer de coisas que você tinha lido (eu era relativamente jovem e proporcionalmente besta naquela época). Ainda mais se esquecer de livros que você tinha gostado de ler.

Dias atrás, li um texto simpático em que a autora se questionava: “Por que ler livros se você vai acabar se esquecendo deles?”.

Uma resposta óbvia é que muita gente gosta de ler como passatempo, ou a trabalho.

Mas o texto quer saber para onde vão os livros que a gente esquece? Se eles não ficam na memória, é possível que fiquem registrados em outra parte do corpo? Na alma, se você acredita nela? Ou será que eles são incorporados ao caráter da pessoa, à maneira como ela vê o mundo?

Nos dias ruins, acho que os livros esquecidos se perdem mesmo, são apagados da memória para sempre. Alguns, pelo menos. Nos dias bons, imagino que a gente faça referências e conexões com leituras esquecidas e não se dá conta disso.

Almodóvar

Demorei para descobrir que “O quarto ao lado”, o novo filme do Almodóvar que estreia nos cinemas na quinta-feira que vem (24), é baseado no livro “O que você está enfrentando”, de Sigrid Nunez.

Na história, a personagem que sofre de um câncer terminal pede a ajuda de uma amiga para se matar. Na verdade, ela só quer a companhia da amiga, se não me engano, para não morrer sozinha. (Li o livro dois anos atrás e já não me lembro muito bem.)

Mas lembro que elas não são amigas muito próximas. Porque todas as amigas próximas se recusaram a ajudá-la. Então a mulher foi atrás de alguém que não tivesse tanto apego e que aceitasse encarar a tarefa.

Estou curioso para ver o filme, mas já posso dizer que prefiro o livro.

Dizem que a gente lê também para se sentir menos sozinha (mais resposta para a pergunta feita antes). Se esse for o caso, as narradoras de Sigrid Nunez são companhias incríveis. Elas observam as pessoas e as coisas que acontecem no mundo com inteligência e paciência. E têm um senso de humor discreto. Gosto de como elas lidam com a vida e com a morte. E de como elas expõem suas ideias.

Além de “O que você está enfrentando”, a editora Instante publicou também “Os vulneráveis” (o mais recente) e “O amigo” (que também virou filme, mas sem estreia prevista).

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Na foto que abre a newsletter: Tilda Swinton e Julianne Moore, no filme “O quarto ao lado”, de Pedro Almodóvar. (Foto: Divulgação)

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Tags: Singular

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