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Restaurar a Mata Atlântica não é agenda de carbono, mas estratégia de adaptação climática, diz especialista

Florestas combatem ilhas de calor, regulam regime hídrico e garantem produção da agricultura. Bioma foi tema de evento paralelo à COP30, em Belém (PA)

Restaurar a Mata Atlântica não é agenda de carbono, mas estratégia de adaptação climática, diz especialista
Apenas 12% da Mata Atlântica estão bem preservados, de acordo com MapBiomas – Foto: Instituto Água e Terra (IAT)
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Do enviado especial, para o Plural e o Observatório de Justiça e Conservação

Belém – Em meio ao avanço das temperaturas, à irregularidade das chuvas e ao aumento de eventos extremos, a restauração da Mata Atlântica passou a ser tratada por especialistas não apenas como política ambiental, mas como chave para a adaptação climática.

Além da absorção de gases de efeito estufa, recuperar florestas significa regular água, estabilizar microclimas, manter solos vivos e reduzir riscos de enchentes e secas — funções que não podem ser substituídas apenas com obras de engenharia nem com créditos de carbono.

Para Roberto Menezes, presidente da Iniciativa Verde, organização do terceiro setor, "não é deixar de fazer restauro por causa da mitigação, mas agora a gente tem que pensar na adaptação”.

“Restaurar a vegetação nativa ajuda na questão da água, da biodiversidade, paisagem, microclima, com efeitos, por exemplo, na agricultura, para manter os sistemas produtivos, na questão do clima, controle de pragas, doenças, alimentos e matérias primas, saúde humana, segurança geotécnica e por aí vai”, explica.

O debate aconteceu na Universidade da Amazônia (UNAMA), em Belém (PA), como parte da programação da Casa da Mata Atlântica, realizada em paralelo à COP30.

O bioma

De acordo com a SOS Mata Atlântica, restam 24% da floresta original – 12,4% são florestas maduras e bem preservadas. É ali que se concentram grandes cidades, regiões agrícolas, mananciais e cadeias produtivas que dependem de estabilidade climática. Cerca de 70% da população vivem no bioma.

A restauração tem efeito mensurável: aumenta a infiltração da água no solo, reduz escorrimento superficial, diminui ilhas de calor, protege encostas, cria corredores ecológicos e melhora a resiliência de áreas produtivas. Estudos mostram que florestas em restauração podem reduzir temperaturas locais e estabilizar a umidade do ar, efeitos diretos na adaptação de territórios vulneráveis.

O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica reúne hoje mais de 360 instituições e mantém a meta de restaurar 15 milhões de hectares até 2050. Apesar do avanço da governança e do aumento da demanda por projetos, a execução ainda é lenta diante da escala necessária. De acordo com Alex Mendes, o país tem por volta de 150 mil hectares em processos ativos de restauração.

O mercado voluntário de carbono tem se tornado fonte de financiamento, mas não é o suficiente. "O carbono é o meio. O fim é a restauração”, afirma Alex Mendes.

“A gente sempre tem que prezar por uma boa restauração, não é restaurar pelo carbono, mas sim o carbono como um plano, uma tecnologia que vai trazer um empreendimento pra dentro do projeto, que vai poder de repente pagar parte desse projeto, não vai pagar a conta como um todo”, conclui.

Restauração como política climática, não só ambiental

A fala dos dois entrevistados converge em um ponto: restaurar a Mata Atlântica é, antes de tudo, uma política de adaptação climática. É o que reduz danos de eventos extremos, assegura água, protege cidades e apoia a produção agrícola em um país cada vez mais vulnerável ao aquecimento global.

Apesar da consolidação científica, a restauração enfrenta entraves legais, econômicos e produtivos que dificultam sua expansão. Para Roberto Resende, sem marco regulatório efetivo, não há escala possível. “Sem mecanismos legais de comando e controle, a restauração também não funciona”, afirma.

Ele destaca que não existe um único modelo aplicável. “Mas, qual restauração? A gente acredita em diversas. Dependendo das questões legais, técnicas, sociais, econômicas e ecológicas.” Mesmo assim, o retorno financeiro lento da atividade ainda afasta investidores. “Nos primeiros anos você só gasta”, diz.

A cadeia produtiva também enfrenta gargalos. “Muitas vezes a gente começa projetos e depois o agricultor está lá com excesso de muda de fruta e não consegue comercializar”, afirma. Além dos entraves de mercado, há custos trabalhistas e operacionais que normalmente ficam fora das planilhas: “A cadeia da reparação gera bastante emprego e renda, mas não podemos esquecer a questão regulatória, custo de mão de obra, custo de segurança. Isso é investimento.”

Outro gargalo crítico é a ausência de seguros adequados ao risco florestal. “O seguro para essa atividade depende da questão climática, de incêndio. A própria seguradora não domina o assunto”, diz. Ele relata que seu grupo conseguiu contratar um seguro pioneiro, mas alerta: entraves regulatórios continuam dificultando a expansão desse tipo de produto.

Roberto também critica falhas históricas na criação de incentivos econômicos. “Acho que a gente teve um equívoco grande colocar muita expectativa em instrumentos econômicos”, afirma. Ele lembra que há bilhões parados na conversão de multas ambientais e cita o programa Nascente, em São Paulo, como exemplo de política que precisa ser destravada.

Rodrigo Matana

Rodrigo Matana

Estudante de jornalismo na UFPR

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