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Quando a arte nos deixa existir

Celebrar o Dia Nacional da Visibilidade Trans é reconhecer que a arte não é apenas expressão. É resistência. É cuidado. É construção de futuro

Quando a arte nos deixa existir
Apresentação de Carmem von Blue — mulher trans, artista burlesca e drag queen — no aniversário de 33 anos do Grupo Dignidade. Foto: João Pedro Cordeiro
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Há corpos que precisam lutar para serem vistos.
Há vozes que precisam insistir para serem ouvidas.
E há datas que existem para nos lembrar disso.

Celebrado em 29 de janeiro, o Dia Nacional da Visibilidade Trans nasce da urgência de afirmar vidas que, historicamente, foram empurradas para o silêncio, para a invisibilidade e para a negação de direitos. Instituída em 2004, a data é um marco simbólico e um chamado à responsabilidade coletiva com a dignidade, a segurança e o futuro de pessoas trans e travestis no Brasil.

Quando falamos em visibilidade, não estamos falando apenas de aparecer. Estamos falando de acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à cultura. Estamos falando de poder existir sem medo. E, nesse caminho, a arte tem sido uma das ferramentas mais potentes de afirmação.

A arte cria frestas onde antes havia muros.
Ela nomeia o que tentaram apagar.
Ela constrói pertencimento.

No cenário nacional, isso se expressa de forma contundente. Em 2025, a cantora Urias lançou Carranca, seu terceiro álbum de estúdio. Um trabalho atravessado por ancestralidade, espiritualidade e resistência negra, que usa a carranca — escultura de proteção — como metáfora para enfrentar violências simbólicas e sociais. Ao afirmar a existência travesti como ato revolucionário, Urias (além de lançar um disco bafônico) reivindica lugar, memória e futuro.

Mas a realidade não é a mesma para todas as pessoas trans.

Poucos meses após participar de um reality musical de alcance nacional em 2024, o cantor trans Nick Cruz anunciou que havia voltado a trabalhar como pedreiro. “Vida real”, escreveu. Seu relato escancara uma ferida aberta: a visibilidade, sozinha, não garante oportunidades. Em um país estruturalmente transfóbico, o acesso e a permanência no mercado cultural seguem sendo um desafio cotidiano. Talento não basta quando portas continuam fechadas.

É por isso que falar de arte também é falar de território, de política pública, de investimento e de compromisso social.

Artistas trans do Paraná

No Paraná, pessoas trans e travestis constroem, todos os dias, uma cena artística diversa, pulsante e profundamente conectada às suas vivências. São artistas que transformam experiências em linguagem, dor em criação, existência em presença.

Entre essas trajetórias estão: 

Noe Carvalho (@noe.carvalhoo), pessoa trans não-binária que atua como cantor, compositor e ator, explorando a música e o teatro como espaços de expressão e identidade;

Victoria Ruiz (@djvr_da_bike), travesti que integra a cena ballroom de Curitiba desde 2022, atuando como DJ, técnica de áudio, produtora e ministrante de oficinas;

Daniê (@dan.m.a.g), homem trans e artista visual, quadrinista e ilustrador, colaborador do Ecossistema de Impacto Social LGBTI+, que amplia narrativas por meio da imagem e do traço;

Carmem von Blue (@eumeseduzo_ ), mulher trans, artista burlesca e drag queen, colaboradora do Grupo Dignidade e ministrante de cursos na área da moda, que transforma o palco em espaço de afirmação;

Korpa Enkantada (@korpaenkantada no Instagram), travesti negra multiartista da Zona Sul de Curitiba, hoje uma das principais vozes da Cultura Ballroom no sul do país;

Kimera Santos (@kimera_santos no Instagram), artista negra e trans cuja trajetória une música, educação e ativismo cultural — cantora, pianista, regente coral, DJ e estudante de Licenciatura em Música pela UFPR;

Siamese (@siamese.lg no Instagram), cantora e compositora que lançou em 2024 seu primeiro álbum autoral, afirmando identidade e sensibilidade por meio da música;

Alec. (@alechbt no Instagram), homem trans e artista de pop rock, que equilibra nostalgia e frescor em suas composições;

Para Carmem von Blue, a arte é também um gesto de sobrevivência:

“Quando uma pessoa trans sobe ao palco, ela não está apenas se apresentando. Ela está dizendo: eu existo, eu crio, eu mereço estar aqui.”

Essa existência não acontece sozinha. Ela se sustenta em redes, coletivos e organizações que compreendem a cultura como direito. Como afirma Rafaelly Wiest, presidenta do Grupo Dignidade:

“Valorizar artistas trans e travestis é garantir cidadania. A arte abre caminhos, mas é responsabilidade da sociedade assegurar que esses caminhos permaneçam abertos.”

Celebrar o Dia Nacional da Visibilidade Trans é reconhecer que a arte não é apenas expressão. É resistência. É cuidado. É construção de futuro.

Que a arte siga sendo espaço de visibilidade, afeto e resistência. E que pessoas trans e travestis tenham suas existências reconhecidas em toda a sua potência.

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