Da UFPR
Tradicionalmente, a divisão de vozes em naipes — baixo, tenor, contralto e soprano — envolve a classificação de voz aguda como feminina e, grave, como masculina. A definição de tipos vocálicos por gênero, entretanto, pode representar uma barreira para vozes silenciadas por grande parte da sociedade.
Essa questão foi levantada por uma estudante do curso de Música da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a partir de suas próprias experiências como coralista trans de voz grave, e a levou a pensar sobre as dinâmicas de formação de corais.
“Eu, sendo uma mulher trans de voz grave, ocupava alguns naipes que em muitos coros são chamados de vozes masculinas. Ao passar pelo processo de transição, esse tipo de tradição relacionada à voz e gênero se torna muito desconfortável”, relata Manu Santos.
“Não há necessidade de colocar gênero nesses sons. A insegurança entre a voz e a identidade é algo muito forte.”
A reflexão foi o primeiro passo para a criação de um projeto que envolve mais de 30 pessoas trans em Curitiba, o coral LLista Trans, idealizado e regido por Manu. Os encontros do grupo acontecem semanalmente no Departamento de Artes da UFPR, com apoio voluntário de estudantes da UFPR e UTFPR. A iniciativa é desenvolvida em parceria com o projeto de extensão Laboratório de Práticas e Ensino de Canto do curso de Música da UFPR (Labvox), coordenado pela docente Viviane Kubo.
A regente destaca que pensar em estratégias pedagógicas relacionadas à criação de um coral formado por pessoas trans é uma tarefa complexa e em desenvolvimento, com pouco material teórico como referência.
“É importante estar atenta às diferentes questões e especificidades de pessoas trans, como desafios socioeconômicos e individualidades relacionadas ao processo de transição de cada pessoa”, afirma.
O repertório da LLista é composto por músicas que representam vivências da comunidade LGBTQIAPN+ e questões sociais, como transfobia, racismo, intolerância religiosa e capacitismo. A seleção também é adaptada às características do grupo, que tem, em sua maioria, pouca experiência com música.