Quem mais depende do ônibus em Curitiba é quem mais paga por ele
Um morador de Caximba compromete quase 19% da renda com passagens. No Batel, são 2,6%. Perde duas horas por dia a mais dentro do coletivo que quem mora no centro — o equivalente a 91 dias úteis de trabalho por ano. Tem 61% de chance de pegar um ponto a 500 metros de casa — contra 100% no Bigorrilho. E não tem terminal de integração, então, quando precisa trocar de linha, paga uma segunda passagem. O sistema que Curitiba se orgulha de exportar é, de perto e por dentro, uma máquina de punir os mais pobres.
1Duas Curitibas, duas experiências
A geografia do transporte coletivo coloca, lado a lado na mesma cidade, dois mundos. Um onde o ônibus é ferramenta de trabalho, um pedaço importante da renda e uma parte enorme do dia. Outro onde o ônibus é opção entre várias — e, quando usado, é rápido, barato e próximo. Entre eles, uma distância que não é só geográfica.
2A desigualdade no mapa
O mesmo mapa, seis lentes diferentes. Selecione o indicador para ver onde a cidade aperta: tempo de viagem, cobertura da rede, transbordos, peso da tarifa (social ou técnica) ou o subsídio público como % da renda. Passe o mouse sobre um bairro para ver os dados completos.
3O imposto da tarifa — quanto da renda vai em passagem
Dividindo Curitiba em três grupos de bairros pela renda per capita, o retrato salta aos olhos. O terço mais pobre — 1 milhão de pessoas, com renda média de R$ 2.194/mês — gasta 12,5% da renda com passagens. O terço mais rico — 328 mil pessoas, renda média R$ 7.173 — gasta 3,8%. É o mesmo ônibus, cobrando a mesma tarifa. Mas a conta pesa 3,3 vezes mais para quem tem menos.
No topo do ranking, cinco bairros da periferia sul — Caximba, São Miguel, Tatuquara, Ganchinho e Campo de Santana — comprometem mais de 16% da renda per capita só com passagens. Quatro deles não têm terminal de integração. Nenhum está entre os que a cidade divulga como referência do sistema.
Top 15 — onde a passagem pesa mais
Top 15 — onde a passagem quase não aparece no orçamento
4O imposto do tempo — quem perde 91 dias por ano no ônibus
O morador médio de Campo de Santana passa 83 minutos dentro do coletivo em cada viagem. Multiplicado por duas viagens diárias, 22 dias úteis, 12 meses, dá 730 horas por ano — o equivalente a 91 dias úteis de 8 horas de puro deslocamento. Três meses do ano dentro do ônibus. No Centro, são 46 minutos — 400 horas/ano, ou 50 dias. A diferença, 41 dias úteis, é o imposto-tempo que a geografia cobra de quem mora na periferia.
40 mil moradores. Renda média estimada: R$ 1.568. Não tem terminal URBS. Em média, quase 1,6 ônibus por viagem (transbordo é a regra).
10 mil moradores. Renda média estimada: R$ 10.352. Centro da cidade. Viagem direta, sem necessidade de terminal.
Top 15 — horas/ano dentro do coletivo
Considerando 2 viagens por dia, 22 dias úteis, 12 meses.
5O desenho do sistema penaliza — terminais e transbordos
Curitiba tem 22 terminais urbanos URBS, distribuídos por 19 dos 75 bairros. Nos demais 56 — onde vivem — pessoas — qualquer troca de linha acontece na rua e custa uma segunda passagem. A integração temporal (cartão + janela de tempo) ameniza, mas não vale para todas as linhas. O efeito prático: moradores da periferia, que já têm viagens mais longas e mais transbordos, gastam mais passagens por viagem.
13 bairros cercados: sem terminal, com viagem longa e transbordo como regra
Bairros onde o desenho força o usuário a pagar duas passagens. São, quase sem exceção, bairros de renda baixa.
Piores coberturas: % da população a 500m de um ponto
6O custo real — e o que o subsídio não cobre
Curitiba paga às empresas concessionárias R$ 8,47 por passageiro — a chamada tarifa técnica, calculada mês a mês pela URBS. Na catraca, o usuário paga R$ 6,00. A diferença de R$ 2,47 é um subsídio público que dobrou em 12 meses: em novembro de 2024 era R$ 1,19 por passageiro; em novembro de 2025, R$ 2,47. Em dinheiro por mês, o aporte saltou de R$ 13,4 milhões para R$ 27,4 milhões. Projetado para o ano, passa dos R$ 328 milhões.
Mas o subsídio é, por desenho, uniforme. Cobre R$ 2,47 por cada passagem, independentemente de quem a usa. Isso significa que, em valor absoluto, o morador do Batel recebe o mesmo aporte por passagem que o morador da Caximba. Em proporção da renda, o efeito é o oposto do que parece: o subsídio representa 7,8% da renda per capita de Caximba — R$ 108,68 por mês — contra 1% da renda do Batel. Nesse sentido, o aporte é pró-pobre. Mas a tarifa social paga pelos mesmos moradores (R$ 264/mês, ou 18,9% da renda em Caximba contra 2,6% no Batel) é pró-rico — e num patamar três vezes maior.
A composição do custo: cada R$ 14,04 gasto por km rodado
Pessoal e encargos somam 44,5%. Combustível, peças, rodagem e amortização somam outros 34,3%. Rentabilidade justa (o lucro contratado das empresas) é 9,2% — R$ 1,29 por km. Em nov/25, com a frota rodando 6,68 milhões de km no mês, esse lucro contratual chegou a ~R$ 8,6 milhões num só mês.
A variação em 12 meses
| Indicador | Nov/2025 | Nov/2024 | Variação |
|---|---|---|---|
| Tarifa técnica | R$ 8,47 | R$ 7,19 | +17,8% |
| Tarifa social | R$ 6,00 | R$ 6,00 | 0,0% |
| Subsídio por passageiro | R$ 2,47 | R$ 1,19 | +107,1% |
| Subsídio mensal | R$ 27,4 mi | R$ 13,4 mi | +104,0% |
| Custo por km | R$ 14,04 | R$ 12,56 | +11,8% |
| Passageiros PE | 11,1 mi | 11,2 mi | -1,5% |
| Frota operante | 1.198 | 1.166 | +2,7% |
7A conta pública — quem Curitiba escolhe subsidiar
O subsídio ao ônibus existe — e é grande: R$ 328 milhões por ano, em ritmo atual. Mas ele não é a única conta que o município paga abrindo mão de receita. Em 2024, Curitiba concedeu R$ 386 milhões em desonerações fiscais (IPTU, ITBI, TCL e ISS) a um conjunto heterogêneo de proprietários, investidores e empresas. Essa conta é 17% maior que o subsídio anual ao transporte — e, diferentemente dele, mira quase sempre em cima de quem tem patrimônio.
As desonerações realizadas em 2024 — onde a isenção foi maior
Ordenados por valor, os programas que mais renunciaram a arrecadação municipal em 2024. Entre as maiores rubricas estão a isenção para terrenos com áreas verdes (54% do total) e o desconto para pagamento à vista do IPTU (21%). A isenção para imóveis hospitalares conveniados ao SUS somou R$ 1.270. Para habitação popular (COHAB), R$ 346 mil. Para clubes amadores de futebol, R$ 715 mil — o dobro da habitação social.
Comparativo anual: subsídio ao ônibus × desonerações × receitas
Isenções de IPTU/ITBI/TCL 2024 — detalhamento completo
| Programa | Descrição | Valor realizado 2024 (R$) | % do total |
|---|
8E se fosse tarifa zero?
Para cada usuário do ônibus, a tarifa zero representaria R$ 3.168 por ano de volta ao orçamento — o equivalente a cerca de dois salários mínimos. Para um morador de Caximba (renda per capita R$ 1.399/mês), equivale a recuperar 18,9% da renda. Para um morador do Batel (renda R$ 10.352/mês), 2,6%. A seguir, os cenários de quanto custaria ao poder público — e onde esse dinheiro poderia ser encontrado dentro do próprio orçamento municipal.
O simulador — mova o slider
Quem ganha mais com tarifa zero — em % da renda
Em valores absolutos, tarifa zero devolve o mesmo R$ 3.168 por ano para todos os usuários. Em proporção da renda, devolve muito mais a quem tem menos. No extremo, um morador de Caximba recupera quase um quinto da renda — 7 vezes mais que um morador do Batel.
Comparando o custo com as contas já existentes
Um aporte de R$ 1,13 bilhão por ano equivale a 18,3% da receita própria do município. É grande, mas não é inviável: representa 3× as desonerações que Curitiba já concede em IPTU, ITBI e ISS.
Onde encontrar esse dinheiro
Algumas opções de financiamento, com base em experiências brasileiras e internacionais — e nos próprios números do orçamento de Curitiba:
Cidades brasileiras com tarifa zero
Mais de 100 municípios brasileiros adotaram tarifa zero até 2026 — a maioria pequena. As três referências mais citadas:
- Maricá (RJ, 170 mil hab) — tarifa zero desde 2014, financiada por royalties do petróleo repassados pela Petrobras.
- Cascavel (PR, 330 mil hab) — a maior cidade paranaense com tarifa zero integral, desde 2023. Aporte anual da ordem de R$ 90 milhões — ~3% da receita própria.
- Caucaia (CE, 370 mil hab) — tarifa zero a partir de 2023, com repasse estadual e recursos próprios.
Nenhuma cidade brasileira do porte de Curitiba (1,77 milhão de habitantes) implantou tarifa zero integral até a data desta reportagem. A objeção usual é o custo; o que este simulador mostra é o tamanho exato desse custo — e a ordem de grandeza de onde ele poderia ser extraído.
9Tabela completa por bairro
Explore os 75 bairros. Ordene por qualquer indicador ou filtre por distrito. A coluna "Subs/renda" mostra quanto da renda per capita de cada bairro é coberto pelo subsídio público — uma forma de ver, em proporção, quanto o aporte beneficia cada área.
| Bairro | Distrito | Pop. | Renda est. | Terminal | Tempo | h/ano | Cob 500m | Ônibus/viagem | Social/renda | Técnica/renda | Subs/renda |
|---|
10A vista dos Distritos Sanitários
Agrupando pelos dez Distritos da cidade, Tatuquara, Bairro Novo e CIC concentram os maiores tempos, as menores rendas e os maiores impactos da tarifa. Matriz e Boa Vista, onde estão os centros de emprego, têm o ônibus como parte menor da vida dos moradores.
Mais de Rosiane Correia de Freitas
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