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Militarização das escolas é violência contra crianças e professoras

Projeto tira gestão das escolas das mãos de quem tem anos, às vezes décadas de estudo e experiência, e entrega para quem quer se aventurar na educação

Militarização das escolas é violência contra crianças e professoras
Foto: Tami Taketani/Plural

Imagine que você estudou anos para se especializar numa área. Também contabilizou milhares de horas de trabalho, de experiências e avaliação de resultados. Que se esforçou para encaixar na rotina pós-graduações, mestrado, até doutorado. Que colocou dinheiro do próprio bolso em experiências de inovação. Daí depois de tudo isso, teu chefe diz que vai contratar o sobrinho para gerenciar o trabalho. O sobrinho cujo único interesse na sua área é agora querer mandar em você.

Pois é isso que está acontecendo com professores e professoras em todo Paraná. E que os vereadores de Curitiba querem para a rede municipal de ensino. Ao invés de premiar com promoções e aumento de salário as pessoas que estão há décadas trabalhando e estudando para gerir as escolas da cidade, que possuem formação acadêmica de elite na área, que levaram nossos alunos a bons resultados, a iniciativa de converter unidades municipais em escolas cívico-militares entrega a gestão dessas unidades a policiais militares com nenhuma experiência ou formação em educação.

Pior, nenhuma formação específica no ensino fundamental anos iniciais, uma fase de ensino essencial e fundamental para o percurso acadêmico dos estudantes. É nessa fase que os estudantes se alfabetizam. Quando estabelecem sua relação com a rotina escolar, aprendem a estabelecer hábitos de estudo. Mas também é um momento de transição da educação menos estruturada e mais lúdica da educação infantil para a formalidade do ensino regular.

O sobrinho que os vereadores de extrema direita querem empregar nas nossas escolas pode até ser um policial competente. Mas não é um educador. Colocar um PM numa escola - em especial numa escola do Ensino Fundamental - é como colocar um elefante numa loja de louças. O elefante pode ser gentil, mas vai causar um estrago, mesmo que com a as melhores das intenções. O que os vereadores querem fazer é, na realidade, usar verba da educação para fazer um agrado para os policiais militares.

Mas o fato de deixar de lado a experiência, a formação e a competência das educadoras em prol de alguém sem nenhuma credencial na área é uma violência absurda. Assim como seria se aquele cenário lá no início desse texto acontecesse contigo. Mas também é uma violência contra as crianças. A escola é o espaço delas, um mundo em que elas negociam a transformação de bebês em crianças e, futuramente, adultos. O estudo moderno da educação tem cada vez mais apontado para a necessidade de criar espaços para o erro, para a tentativa. Bota um PM aí: elefante numa loja de louças.

Outro fator crítico: essa ideia de que a disciplina é o fator central em torno do que se organiza a escola (ideia base do projeto das escolas cívico-militares) não só é um desserviço a disciplina como parte da formação do aluno, como cria um ambiente que não só não é adequado para neurodivergências (incluindo aí as altas habilidades), como ativamente sufoca esses estudantes.

Explico: o que sabemos hoje sobre neurodivergências (graças muito ao estudo do cérebro) é que muito do que se vê como "indisciplina", é, na realidade, desregulação. Ou seja, a criança que grita, que se joga no chão, que "empaca" é uma criança que está sobrecarregada. O trabalho aí da escola (e da família) é descobrir como sair da crise e como evitar a crise. E isso vai construir para criança um arsenal de recursos que a ajudará a lidar com situações difíceis no futuro.

É um trabalho delicado, sensível e de longo prazo. Não há quilometragem marchando que faça o mesmo. No máximo, a imposição da disciplina força a criança a transferir sua incapacidade de lidar com a sobrecarga para outras áreas (semeando futuros distúrbios). Claro, o olhar leigo vai ver a criança marchando e achar que é uma vitória. Pior, não vai ver a criança que vai sair da escola, que será deixada para trás nesse sistema de exclusão.

A "disciplina" das escolas cívico-militares é uma aberração. A disciplina não é um fim em si mesma. Mesmo na polícia, a disciplina serve a um propósito, de garantir da hierarquia de comando e os padrões de atuação. No esporte, a disciplina é um processo: a manutenção do trabalho constante na busca de um resultado que só irá aparecer - se aparecer - no final.

Nem toda disciplina tem "cara" de disciplina. Na escola montessoriana, por exemplo, a disciplina é a da tentativa. A criança tem um espaço preparado para que possa tentar conta de si mesma. Por exemplo, ela tem acesso a um bebedouro e aos copos. Nas primeiras tentativas a água vai vazar, ela pode derrubar o copo. A disciplina aí é a de continuar tentando.

Nas escolas do Ensino Fundamental, a construção da disciplina é igualmente caótica (para que vê de fora). As crianças vão, por exemplo, ao teatro. Elas conversam, riem, esquecem suas coisas para trás. Demoram para fazer silêncio depois de sentar nas cadeiras do auditório. Alguém que esteja vendo de fora vai pensar que é um absurdo, uma falta de respeito. Mas essa pessoa não está vendo o trabalho da equipe pedagógica, nem vai ver os próximos passeios, quando as crianças já sabem o que se espera delas e vão internalizando não a necessidade do silêncio, mas a compreensão de que há momentos e lugares para cada comportamento. É disciplina, mas com sentido, propósito.

Permitir a implantação do projeto de escolas cívico-militares na rede municipal de Curitiba é acelerar a exclusão de crianças neurodivergentes, é piorar a crise de falta de professoras com formação adequada. Mas principalmente é permitir que o dinheiro e o tempo da educação (esse impossível de ser recuperado) sejam desperdiçados numa aventura cujos danos só vamos poder avaliar no longo prazo.

A Câmara de Curitiba, que virou caixa de reverberação da gritaria das redes sociais, deve aprovar o projeto. Mas isso não impede que a população possa pressionar o prefeito para que ele o vete. Curitiba não tem dinheiro sobrando na educação para pagar aventureiros para gerir nossas escolas.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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